Num Debate parlamentar lamentável > o Dr. Passos Coelho ignora o último Estudo do FMI sobre a Dívida

FMIValorDaDívidaECrescimentoaCurtoMédioLondoPrazoUma dívida alta não impede o crescimento económico a médio prazo (Fonte – http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2014/wp1434.pdf)

O debate parlamentar de ontem foi a todos os títulos lamentável. O Bloco de Esquerda, um partido com porta para a rua, consentiu que uma sua deputada, falha de propostas,  insultasse o Primeiro Ministro – e o Sr. Primeiro Ministro cai na esparrela, declarando que se recusava responder à insultante, ao invés de anunciar que responderia, pois está a falar com os eleitores, mas não se dispensaria de pedir um parecer à Comissão de Ética parlamentar para se certificar serem inaceitáveis os termos em que foi tratado. Vimos assim o Dr. Passos Coelho defender a sua honra pessoal para esquecer a dignidade da República.

Os efeitos do debate foram também lamentáveis. Entretidas com a mudança de treinador de um clube do norte e com o conflito na Ucrânia, nem a SIC nem a TVI acharam que valia a pena informar, no período de maior audiência do noticiário da noite, entre as 20 horas e as 20h30, sobre o debate económico ocorrido em S. Bento. Terá sido com o benemerente propósito de poupar aos espetadores o desgosto provocado pelo conhecimento das frases dos Drs. Coelho e Seguro? Leia mais e entrará num Portugal diferente do das televisões de sinal aberto.

O conteúdo do debate económico foi pungente. O Sr. Primeiro Ministro  afirmou sem hesitação nem disfarce: «Não podemos regressar aos salários e pensões de 2011». A frase é pior do que mandar-nos outra vez emigrar: é o empobrecimento perpétuo, mesmo que emigremos. Porque contém uma extraordinária promessa negativa : o Dr. Passos Coelho só pode garantir o cumprimento dela se pela primeira vez  confessar aquilo de que a oposição o acusa, isto é, se confessar querer destruir a economia portuguesa. A frase dá ao Dr. Coelho um lugar na história de Portugal pelas mais tristonhas razões.

Para quem o quis ouvir, o Dr. Passos Coelho explicou a razão do seu programa de empobrecimento perpétuo: «a dívida portuguesa é sustentável». Esta declaração mostra que o Dr. Coelho não se apropriou do último estudo do Fundo Monetário Internacional sobre os efeitos da dívida sobre o crescimento. Vejamos.  Como o leitor sabe, Kenneth Rogoff e Carmen Reinhardt usando contas erradas gabaram-se de ter demonstrado que, quando a dívida pública ultrapassa os 90% do PIB, o crescimento económico desacelera ou desaparece. O Dr. Coelho, Berlim e a Comissão Europeia acreditam nesse «patamar mágico» dos 90% – e por isso estão dispostos a destruir meio Portugal a fim de descerem a dívida para 89% e a economia portuguesa poder assim voltar a crescer, sobre os seus escombros.

Ora voltou a provar-se que os 90% são um número sem fundamento. Com efeito, acontece que o Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou o mês passado um estudo demonstrando estatisticamente que esse «patamar mágico» dos 90% não existe, que países com dívidas de 130-140% do PIB conseguem taxas de crescimento elevadas,  quando o problema é equacionado a dez ou quinze anos (linhas azul e negra no gráfico acima) e não a um ano (linha encarnada).  Ou seja: a economia portuguesa voltará crescer, mesmo com essa dívida, desde que o governo siga uma política de crescimento, a qual tem que assentar na recuperação da confiança, na melhoria da produtividade, no regresso dos portugueses ao trabalho e no apoio dos nossos credores. O que o governo do Dr. Passos Coelho não tem conseguido, por estar na mão de credores e ser dominado por uma teoria económica errada.  Sem esse apoio, reestruturar a dívida ou sair do euro será o preço para Portugal sobreviver com mais de quatro-cinco milhões de habitantes. O acesso ao citado estudo do FMI é dado na nota ao gráfico supra; O Economista Português espera voltar  em breve a comentá-lo.

O Dr. António José Seguro não quis deixar de dar o seu contributo pessoal  para que a sessão parlamentar de ontem fosse em absoluto deprimente; disse o prócere socialista: o governo «deve uma explicação ao País se não conseguirmos regressar aos mercados sem condições», isto é, sem o chamado programa cautelar. Extraordinária frase! Ela evidencia que o Dr. Seguro não interiorizou o que O Economista Português revelou em primeira mão e que ainda ontem foi confirmado pelo Doutor  F. Teixeira dos Santos, o duradouro ministro das Finanças do Engº Sócrates, no qual o Dr. Seguro tem razões partidárias para acreditar: a Alemanha quer uma saída limpa para Portugal.  Ou apercebeu-se e quer dar a fuga ao Dr. Coelho, prometendo-lhe desde ontem absolvição e benção no caso mais do que certo de a nossa saída ser limpa à força (nesta profecia, O Economista Português parte do princípio que o conflito da Ucrania não precipitará uma crise internacional). É certo  porém que o Dr. Seguro não aconsiderou relevante mencionar a taxa de juro de casa de prego a que temos tido que pagar como ágio do nosso acesso ao mercado financeiro internacional, como critério para averiguar  a limpeza da saída do programa da troika. Recordemos que o governo do Engº Sócrates, antes de fazer as malas,  tinha acesso ao mercado internacional – mas a caminho dos 7% de juro.

Em resumo: Políticos que confundem radicalismo e má educação. Meios de comunicação social que dão circo e esquecem o pão. Responsáveis do governo e da oposição que revelam o seu afastamento das soluções para os nossos problemas.  Em conclusão: assim não vamos lá.

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