A Paz perpétua da Srª Merkel na Ucrânia

UcrâniaMapaLinguísticoO mapa linguístico da Ucrânia mostra uma extensa presença russa; o referendo de ontem decorreu no leste, região em que o russo é a primeira língua para mais de quatro quintos da população

Os media ocidentais (a palavra ocidente voltou a ter o significado político da Guerra Fria) e mesmo muito boa gente recusa que o mais imediato e grave problema económico-social seja o risco de guerra na Ucrânia. Ontem foi o referendo no leste daquele país e os media entraram num terrível clima de déni freudiano: nada se tinha passado, garantiu o comentador internacional Presidente Hollande, no Cáucaso. O déni obriga os media  do regime a mentir: dizem que o referendo decidiu a secessão,  a independência ou a integração na Rússia quando na realidade foi a favor da autodeterminação ucraniana, de momento sob forma autonómica.

Claro que ontem se passou qualquer coisinha no leste da Ucrânia: as mortes, da responsabilidade dos  ucranianos nossos protegidos, não conseguiram impedir o referendo. Por certo essas regiões votarão nas nossas próximas eleições presidenciais ucranianas como o Estado da Índia votava nas eleições do Estado Novo depois de 1961 e antes do 25 de abril.

Que explica aquele clima de déni, isto é, de negação da realidade desagradável? Comparemos com a Primeira Guerra Mundial. Em julho de 1914, Norman Angel, um homem inteligente, publicou um livro demonstrando a impossibilidade de uma guerra porque as economias estavam de tal modo interligadas que qualquer conflito bélico seria mau para todos. No mês seguinte, começava a Primeira Guerra Mundial. Angel tinha razâo: foi mau para todos. Mas errou ao supor que os atores políticos internacionais agem racionalmente. Os que negam o risco de guerra na Ucrânia, negam-na por o considerarem irracional.

É fácil porém desenhar um cenário racional, verosímil em que a guerra recomeçará em breve na Ucrânia. O déni ocidental leva os media  a apagarem as razões dos russos. Como ontem escreveu  o ex-chanceler Schroeder, a União Europeia (UE) é a principal responsável da pré-guerra civil na Ucrânia pois, por impulso da Srª Merkel, mudou a política de aceitar a neutralidade de Kiev para lhe impor que escolhesse entre Berlim e Moscovo. Esta solução foi aplicada a golpe em Kiev e a UE aliou-se a um governo golpista para promover eleições apressadas, no próximo dia 25. Esta mudança prejudica a Rússia, que se verá proibida de entrar na Ucrânia: nos anos 1990, Washington concedera a Moscovo que a Ucrânia não entraria na Nato, que ficasse neutralizada, e agora Berlim consegue afetar os direitos adquiridos de Moscovo e por um Dktat conseguir que ela passe para o … ocidente. Ora os russos recordam-se que há três gerações os alemães mataram  cerca de 25 milhões de pais e avós seus (por essa altura os russos terão morto uns sete milhões de alemães o que evidentemente constituíu um fator de amizade acendrada e duradoura dos germanos pelos eslavos). É neste clima que devemos situar a tática do Sr. Putin: ele negociou com os seus militares uma solução: «mantemos a Ucrânia, não a invadimos, mas recuperamos a Crimeia (onde está  a nossa esquadra do sul, cujo acesso Kiev agora nos quer negar) e impomos a federalização da Ucrânia, o que é o mesmo que a sua neutralização».

SUbombardeirorussoComo os media do regime nos contam histórias de embalar meninos  sobre o risco de guerra na Ucrânia e a capacidade militar russa, vale a pena lembrar que o mês passado um bombardeiro russo Su-24 (acima na foto) equipado com um  sistema de neutralização radioeletrônica de última geração paralisaou no Mar Negro o mais sofisticado sistema dos EUA de combate Aegis instalado a bordo do destróier Donald Cook (veja mais em http://isape.wordpress.com/2014/04/27/como-um-su-24-russo-paralisou-destroier-americano/

Os militares russo aceitaram mas estão ansiosos por mostrarem os seus brinquedos novos, que na Siria e no Mar Negro têm mostrado a sua eficácia. Os ocidentais fingem não entender esta posição de Putin e fazem bluff para … o levarem a invadir a Ucrânia, um objetivo entre o suicida e o belicista. Entretanto, vimos ontem na televisão (na France 24), tropas de Kiev, nossas aliadas, a matarem cidadãos que querem… votar no tal referendo que não existiu. Se os ocidentais não renovarem o acordo com a Rússia, acordo que mantiveram até há meses, se impedirem Putin de honrar o acordo que ele concluíu com os seus militares, que acontecerá ao chefe russo? Os seus generais dir-lhe-ão: «precisamos de invadir, para mantermos o moral dos nossos homens na Rússia e sobretudo na própria Ucrânia». Putin cederá ou será substituído por outro político mais belicista e por isso mais popular com os militares e com os eleitores russos; talvez consiga aparar a ameaça com uma solução mais moderada, mas ainda assim portadora de guerra: por exemplo, persuadir os seus generais a levarem a guerrilha até à fronteira alemã, em vez de invadirem Kiev. Tropas inimigas próximas da fronteira alemã provocarão em Berlim uma nervoseira nunca vista.  E, claro, quando chegar o fresquinho, a Rússia cessará a venda de gás aos ucranianos (em guerra civil, sem dinheiro, etc).

Quando esta máquina começar a mover-se, será impossível pará-la antes de ela ter ido até ao abismo.  O Estado Novo também não conseguiu pôr termo à guerra em África, embora muitos dos seus dirigentes compreendessem que ela o levaria à cova.

O único problema é este: a máquina da guerra na Europa já começou a mover-se. Cada dia que passa, aumenta a probabilidade da guerra – e, a não haver guerra, favorece os russos, que são uma grande potência e estão em força no terreno do conflito. O leitor perdoará a’ O Economista Português  um momento de otimismo: esperemos que, como é seu hábito, o Presidente Barack Obama cante vitória e bata em retirada  na Ucrânia, para regressarmos ao statu quo 1992-2013, que talvez não fosse perfeito mas não parece ter causado danos irreparáveis ao … ocidente.

Anúncios

Os comentários estão fechados.