O Caso Alstom: ou das Desventuras da Razão universal face aos Interesses do Estado-Nação

FrançaAlemanhaA bandeira francesa é uma das duas

A Alstom é uma empresa  francesa que produz equipamento elétrico e de transportes ferroviários,  metros urbanos ligeiros e TGV. Está em crise financeira mais ou menos permanente. Em Abril passado, a General Electric (GE), uma multinacional americana, apresentou uma proposta de compra aceite pelos acionistas da empresa gaulesa. O principal acionista é a Bouygues, que antes tentara sem êxito aliar-se à Siemens e à Mitsubishi.   Conhecido o interesse da GE, a Siemens, uma empresa alemã concorrente da Alstom, mudou de opinião num virar de esquina e, ao que parece mais por diligência do que convicção, declarou-se interessada em comprá-la mas pediu tempo para formalizar uma proposta de compra europeia claro. A empresa alemã, muito competente, é uma réplica aumentada da francesa e por isso, se a comprasse, teria que a fechar; aliás, apenas se comprometeu a não despedir durante três anos. Baixinho, receando afrontar o dogma europeu, era o que os sindicatos franceses diziam.

É que à hipótese GE seguiu-se em França o berreiro de patriotismo económico europeu, com laivos de anti americanismo infantil: a Siemens, uma empresa excelente para a economia portuguesa, deveria ser apoiada pela França para que emergisse um gigante mundial europeu no setor da produção de equipamentos de energia, a fatia da Alstom mais apetecida por aqueles seus três concorrentes no mercado mundial.  Só que a Siemens apresentou uma proposta conjunta com a Mitsubishi que, o nome não é engana, é japonesa. Os patriotas colbertistas invocavam o Santo Nome da Europa, envolto em Euro, incenso e mirra,  para encapotadamente imporem uma solução euronipónica que consistia em desmantelar a Alsthom: era o gato da razão universal com a cauda escondida debaixo do tapete germano-nipónico.  O patriotismo económico europeu era de esferovite, daquela esferovite riscada por marcadores coloridos que a classe política portuguesa adora apresentar-nos como mármore de Estremoz. Nessa fase do campeonato mundial dos fabricantes de equipamento produtor de energia, o Presidente Hollande lembrou-se de Ulisses, deixou de ouvir enleado as sirenes do patriotismo económico europeu e levou a mão à carteira: o anti americanismo não compensa os Estados europeus, percebeu ele.

Com efeito, o governo do Sr. Hollande, um socialista, acabou por escolher a solução americana da GE – e ao que parece até lhe aliviou o esforço pois, para calar o nacionalismo económico francês, decidiu seminacionalizar a Alstom.  A ideologia obrigou-o a gastar dinheiro do contribuinte francês para comprar as ações de Bouygues mas não o levou à cegueira de aceitar uma solução dita europeia e afinal apenas antifrancesa. Foram os fiéis do ex-presidente Sarkozy que ficaram sozinhos no terreno a defender a solução teutónica.  MerkozyMerkozy regressou e falhou. Dito de outro modo: no terreno económico a esquerda francesa é pró americana e a direita é pró alemã.

O caso Alstom merece que sobre ele reflitamos. A elite portuguesa considera a União europeia (UE) o «Estado universal homogéneo», de que falara G. W. Friedrich Hegel e, depois da queda do comunismo russo,  Francis Fukuyama: para a nossa elite, a UE incarna a razão universal e perante ela Portugal tem apenas que se ajoelhar e agradecer o que lhe dêem, seja o que for, pois não há alternativa à razão europeizante. Esta atitude é uma fantasia e mais singularmente uma fantasia mortífera, pois de um passo só oculta o mundo e a marcha nele do Estado-Nação; de um gesto só, oculta o mundo e oculta-nos a nós mesmos. O caso Alstom mostra que a França, apesar da crise de identidade por que passa, quando tocou a fuzilamentos, agiu como se o Estado-nação conservasse alguma validade na marcha da história universal e nos desdobramentos contemporâneos da razão. Também nós ganharemos, se conseguirmos começar a defender os nossos interesses nacionais, dentro dos limites da razão e da moral.

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