O Banco Central Europeu combate (timidadamente) a Deflação

EuroDólar2014jun5O euro conheceu ontem uma baixa ligeira

O Banco Central Europeu (BCE), sob o impulso do seu governador, Mario Draghi, aprovou ontem quatro medidas para combater a «baixa inflação», isto é, para combater o risco de deflação, aumentando o crédito e estimulando a produção:

  • A taxa diretora desce de 0,25% para 0,15%, ficando um pouco acima da do Japão (0,10) e em paralelo com a dos Estados Unidos (0-90,25%); é uma medida clássica;
  • Os bancos comerciais passarão a pagar taxas de juro negativas de -0,10% pelos seus depósitos no BCE; é uma medida inovadora; diminuirá a rendibilidade dos bancos, que não quererão por certo iminuir a remuneração que oferecem aos seus depositantes e terão por isso que pagar aquele juro; esta medida estimula a banca comercial a dar crédito à economia, em vez  de guardar a sua liquidez no BCE;
  • É posto fim à esterilização de 170 milhões de euros da liquidez criada em 2010 e 2011 pelo BCE para comprar dívida dos países em crise; é um aumento de liquidez mas reduzido, pois equivale a menos de dois milésimos do PIB da União Europeia (UE);
  • Em setembro e dezembro próximos o BCE concederá aos bancos comerciais dois empréstimos a quatro anos condicionados, no valor máximo total de 400 milhões de euros (cerca de quatro milésimos do PIB da Eurozona); serão os TLTRO (targeted long term refinancing operation ou, traduzindo à letra: operação de financiamento a longo prazo com um objetivo). A condição é os bancos comerciais terem emprestado a PMEs – e o que receberem do BCE será proporcional ao crédito que tenham concedido às suas PMEs.
  • O BCE prolongará até pelo menos dezembro de 2016 as cedências ilimitadas de liquidez a curto prazo à banca comercial.

Estas medidas foram aprovadas no conselho de governadores do BCE por unanimidade, o que significa o apoio alemão. Talvez este apoio tenha tido por contrapartida a dimensão diminuta da operação, mas nem por isso deixa de ser significativa a mudança berlinense na gestão do ciclo económico.

O mercado cambial revela que as medidas anunciadas não são levadas muito a sério: se o fossem, o câmbio do euro cairia, pois a sua oferta aumentaria, determinando a baixa do câmbio, que é o equivalente externo da inflação interna. Foi aliás o que começou por acontecer: o euro face ao dólar desceu para mínimos de autro meses. Mas os mercados fizeram depois as contas e viram serem reduzidas as medidas ontem anunciadas. O euro recuperou e fechou em baixa ligeira – como nas sessões anteriores, pois parecem estar a generalizar-se os receios de deflação. é o que mostra o gráfico acima.

A única medida que chegará às empresas não financeiras será o TLTRO. Com efeito, os bancos estão a entrar na época dos stress tests e por isso precisam de se recapitalizar. 

Estas medidas do BCE vão no sentido justo para a economia portuguesa. Veremos o que delas chegará às empresas portuguesas não financeiras: em setembro ainda haverá alguma com coragem para pedir dinheiro emprestado? Os bancos terão dinheiro para lhe emprestarem?

2 responses to “O Banco Central Europeu combate (timidadamente) a Deflação

  1. Há -de haver um problema de expressão. Bancos vão pagar taxas de juro negativas por depósito no BCE? O que quer isto dizer? Que depositam e pagam, em vez de ser pagos? Mas pagam o quê, se a taxa é negativa?

  2. O Economista Português agradece o comentário. O leitor tem razão: é confuso o adjetivo negativo aplicado a taxa de juro. Ele significa que o produto é abatido ao dinheiro depositado, em vez de lhe ser acrescentado. Se a taxa de juro negativa anual for -0,1, ao fim de um ano o depositante pagará 100 por um depósito de mil. A lógica económica é fácil de entender. Se o leitor precisar de depositar jóias, terá que pagar a quem lhe aceite o deposito e se comprometa a devolver as jóias. Os bancos em geral pagam juros pelos depósitos em dinheiro pois ganham dinheiro com eles; aliás, esse juro é proporcional ao lucro que desses depósitos podem extrair. Por isso achamos absurdo que um banco cobre uma taxa por aceitar depósitos. Se um dado banco não seguir emprestar dinheiro (por a economia estar em depressão) exigirá que os depositantes lhe paguem taxas de juro a que chamaremos negativas. O Banco Central Europeu não é um banco comercial e por isso o seu primeiro objetivo não é ganhar dinheiro; mas a taxa de juro negativa tem que ver com a lógica acima: o BCE quer penalizar os bancos que não emprestam dinheiro à economia (esse empréstimo é sempre mais arriscado do que depositarem no banco central).