A Armadilha

PIBPortuguêsaté 2033Notas: PIB português em números índice (100=2013) deflacionado pela diferença entre a taxa de juro da dívida pública e a taxa de crescimento do PIB. Supusemos uma taxa de juro de 4% e uma taxa de crescimento de 1%, ambas anuais. Como a dívida pública portuguesa é cerca de 133% do PIB, tivemos isso em conta. O capital em dívida mantém-se constante. Estes valores configuram um cenário básico realista.

A armadilha consiste em convencerem-nos que a nossa dívida pública é sustentável por ter baixado o juro dela. Ninguém nos promete juros abaixo dos atuais. O cenário atual é o mais otimista. Queira o leitor segurar-se bem na cadeira: estamos a cair nas armadilha e por isso o nosso rendimento médio diminuirá cerca de um terço nos próximos dez anos.

O gráfico acima mostra o preço económico da sustentatibilidade da nossa dívida: o PIB português terá que descer quase um terço até 2024 e cerca de metade até 2034. Descerá cerca de cinco vezes mais do que desceu desde 2010. Se Deus quiser, o leitor e O Economista Português serão forçados a participar nesta hacatombe económica, sem precedente na história recente do nosso país.

A mecânica da insustentabilidade explica-se em poucas palavras:  só podemos pagar os juros da dívida com o crescimento do PIB ou com a venda de ativos.  Até agora temo-la pago em larga medida com a venda de ativos, o que atenuou a queda do nosso poder de compra: as privatizações. Mas já há pouco para privatizar e por isso só o crescimento económico permitirá pagar a dívida. Se não houver crescimento económico ou na medida em que ele seja inferior ao crescimento do PIB, terá que ser diminuído o PIB per capita a fim de com essas poupanças irmos pagando o jro da dívida. O Economista Português explicará outro dia a economia política e a política económica da insustentabilidade da nossa dívida pública.

Se forem produzidas contas para a redução da dívida afim de alcançar os limites impostos pelo Tratado Orçamental, os resultados são também catastróficos para a economia e para o bolso portugueses – e a catástrofe será mais rápida.

A emissão de dívida de hoje suscitará por certo novos gritos oficiais e oficiosos de alegria (pacóvia) e de vitória (pirrónica). A classe política portuguesa continua a publicitar declarações enganadoras sobre a sustentabilidade da nossa dívida. Falando ontem num Forum Económico em Bruxelas,o  presidente da Comissão Europeia, Dr. Durão Barroso, afirmou: «os riscos negativos» na Zona Euro são «sobretudo políticos». No relativo ao nosso país os riscos são sobretudo económicos, pois não há palavras fantasiosas que anulem as realidades subjacentes ao gráfico acima. Os nossos riscos só serão políticos se o autor da frase pensar na solução política necessária para reduzir o nosso nível de vida de um terço em dez anos. O leitor fará melhor em acreditar nas palavras proferidas por Olli  Rehn, o comissário europeu para a Economia, na mesma ocasião bruxelina: Portugal tem que tomar «medidas duras».

One response to “A Armadilha

  1. Grandes avisos… Orelhas moucas…
    Obrigado por não desistir!
    J.A.Veloso