Dr. Luís Amado: Somos governados pelo Centro ou pelos Credores?

O Dr. Luís Amado, com a sua conhecida acuidade de pensamento, deu ontem uma entrevista abordando questões de tática partidária e económico-financeiras. O Economista Português comenta a seguir algumas destas últimas.

LuísAmadoO Tratado Orçamental é a principal decisão que o PS tomou. Esse facto divide uma esquerda mais revolucionária de uma esquerda reformista capaz de honrar os compromissos e garantir a estabilidade política do país. Aí o PS não hesitou.

OEconomistaPortuguêsO PS votou o Tratado Orçamental para o bem do País ou para se demarcar da «esquerda mais revolucionária»? A pergunta  é decisiva pois por esse Tratado o CDS/PP, o PSD e o PS submeteram o país a novos compromissos cuja bondade está por demonstrar. Assim, e no campo da análise económicco-financeira, por exemplo, foi provado serem falsas as contas do Sr. Kenneth Rogoff e da Srª Carmen Reinhart, nas quais o dito Tratado lança as suas raízes, e o Fundo Monetário Internacional afirma agora que para o crescimento económico e o financiamento importa mais a trajetória da dívida do que o seu valor em percentagem do PIB.

LuísAmado[A exequibilidade do Tratado Orçamental] é uma questão de fé, não é uma questão de razão política.

OEconomistaPortuguêsA exequibilidade do Tratado Orçamental é uma questão de razão económica: como O Economista Português e tantos outros demonstraram com números, aquele Tratado só é exequível  à custa da transformação de Portugal num país com uns cinco milhões de habitantes e um rendimento individual inferior ao do final do século passado, pós décadas de austeridade.

LuísAmadoÉ um erro criar a ilusão de uma alternativa de Governo no sentido de uma mudança considerável nas políticas que em grande parte são definidas pelo centro.

OEconomistaPortuguêsAs políticas portuguesas são definidas pelo «centro» português ou ditadas pelos credores? Adiante o Dr. Luís Amado afirma, com inequívoca honestidade inteletual: «as expectativas dos credores e dos mercados não faziam parte do jogo político e hoje são o que condiciona mais a acção política». Ah! A invocação do centro é afinal um apelo a não defendermos os nossos interesses face aos dos nossos credores. Ou o Sr. Christian Noyer, governador do Banco de França, será também um ilusionado,  a excluir do perímetro aceitável na Nova Europa? (ver post seguinte) O estado em que a política do engº Sócrates, completada pelo bota-abaixo do PSD do Dr. Passos Coelho, deixaram Portugal, obrigava que em 2011 tivéssemos que aceitar as condições dos nossos credores, mas depois  devíamos ter aproveitado os nossos sacrifícios para definirmos  e concretizarmos uma estratégia político-económica mais favorável, aliando-nos aos outros países devedores, a todos os que são prejudicados pelo Euro e aos Estados Unidos. Mas preferimos ser os bons alunos de Berlim.

LuísAmadoPrometer muitas mudanças em função de uma cartilha doutrinal de base nacional não faz muito sentido

OEconomistaPortuguêsE faz algum sentido defender os interesses nacionais no quadro da União Europeia? Ou as maldades da «cartilha doutrinal de base nacional» são apenas uma peça do dispositivo político-retórico que impede uma política portuguesa no quadro da UE, uma política que reivindique um melhor equilíbrio entre os direitos dos países credores e os deveres dos devedores?

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