Caso BES/PT: Os Perús votam o Natal

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O Dr. Passos Coelho afirmou no final da semana passada que o  dinheiro do contribuinte não devia ser gasto para cobrir  erros de empresas privadas, no caso do GES ou do BES, não se percebeu bem. O Dr. Seguro, receoso de lhe ficar atrás em demagogia e insegurança, assegurou-se repetindo-lhe a tirada quase tim-tim por tim-tim.

Como ambos aprovaram o empréstimo à banca de uns seis biliões de euros do dinheiro da troika, aquele gritos criptovirginais não serão tomados a sério, exceto pelas respetivas claques partidárias. Os gritos sinalizam, em primeiro lugar mas não só, que estamos em pleno período de caça aos gambuzinos.

A pergunta de Coelho-Seguro é: «damos dinheiro aos privados?». A  questão a pôr é outra: ficamos melhor com a falência brusca do grupo GES? Ficamos melhor se a PT entrar em semibancarrota? Quer tenham sido cometido erros de gestão ou não. Porque é-nos impossível refazer o passado: o GES geriu bem? o Banco de Portugal fiscaklizou bem? A PT fez bem em comprar o papel comercial da Rioforte? A pergunta de Coelho-Seguro pressupõe que podemos refazer o passado. Ora não podemos refazer o passado. Só podemos fazer um futuro melhor se produzirmos uma análise realista do passado. Por isso a questão a resolver é: como melhoramos a situação, aceitando o princípio da realidade. Castigar erros reais ou supostos dever feito mas apenas quando provados e quando a emenda não nos deixar pior do que o soneto, isto é, quando o castigo não recair sobre todos nós.

Queira o leitor anotar que não se trata de dar dinheiro a empresas privadas,  mal ou bem geridas: trata-se sim de restabelecer um clima de confiança (o contrário do que o Estado português tem feito em ambos os casos) – e não de proceder a doações ou a subsídios.

Coelho-Seguro parecem o perú a votar o Natal: se, sob o pretexto extraordinário de cumprir Basileia 3, e manipulando a pobre da opinião publicada, proibirem o BES de continuar a emprestar dinheiro aos seus clientes habituais nas condições habituais, tendo em conta os seus balanços, se a TAP for impedida de ser reembolsada no que investiu no papel da Rioforte, a crise económica voltará a agudizar-se em Portugal. Os riscos de queda no imobiliário aumentarão. A crise de confiança atingirá os nossos credores externos e o spread aumentará. O nível de vida cairá. O orçamento do Estado será atingido. Por muito que agitem o espantalho do Dr. Vítor Constâncio, será difícil responsabilizarem-no pela crise em curso e organizarem em 2015 as eleições do costume.  Haverá quem ganhe com o agravar da crise, o eleitor é que não será. Nem os partidos rotativos.

One response to “Caso BES/PT: Os Perús votam o Natal

  1. Margarida Ponte Ferreira

    Inteiramente de acordo sobre a necessidade de evitar falências que ponham em causa o funcionamento do sistema e de restabelecer o clima de confiança; mas o que não pode fazer-se é continuar a avalizar, pela intervenção “salvadora” do Estado, a gestão irresponsável ou mesmo fraudulenta da Banca e outras empresas. O Estado deverá salvaguardar os interesses nacionais mas não tem que intervir em benefício dos acionistas que, esses, sabiam ou deviam saber os riscos que corriam.

    No final dos anos 80 e início da década de 90 os países escandinavos tiveram uma grave crise da Banca. Na Noruega, os três maiores Bancos – foram à falência em 1990-1992 . Eis como essa séria crise bancária foi resolvida:

    “By 1992 the three largest Norwegian banks had all been nationalised. This was done by forcing the banks to write down their non-performing loans. The shares were written down according to losses on the non-performing
    loans in the banks’ portfolio. This loss of share capital was replaced with government capital.

    This is the “Scandinavian model of crisis resolution” that quickly restored well functioning banking in Norway, Sweden and Finland. Notice, however, that that the subordinated debt in the capital base (leia-se depósitos) was not written down and was effectively protected throughout the crisis. This was a consequence of the government’s joint desire to avoid open bank failures, legal restrictions preventing writing down of subordinated debt held
    by foreigners and the explicit aim to maintain the banks as functioning concerns”. (Vide “Bank regulation and bank crisis”, Norges Bank Working Paper 2009/18).

    Em suma, procedeu-se a uma nacionalização provisória de entidades que, uma vez retomada a sanidade financeira, foram reprivatizadas: o terceiro maior Banco, Focus Bank, foi reprivatizado em 1995, Kreditkassen, o segundo, em 2000 e o maior Banco, Den Norsk Bank, já depois disso. O Estado entrou com o capital, salvou os depósitos e a banca como tal, mas os acionistas sofreram as perdas. Nada que se compare ao caso BPN…