BdP critica Gestão financeira das Empresas privadas

BdP2014SustentatibilidadeDaDívidaPúblicaO BdP considera a nossa dívida pública sustentável à custa de pressupostos, constantes do gráfico supra,  que O Economista Português tem por demasiado otimistas

Antes de 2011, as taxas de juro baixas e estáveis levaram as empresas a endividarem-se (alavancarem-se, no economês contemporâneo), mas conseguiram taxas de retorno «baixas». As empresas privadas têm que se desalavancar e gerir melhor as suas finanças, afirma o Banco de Portugal (BdP) no relatório referente a 2013, ontem divulgado.  Talvez tenha razão, não é costume haver ataques deste género aos empresários portugueses, nem mesmo na imprensa do PCP.

  • O BdP deveria sugerir, e se possível concretizar (implementar, em economês) medidas para estabelecer um mercado financeiro para as empresas portuguesas, já que a fragmentação financeira criada pelo BCE não lhes permite financiarem-se devidamente no mercado europeu e, portanto, desalavancarem-se.

O relatório dá a sua benção à execução do programa acordado com a troika, mas coloca algumas reservas quanto ao futuro. Uma delas é a má gestão financeira das empresas privadas portuguesas.

A baixa qualificação da mão de obra portuguesa, em termos internacionais, é outro desses estrangulamentos: o relatório do BdP qualifica-a como um dos fatores que dificultam o nosso crescimento económico. O que deve levar-nos a uma interrogação sobre a obra educativa que realizámos depois do 25 de abril.

O «crescimento sustentado do produto» é condição de regresso na «normalidades» aos mercados financeiros e também condição de diminuição do desemprego, afirma o relatório do Banco de Portugal relativo a 2014.

O relatório do BdP anota que a economia portuguesa ainda não retomou a convergência real com a da UE e atribui essa falta a «problemas estruturais que limitaram o crescimento da produtividade e a adaptação a choques externos». Contudo, o relatório não elenca estes «problemas estruturais».

O relatório sugere que o alto câmbio do Euro não afetou a competitividade externa portuguesa pois as exportações cresceram e a sua revalorização foi quase compensada pela redução dos custos unitários do trabalho, revelados no gráfico seguinte, constante do relatório em apreço.

BdPCâmbiodoEuro

O argumento do BdP, porém, é discutível. Para provar que o câmbio do euro nos foi sempre favorável (fosse ele qual fosse), o BdP deveria

  • Analisar a balança comercial e de serviços e não só  as exportações – e a balança comercial portuguesa só foi equilibrada à custa da repressão da procura privada;
  • Demonstrar que os empréstimos a Portugal e a garantia implícita que lhes foi dada pela Eurozona não contêm um elemento de subsidiação da taxa de câmbio, que cessou abrutamente por razões que O Economista Português não comentará na presente sede; sem essa subsidiação, a taxa de câmbio do Euro teria sido ainda mais devastadora para a nossa economia;
  • Explicar a razão por que a população empregada portuguesa desceu de 5,0 milhões em 2000, ano do começo do Euro, para 4,6 em 2013, ao passo que no mesmo período a da Eurozona saltava de 139 milhões para 146. Os custos unitários do trabalho (CUT) portugueses terão compensado a alta do câmbio do euro (O Economista Português gostava de ver se no detalhe destes cálculos do CUT não andará algum diabo) mas essa compensação foi feita à custa do despovoamento Portugal:  a produtividade do trabalho é maior porque o câmbio demasiado alto do Euro obrigou ao fecho de empresas portuguesas que seriam rendíveis a uma taxa  de câmbio adequada à nossa economia. Ora o nosso despovoamento tem custos significativos: entre outros dificultará o pagamento das pensões de reforma. 

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    O relatório do Banco de Portugal relativo a 2013 está disponível em

    https://www.bportugal.pt/pt-PT/EstudosEconomicos/Publicacoes/RelatorioAnual/Publicacoes/RA_pt.pdf

    (mas o leitor é aconselhado a mudar de óculos antes de tentar ler-lhe os gráficos)

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