O Conselheiro von Hagen mostra-nos as Baias para Portugal no pós Troika

JuergenVonHagenJürgen von Hagen, conselheiro de Estado alemão e português

Jürgen von Hagen é um desconhecido entre nós; mas merece alguma atenção: é um economista, conselheiro do governo alemão e vogal de um semiclandestino Conselho das Finanças Públicas português, sendo a esse título conselheiro (semiclandestino, entenda-se) do governo português; ontem o Público deu à estampa uma longa e maçadora entrevista com o Doutor von Hagen; vale a pena examinar os seus pontos principais pois devemos tê-la por expressão oficiosa do governo alemão, sendo o seu conteúdo composto de recados para o governo português. 

V. Hagen começa por distinguir Portugal, «o bom aluno», da Grécia – mas a distinção é apenas política, nós não queimamos bandeiras (alemãs, subentende-se); não produz nenhum distinção económico-financeira entre o nosso país e a Grécia. Hagen considera que Portugal tem hoje a oportunidade de regressar ao financiamento de mercado «em condições razoáveis» (razoáveis, queira anotar); para ele, o acordo com a troika sofreu de erros de conceção e de execução; os primeiros são esquecidos; entre os segundos, refere apenas um: «o governo sobreavaliou a sua capacidade para cortar nas despesas». Também tivemos «azar», pois o nosso programa coincidiu com o enfraquecimento das economias mundial e europeia: «tem de se aceitar a conjuntura económica tal como ela é». Hagen refere depois «uma oportunidade perdida» no começo do troikismo: «envolver mais o setor privado» na «reestruturação da dívida» o que foi rejeitado  «pois assumiu-se no discurso político que toda a reestruturação da dívida implicava necessariamente uma saída do euro». Hagen considera que a desvalorização, mediante o regresso à moeda nacional, não faz sentido, pois «poderia ajudar no muito curto prazo mas as consequências a prazo seriam muito mais difíceis». Hagen defende que saiamos da troika mediante um programa cautelar, por ser um «seguro» a favor da economia portuguesa; esse programa acarretaria condições constrangedoras mas «o melhor» seria o governo português aprovar um plano orçamental «plurianual» e apresentá-lo aos credores.

O Economista Português propõe quatro breves comentários às declarações do Doutor J. von Hagen:

* A referência às desvalorização do escudo futuro revela ignorância dos efeitos da dita e essa mesma ignorância revela-nos os receios berlinenses: se desvalorizarmos, pagaremos menos a dívida;

* * A atitude fatalista sobre a conjuntura internacional mostra a cegueira, que impede  a União Europeia de ver a possibilidade de manipular a despesa; Hagen, como o Banco Central Europeu, quer o regime do padrão ouro, que conduziu à depressão e à guerra nos anos 1930; é o padrão euro, igualmente ruinoso;

* * *  A perdida contribuição do setor privado para a reestruturação da dívida é, encapotada, a solução cipriota, tão do agrado da Srª Merkel – e é uma ameaça direta a Portugal: não emprestaremos mais dinheiro num segundo «bail out», dizem os alemães, preferimos nesse caso levar Portugal à bancarrota;

* * * * A conjunção das recomendações sobre política orçamental e sobre o programa cautelar significa que Berlim receia que o governo português, seja ele qual for, aproveite o fim do acordo troikista para aumentar a despesa pública, financiando-a por mais dívida, a juro insustentável – e rejeita essa independência portuguesa. Por isso, continuando a política atual, o Dr. Paulo Portas não conseguirá o fim do protetorado, sussurra-lhe o Doutor Hagen.

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