A Falência do BES e/ou da PT são boas para Portugal? Com uma ou duas Notas sobre a Estratégia negra

 FTWsjA imprensa financeira internacional falou de crise sistémica a propósito do caso Espírito Santo: contamos mais do que supomos, pelo menos na desventura

O Dr. Seguro voltou mais seguro depois de ter falado com o Dr. Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, mas é por certo o único português que ontem se sentiu mais seguro sobre a situação financeira do nosso país.

A razão da insegurança é simples de explicar: ninguém sabe se falirá o GES, a parte não bancária do grupo Espírito Santo; ninguém sabe se a PT será reembolsada pelo papel comercial da Rioforte, uma holding brasileira do grupo GES, que vence em breve. Se o GES falir e se a PT for posta em dificuldades, é duvidoso que o BES aguente, por lindos que sejam os seus rácios. Se o BES falir, desaparecerão os principais ativos da família Espírito Santo, que são as suas ações nesse banco, e é duvidoso que o sistema bancário português aguente. Vimos hoje que a crise do BES é sistémica em termos europeus.

O caso do papel comercial da Rioforte é mais urgente. E mais importante: se ele não for pago, a banca portuguesa aparecerá como falida e Portugal como mau pagador. A PT, um campeão português, ficará desacreditada internacionalmente.  Muitos perguntam: em que errou a PT comprando esse papel comercial? A  PT tinha boas razões para essa compra: tem que conservar uma grande quantia líquida para comprar a Oi e esse papel oferecia-lhe segurança, pois era garantido por um grande banco português, e rendibilidade elevada. O grande erro da PT ao comprar o papel da Rioforte foi não perceber que o Estado português ia atacar o BES. É um erro desculpável: grande número de bancos europeus escondem a sua situação de pré-falência devido à crise do imobiliário e os seus Estados cobrem-nos e incentivam o hiperindependente Banco Central Europeu a cobri-los (é essa a razão, aliás porque o BCE não tem dinheiro para financiar as empresas produtivas).

O Economista Português já afirmou que estava em curso uma campanha negra contra Ricardo Salgado. Os contornos da estratégia negra parecem hoje mais claros: levar a família Espírito Santo a investir no BES, para cumprir os critérios de solvabilidade de Basileia III,conseguido este objetivo, paralisa a gestão do banco, impedindo-o de financiar  as empresas do grupo. O krach virá a seguir. O comunicado de ontem à noite, anunciando na prática a semiparalisia da administração do BES em relação aos problemas centrais, é mais uma vitória dessa estratégia negra. O nosso governo reagirá?

A crise do BES é atribuída às zangas da família, a atos de gestão errados e a boca pequena acrescenta a prática de atos criminosos. Estas acusações de prática de atos hediondos legitimam a ideia vingadora que o que for mau para os Espírito Santo é bom para Portugal. Os crimes hediondos, tal como essa vantagem portuguesa, estão porém por provar. Claro que, se crimes houver, haverá tempo para os punir sem por esse pretexto nos punirmos a nós mesmos.No caso da PT, a vergonha nacional precederá a bancarrota.

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O Wall Street Journal descreve o grupo Espírito Santo  http://blogs.wsj.com/moneybeat/2014/07/10/what-exactly-is-espirito-santo/

3 responses to “A Falência do BES e/ou da PT são boas para Portugal? Com uma ou duas Notas sobre a Estratégia negra

  1. Jaime Santos

    Não sei muito bem como é que justifica os problemas na contabilidade da ESI (falamos, se bem percebi, de 1,2 mil milhões de Euros de prejuízos que não foram declarados), dos problemas do BESA (5,7 mil milhões de Euros de créditos de que se perdeu o rasto) e finalmente da exposição excessiva dos fundos de investimento vendidos aos clientes do BES aos negócios do próprio grupo? A supervisão interna dentro do ESFG parece que deixa muito a desejar… E a responsabilidade por essa falta muito dificilmente poderá ser enjeitada pela direcção do grupo…

  2. O Economista Português agradece o comentário. Por cero algo se passa no BES e/ou no GES. Ignoramos o quê. Esperamos que na corrente semana qa supervisão externa explique melhor o que supervisioonou e o que não supervisionou no BES. O Economista Português tem abordado o assunto porque a grandeza das verbas em causa, ainda que imperfeitamente conhecida, justiofica o maior cuidado. O caso PT-Riforte, conexo com o BES, não deve ser esquecio.

  3. Jaime Santos

    Não falei no caso Rioforte, porque assumo que a decisão da administração da PT, mesmo se vai contra o princípio de que não se devem colocar todos os ovos no mesmo cesto, foi feita sem o conhecimento da real situação do ESFG. Ou seja, é um problema de gestão, não de supervisão ou de outra coisa qualquer, e antes de tudo são os accionistas da PT que devem ter uma palavra a dizer. Agora, assino por baixo quando diz que o Estado vai muito provavelmente intervir no BES, ESGF e mais onde for preciso, incluindo na PT, se tal se revelar necessário, e Maria Luiz irá ter o seu momento Teixeira dos Santos. Agora, se é para nacionalizar, é para fazer controle à gestão das empresas (e provavelmente Vítor Bento poderá continuar no BES, mas pode igualmente ter o seu momento Miguel Cadilhe), não é para ficar com acções sem direito a voto ou outras opções que correspondem de facto só à nacionalização das perdas… Quanto a supostas campanhas negras, a família Espírito Santo perdeu o controle da gestão do ESGF, e poderá mesmo ter que ceder a sua posição accionista (parece que já o está a fazer em parte, é a vida). Relativamente a juízos de valor, esperemos por eventuais auditorias e/ou investigações judiciais, porque levo mesmo muito a sério essa coisa singela da presunção da inocência… Mas registo a ironia de as críticas feitas por Ricardo Salgado à gestão do BCP se estarem agora a voltar contra ele..