Relatório sobre a Mutualização da Dívida: Talvez no Século XXII

Hipocrisia europeiaA imprensa divulgou que tinha sido ontem entregue à Comissão Europeia o relatório do grupo de economistas presidido pela Srª Gertrude Tumpel-Gugerell, ex administradora do Banco Central Europeu,  sobre a possibilidade de um fundo europeu financiar a dívida pública superior a 60% do PIB, o valor máximo consentido pelo novo colete de forças orçamental. É também este valor que o Manifesto dos 70 toma como referência para a reestruturação da dívida. A mutualização da dívida tem sido proposta como forma de solidariedade com os países devedores da Eurozona e rejeitada pelos credores, capitaneados pela alemanha.

Segundo a imprensa, o grupo de economistas declara que a gestão da Eurozona é demasiado recente, o que desaconselha imediatamente tal experiência, e ao mesmo tempo que ela é contrária aos tratados; a haver alguma mutualização, ela teria que ser por acordo intergovernamental, isto é, fora da União Europeia. As duas recusas são contraditórias: se é contrária aos tratados, a questão da falta de experiência não chega a colocar-se.

O relatório é o chicotada da recusa e a promessa da cenoura – cenoura sem data certa, talvez no século XXII. É uma nova recusa dos credores. O comissário Olli Rehn teve o descaro de afirmar a Les Echos, um jornal financeiro francês, que «qualquer avanço para mais solidariedade deve ir de par com maior responsabilidade e maior integração orçamental».

Quanto nos promete o inenarrável Sr. Rehn de nova solidariedade? A solidariedade tem que vir do orçamento federal: o orçamento federal dos Estados Unidos é cerca de 20% do PIB, o da União Europeia (UE) é 1,5%.  O Sr. Rehn propôs um aumento do orçamento da UE? A acenada solidariedade da UE subirá para 1,51% ou nem tanto? Pensávamos que a Alemanha já nos tinha dito o peso da austeridade (dívida a 60% do PIB, défice estrutural a 0,5%), mas as palavras do Sr. Rehn desmentem Berlim e os tratados: qual é a austeridade escondida na anunciada exigência de maior integração orçamental?

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A Comissão Europeia não colocou o relatório na sua página na Web pelo que O Economista Português não teve ocasião de verificar  se eram exatas as notícias propagandísticas colocadas na imprensa.

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