Discurso do Pontal: Os quatro Erros técnicos do Dr. Passos Coelho  

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O discurso do Dr. Passos Coelho na rentrée política do PSD, no Pontal, foi defensivo, dominado pelo caso BES e pela decisão do Tribunal Constitucional, em particular na recusa da reforma da segurança social: O discurso  enferma de quatro erros técnicos de análise económico-social. O Economista Português procede de seguida a uma análise sintética desses erros.

  • Politização do caso BES. Acusando de «privilégios e falta de ética» quem «vivia entre a política e os negócios» e vice-versa, isto é, acusando o PS e a administração do BES, o Dr. Passos Coelho  declara a família Espírito Santo sua inimiga política, confessando assim que para ele o caso BES afinal não é apenas uma questão de má gestão bancária;
  • O fracasso da política da inveja. A política da inveja consiste em supor que os problemas sociais se resolvem atirando um grupo de portugueses contra outro (jovens contra idosos, assalariados do Estado contra os do privado), sem que seja necessário aumentar a produtividade. «Não têm de ser os contribuintes a pagar a falta de ética, de escrúpulos», disse Passo Coelho, supondo que a sua tática de justificar a falência do BES com a maldade dos ricos era suficiente para conquistar a opinião pública. Mas não é: os futuros desempregados já perceberam que a eventual punição dos eventuais crimes não lhes paga a prestação da casa. Já perceberam mesmo no PSD, onde o Dr. Passos Coelho declarou ter adversários;
  • Convicção da salvação pela crise. Ao afirmar ser «melhor enfrentar as más notícias do que usar o dinheiro dos contribuintes», sempre aludindo ao caso BES, o chefe do PSD regressa à sua ideia matricial: vale mais uma crise económico-social honesta e profunda do que um bem-estar à Sócrates; por isso, ridiculariza os que querem «que tudo volte ao que era dantes ». Ora, para a maioria dos portugueses, para os que não são fanáticos de um qualquer partido político, o dantes era melhor do que o hoje. Para o hoje ser melhor do que o dantes, era necessário que o hoje fosse sustentável. Mas o Primeiro ministro Passos Coelho, que aumentou a dívida pública de cerca de 95% do PIB para 133%, não provou aos eleitores que a sua política é sustentável. Coelho sugere aliás que as suas políticas só são sustentáveis com o duradouro agravar da crise económica e social, baseada no empobrecimento metódico da classe média; é esse o sentido da reforma da segurança social que é apenas outro nome para reduzir as pensões de reforma. Em termos mais gerais, o leader do PSD parece não compreender que, antes da grande crise de 1929, antes de o Estado intervir na economia, a crise económica não era da responsabilidade de ninguém, e por apresentava-se aos homens tão inevitável com o calor no verão, ao passo que hoje a crise é da responsabilidade do Executivo, pois resulta visivelmente da ação humana, e por isso tem rosto, o rosto do Executivo;
  • Incompreensão da lógica dos nossos credores europeus. Sobre o tema porque foi evitada a bancarrota, o Dr. Coelho dá uma explicação: «só não entrámos na bancarrota em 2011 porque houve uma Europa solidária». A Europa dos credores foi solidária qb; agiu de modo a recuperar os seus créditos, gastando connosco o mínimo possível (emprestou-nos dois terços do necessário, como o Dr. Silva Lopes assinalou na ocasião, chamou o Fundo Monetário Internacional para poupar o seu dinheiro; o terço que faltava, e que teria evitado a recessão,  é uma fração infinitesimal do crédito europeu). É verdade que a União Europeia (UE)  foi solidária com a nossa classe política autorizando-a a manter os seus privilégios (subsídio estatal aos partidos políticos, manutenção de municípios prejudiciais, etc). É porém tocante a fidelidade do líder do PSD à chancelarina Merkel depois de o Hotel Europa já ter começado a chamá-la para o check out. Pena é que o Dr. Passos Coelho prefira aplicar as suas qualidades a defender de nós os nossos credores em vez de nos defender a nós dos nossos credores.
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