BES em S. Bento: Carlos Costa defende-se sem Credibilidade

TinTinOTemplodoSolMilagre«Oh sublime Pachacamac, resolve o caso BES em dois dias e sem custo para o contribuinte, maravilhando o povo», clama Carlos Costa (o primeiro a contar da esquerda), inspirado no «milagre» do Sol operado por Tintim para evitar que os Incas o queimem (seria despropósito traduzir a deixa do capitão Haddock, à direita no desenho)

Começou ontem o inquérito parlamentar ao caso BES. O governador do Banco de Portugal (BdP), Carlos Costa limitou-se a defender-se sem credibilidade; a sua linha de defesa foi: não tinha poderes suficientes; se agisse, provocaria a crise dos mercados. O argumento era em si mesmo contraditório: é curiosa a ausência de poderes capaz de provocar a catástrofe. Na realidade, Costa, Carlos conseguiu que Ricardo Salgado se demitisse de chefe executivo do BES sem ter esses poderes; conseguiu nomear outra administração sem ter os tais poderes. Aliás, num curioso ato falhado, Costa, Carlos disse algo do género: «Se tivesse demitido Ricardo Salgado em setembro de 2013, que teria sucedido?» Logo respondeu: os portugueses tê-lo-iam atacado a ele Costa, Carlos. Mas em setembro de 2013 Costa, Carlos não tinha os tais poderes (dizia Costa, Carlos). Afinal, tinha os poderes e sabia que os tinha.  O governador do BdP incorreu em mais contradições. Assim, afirmou: «Se me perguntar ‘Se eu pudesse faria-o [retirar a idoneidade]? Eu diria, já há muito tempo». «Faria-o», anote-se de passagem, é o português do sr. governador do BdP. Mas só agiu em julho passado, e, como sabemos, a ação decisiva só ocorre por imposição do Banco Central Europeu (BCE), aceite por ele e pelo governo do Dr. Passos Coelho. Depois da narrativa da imbecilidade dos nossos legisladores e da ausência dos poderes do pobre governador do BdP, Costa, Carlos diz que chegou à solução perfeita e sem custos para o tesouro público. «Faria-o» por magia? Parece ser esta a única explicação lógica para o triunfo que o governador do BdP faz sair das suas catástrofes. Mas substituir a análise económica pelo raciocínio mágico não granjeia respeito para um governador  – e talvez seja por não proceder a essa troca que o governador do Banco de Inglaterra tem autoridade e o do BdP, que o inveja, não tem.  O Economista Português verificou as contradições de Costa, Carlos mas de momento não está na posse de  elementos que lhe permitam descobrir a causa delas.

O depoimento de Costa, Carlos foi penoso pois a sua capacidade de efabulação é inferior à perspicácia do português médio. A sessão foi toda ela penosa porque os deputados ou são ignorantes ou querem lançar sobre o caso BES e sobre a ação do BdP uma tempestade de areia: ontem, as suas perguntas lembravam a do cavalheiro que interrompia Wellington descrevendo Waterloo para lhe perguntar se Bonaparte no dia da batalha estava de bicórnio. E não se aperceberam das numerosas contradições de Costa, Carlos.

Vale a pena registar que a nossa comunicação social já começou a organizando a apatia dos espetadores e leitores ao tornar o inquérito incompreensível: os jornalistas apresentam longos relatos incompreensíveis e dizem sem rebuço que os portugueses não conseguirão compreendê-los. «Ai espelho meu, diz-me que sou belo!», sussurrarão esses plumitivos e esses conversativos, ao lerem-se ou ao reverem-se no teleplay.

Anúncios

5 responses to “BES em S. Bento: Carlos Costa defende-se sem Credibilidade

  1. Será que não existiu pressão para que o caso só se desenvolvê-se depois da saída da Troika?

  2. José António Veloso

    – Alors, nous y sommes?
    – Oui, Monsieur, nous y sommes, et de plus en plus nous y serons.
    (segundo Molière: e se não for bem à letra, pelo teor).

    J.A.Velosoi

  3. O Economista Português agradece o comentário. Estão com efeito por esclarecer as responsabilidades da troika no caso BES. Não é de excluir que a troika tenha espiado a banca portuguesa para permitir a um elemento seu, o Banco Central Europeu (BCE), levar Portugal à parede para encorajar os restantes Estados membros a meterem as suas bancas na ordem. Parece ser facto que o BCE tem dois pesos e duas medidas: para o BES sugeriu a falência, para a banca europeia faz testes moles. A comissão de inquérito parlamentar devia procurar obter informações a esse respeito.

  4. Boa crónica e eficaz atenção nas contradições do Dr. Costa. Bem, vamos ao que interessa, primeiramente gostaria de acrescentar, que sim, em setembro de 2013 o Dr. Costa tinha poderes para retirar a idoneidade ao Dr. Salgado. Veja-se: “The Liikanen Group was molded after the UK’s Independent Commission on Banking: EU Internal Markets Commissioner Michel Barnier set up the group in November 2011 in the context of the European sovereign-debt crisis and great recession. Its mandate was to determine whether structural reforms of EU banks would strengthen financial stability, improve efficiency and consumer protection in addition to the regulatory reform of the EU bank sector.[2] Regulatory reform had been ongoing since 2009 and culminated in the adoption of the European Banking Authority in October 2013”. Ou seja, a reforma adotada pelo EBA começa em outubro de 2013, como tal em setembro de 2013, o Dr. Costa podia e devia ter “tirado o tapete ao Dr. salgado”. A questão é: e se o tivesse feito, o que seria dele próprio?! Essa é a questão, o que seria feito de um homem depois de sair do Banco de Portugal ( quando acabar o mandato ) que tivesse feito tal traquinice ao DDT ( Dono disto tudo )? Concerteza perdia amigos que lhe seriam preciosos para um novo cargo público ou privado.. Pode-se dizer mas o Dr. Salgado não saiu? Sim, no entanto foi por imposição externa. Ou seja, o Dr. Costa “lava as mãos”, como se nada tivesse acontecido e pode agora dizer o que quiser. No entanto, pela falta de firmeza e actuação no passado, nimguém o levará a sério, no presente e no futuro próximo. Ou pelo, menos por enquanto. Para finalizar gostava apenas de dizer que o BES não foi à falência. Simplesmente foi dividido em Banco Bom e Banco Mau. Ou seja, os depósitos estão a salvo. Se porventura fosse à falência a grande maioria dos depositantes perderiam os seus depósitos para pagar a credores do banco. Isso não aconteceu. Em vez disso criou-se um ativo toxico a que se indicou o nome BES, e esse sim está insolvente. O Novo Banco continua aí. De acordo com a legislação europeia, originada pelo grupo de trabalho Linkanen, o que aconteceu foi que desta vez se nacionalizou os ativos bons e privatizou-se os ativos tóxicos. Normalmente é sempre o oposto. E neste caso, foi a aplicação da nova legislação europeia exemplar! Pode perguntar-se porquê? Por Portugal ser um país pequeno e sem poder? Claro! E também para dar o exemplo, a outros países, como funcionará o novo mecanismo de resolução bancária. Obrigado. Continuação Dr. Salgado Matos.

  5. O Economista Português agradece a contribuição para o debate.