Manifesto dos 70: Voluntarismo neoliberal aplaude o Dr. Passos Coelho

ReformaAgráriaO voluntarismo neoliberal de 2014 lembra o marxista leninista de 1975

O primeiro-ministro condenou o manifesto dos 70 e foi aplaudido pela plateia de cerca de 220 convidados que ontem  no hotel Ritz assistiram à conferência «Portugal pós-troika», organizada pelo Jornal Negócios e pela Rádio Renascença Renascença.

Os aplausos lembram o voluntarismo marxista leninista em 1975: alguns portugueses pensavam que levariam o comunismo para os campos do Alentejo mediante a força de vontade. Hoje há um voluntarismo neoliberal (alguns dos seus praticantes aliás eram comunistas em 1975 e arredores): basta forçar a austeridade para conseguir pagar a dívida. 

O leitor sabe que não é assim: o leitor sabe que sem um saldo primário positivo (despesas do Estado sem a dívida inferiores às receitas ordinárias) a dívida aumenta sempre – por isso a nossa dívida tem aumentado – e que sem crescimento económico não há saldo primário possível exceto com um regime de repressão económica que reduza o consumo pela força e o transforme em imposto ou em redução de despesa do Estado. Quanto mais alta for a taxa de juro da dívida, mais demora o reembolso da dívida, sendo as duas restantes condições iguais.

Se o PIB crescer 1% ao ano, se o saldo primário for 1% ao ano e se a taxa de juro for 4,5%, demoraremos 126 anos a chegar ao limite máximo da dívida autorizado pelo Tratado Orçamental. O governo prevê que demoraremos 26 anos a atingir aquele limite; o governo pressupõe um crescimento do PIB de 1,27%, um saldo primário de 3,50% e uma taxa de juro nominal de 4,30%. Se se confirmarem os pressupostos governamentais, umas contas de cabeça indicam que o nível de vida português cairá todos os anos nos próximos 26 anos: considerando que as despesas estatais são cerca de metade do Pib, o saldo orçamental deverá ser 1,75% do PIB (3,5%/2), quase meio ponto percentual acima do crescimento do PIB. Os alegres amanhãs prometidos pelo Dr. Passos Coelho começarão portanto em 2041. 

É duvidoso que, sem crescimento económico, um saldo primário de 3,5% seja possível sem a militarização do Ministério das Finanças.

As forças de mercado e uma boa política financeira talvez substituam o vanguardismo neoliberal por uma política económico financeira que promova o crescimento económico.

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Entre os críticos públicos do Manifesto dos 70 O Economista Português  apenas viu liberais Estadodependentes ou funcionários públicos desprovidos de maquilhagem neoliberal. Veremos se hoje surgem empresários pedindo para serem levados à falência (veja a seguir as marchas forçadas anunciadas para a redução da dívida das empresas portuguesas).

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As estimativas acima sobre o número de anos necessários para reembolsar a dívida (mas não as estimativas sobre a quebra de nível de vida) foram calculadas em http://www.aminhapropostadadivida.com/                                         um site do Projecto Farol e do jornal Expresso, com o apoio da Deloitte.  O Economista Português não testou o site. O site, de fácil manuseio, só permite calcular a diminuição da dívida.

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