«Pedro, valeu a pena? Por um grau?»

UmGrauDentro de poucos meses, terá acabado a execução do programa da troika para Portugal. A dívida pública será maior do que há três anos, são nulas as  probabilidade de a pagarmos (ou reduzirmos a metade, como Maastricht manda), o nosso nível de vida é menor e não regressámos  ao mercado financeiro internacional – exceto se pagarmos 5% de juro pela dívida pública a 10 anos; o Engº Sócrates estava disposto a que pagássemos 6%. A grande diferença para melhor estará em um ponto percentual, embora 5% ou 6% sejam ambos insustentáveis. Apesar de ter falhado em tudo, o Dr. Passos Coelho gritará «Vitória», com a reservada colaboração dos socialistas. Valeu a pena?

A’ O Economista Português, esta nossa triste situação lembra uma anedota do tempo da Guerra Fria. Leonid Brejnev, o chefe comunista russo, e o Czar Nicolau, o último dos autênticos czares da velha Rússia, encontram-se no céu. Dois russos longe da pátria caem logo nos braços um do outro. Nicolau pediu novidades da velha Rússia: «Os jornais ainda são submetidos à censura prévia?» «A Censura právia é uma instituição do passado. Agora a imprensa é toda escrita por funcionários», retorquiu o moço Brejnev, surpreendido por ter que dar uma informação para ele tão óbvia.

O czar Nicolau levou as mãos à cabeça, como o desesperado que desperdiçou uma oportunidade de salvação, e pediu mais informações sobre a Rússia moderna: «A Okrana, a polícia secreta, continua ativa?» «Já não há Okrana, já não há polícia secreta, a Rússia tem um Comité para a Segurança do Estado, operado por  milhões de operosos e competentes funcionários, que protegem os cidadãos dos seus inimigos». Nicolau repetiu o gesto anterior, evocando uma nova salvação perdida; e, mudando de direção, voltou à carga: «Quantos graus tem o vodka este ano?» Na Rússia, a graduação do vodka é em cada ano fixada pelo governo e quanto mais alta melhor, pois o vodka é produzido a partir do trigo e só é muito alcoólico quanto o povo está alimentado em pão. «49º», respondeu Brejnev de peito feito, finalmente triunfante. Tinha tido 48% no último ano antes da Revolução Bolchevique.

Ao ouvir estes «quarenta e novo graus», Nicolau, que tal como Brejnev tinha bem presente no seu espírito o teor alcoólico do vodka na véspera da Revolução, irrompeu num repente em choro convulsivo. Brejnev não compreendeu esta reação e exteriorizou até alguma perturbação: torceu-se. Nicolau, sem reparar nele, sempre chorando, concluiu: «Por um grau! Estas trapalhadas todas! Leonid!!! Valeu a pena?»

»Pedro, valeu a pena?»

N. B. O Economista Português trocou o habitual «Dr. Passos Coelho» pelo inovador «Pedro», sob a exclusiva inspiração do czar Nicolau. Obrigado, Nicolau. Une fois n’est pas coutume.

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