Portugal tem Direito a uma Política Energética?

EdpCentraisTermoeletricasSerá mais económico alterarmos o nosso nosso mix de produção elétrica a favor de mais carvão e mais petróleo? (Fonte: EDP)

Faz hoje oito dias, O Economista Português publicou um post singelo com o título

Eletricidade portuguesa: a terceira mais cara da Eurozona

Esse texto originou um breve debate que não é exaustivo mas que talvez seja elucidativo.

Se rolar até encontrar esse post (23 de maio)  e clicar em comentários, o leitor acederá a esse minidebate.

4 responses to “Portugal tem Direito a uma Política Energética?

  1. Jaime Santos

    Meu caro Economista, sinto-me lisonjeado por estar a dar destaque à nossa breve troca de opiniões, e por considerar que a minha posição (de alguém que já não trabalha nesta área e nunca passou de um soldado raso na mesma) é de algum modo elucidativa da situação presente (o meu conhecimento nesta matéria é muito pequeno). Mas, se em relação ao carvão (e ao gás) estamos esclarecidos sobre as nossas respectivas opiniões, eu gostava que me explicasse que espécie de derivado do petróleo pretende usar para geração eléctrica? Fuel-óleo? Demasiado caro, já só os Países do Terceiro-Mundo o usam, por falta de alternativas (e a eficiência das instalações é baixa). Diesel em motores do mesmo nome e em regime de co-geração (e estamos a falar de instalações com alguns MW, não grande geração)? Só funcionavam em produção em regime especial (o que torna a electricidade produzida cara) e os que não foram substituídos por turbinas a gás (muito mais eficientes) a funcionar igualmente em co-geração já devem ter sido todos liquidados pelas alterações à lei da co-geração feitas (e bem, na minha opinião, contrariamente ao que é costume) pelo presente Governo. Por isso, desculpe a teimosia, o debate, a ser feito, deve ser entre as renováveis (hídrica e eólica, porque a solar é residual e o Governo Sócrates teve o bom-senso, contrariamente ao Governo Zapatero, de não insistir muito numa tecnologia cara e imatura) e o carvão. De uma procura rápida na Internet encontrei a seguinte dissertação: https://fenix.tecnico.ulisboa.pt/downloadFile/395144741243/disserta%E7%E3o.pdf. Veja o Resumo. De 2005 a 2012, o carvão forneceu apesar de tudo 22,3% do consumo eléctrico nacional. Veja também a página 26, acerca de possibilidades futuras, como o armazenamento de energia gerada em centrais a carvão nas barragens e na página 37 sobre a diminuição das emissões por via do aumento da eficiência das novas instalações, mas tudo isto custa dinheiro e já agora, é isto mesmo que os Alemães andam a fazer (veja a fig. 37). Se se quiser que ele desempenhe um papel maior na geração futura entre nós, dever-se-à levar em conta o custo e as dificuldades técnicas desta tecnologia madura (a tese é justamente sobre a gestão de produtos da queima do carvão) e integrar minimamente nas contas externalidades negativas (ambientais e outras, como o facto da centralização da produção tornar o sistema mais frágil a apagões e gerar mais perdas no transporte, por exemplo) que depois é normalmente o público que paga. A falta desse rigor foi particularmente gritante no caso do Nuclear, em que nos foi dito que acidentes de alto impacto tinham probabilidades negligenciáveis e depois verificou-se, quando Three Mile Island, Chernobyl e Fukushima nos rebentaram na cara, que as probabilidades desses eventos (os tais cisnes negros) não eram tão negligenciáveis como isso. Não há almoços grátis…

  2. Jaime Santos

    Se me permite, acrescento algo ao meu comentário de Sexta, já que não levei em conta a sua última resposta no post ‘Eletricidade portuguesa: a terceira mais cara da Eurozona’. Como imaginará, sou frontalmente contra prospecções de shale-oil ou shale-gas, pelas razões já elencadas num dos comentários a esse mesmo post (veja aliás a página da Wikipedia dedicada a esta questão, em particular os parágrafos dedicados à França, Alemanha e Grã-Bretanha em http://en.wikipedia.org/wiki/Hydraulic_fracturing_by_country). Mas, mesmo que esses projectos de prospecção fossem para a frente (e seria nesse caso necessário escrever um post com o título ‘Portugal tem direito a uma política ambiental?’), não se usa derivados do shale-oil para gerar eletricidade com o Brent a quase 110 dólares o barril. É simplesmente demasiado caro e a eficiência das instalações não é grande coisa. Os ciclos combinados a gás são muito mais eficientes…

  3. O Economista Português agradece os comentários e permite-se salientar que propõe uma metodologia básica para a energia: qual o preço da produção? Estamos a entrar numa década de grandes subversões de preços de fontes prim+arias de energia, pelo que a atenção deve redobrar. É uma metodologia de conjunto para a produção, distribuição e conservação da energia. As questões de segurança de abastecimento e de produção devverm ser examinadas em paralelo.

  4. Jaime Santos

    O único estudo feito com a metodologia de que fala e que eu conheço do tempo em que trabalhava no sector é este: http://www.raeng.org.uk/news/publications/list/reports/Cost_of_Generating_Electricity.pdf. Repare que o relatório tem 10 anos e que já nessa altura a geração com derivados de petróleo não entrava nas contas. E claro, entretanto o preço do petróleo e gás subiu e do eólico desceu. Mas a metodologia parece-me correta e julgo que corresponde ao que propõe: qual é o preço que deve atribuir-se à electricidade gerada por uma dada tecnologia de modo a amortizar o investimento num prazo de 15-20 anos com uma taxa de retorno interessante para as condições de financiamento de um certo País? Trata-se de um cálculo clássico de IRR, NPV e Pay-Back Time. Mas convém introduzir nas tecnologias dependentes do carbono um custo para as emissões, coisa que este relatório não fez (note que a EPA vai mesmo impor limites às emissões de CO2 nos EUA)… E convém também incluir no custo das renováveis o ‘stand-by generation cost’, como faz o relatório (nós chamamos-lhes as garantias de potência, creio). Admito que não sei como incluir nesse estudo as outras externalidades negativas de que falei, seria necessário atribuir-lhes um preço… Se é de facto a isto que o meu caro Economista se refere, estou totalmente de acordo relativamente à necessidade premente desse exercício em Portugal… Mas não haverá alguém nas nossas Escolas de Economia e/ou Engenharia que já o tenha feito?