Ganhamos ou perdemos com a Prisão de José Sócrates?

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Os dois diários de maior prestígio e difusão nos meios financeiros europeus, o Financial Times e o Wall Street Journal Europe, destacaram a detenção de José Sócrates nas suas edições eletrónicas. Les Echos, um diário respeitado nos meios financeiros em França, também a noticiou nos mesmos termos. Os três salientam que se trata de um ex primeiro ministro. É essa a notícia: na União Europeia (UE) não é costume prender ex primeiros ministros. Está aí a notícia. Estranho país onde isso acontece, é o subtexto dos títulos acima.

O Economista Português coloca a detenção de José Sócrates no plano do nosso interesse nacional. E por isso se interroga se no plano do nosso prestígio financeiro europeu ganhamos ou perdemos com a prisão do anterior primeiro ministro. Ganhamos pois o mundo inteiro ficar a saber que a nossa justiça tem condições para deter um ex primeiro ministro. Mas só ganhamos se o mundo supusesse que os nossos tribunias não conseguiriam prender um político importante, suposição que está por provar. Perdemos porque todo o mundo fica a saber que somos forçados a prender um anterior primeiro ministro por delitos graves de corrupção – depois de na semana passada o Ministro da Administração Interna se ter demitido, por os seus seus serviços serem acusados de vender vistos Gold, e o governador do Banco de Portigal ter enviado mais processos para os tribunais acusando de fraude quem há seis meses era o maior banqueiro privado português. Três escândalos financeiros em oito dias incorrem-nos  no risco de por feito nosso estarmos a apontarmo-nos ao mundo como a SuperCalábria da UE. É o que dizem os tétulos acima: são os próprios portugueses que confessam.

FazFranfuerterAllgemeineSócratesFAZO Frankfurter Allgemeina é lido em meios financeiros alemães mas não é um periódico financeiro,  é sobretudo um jornal próximo da CDU: na sua edição eletrónica de hoje,  toca outra nota, ainda mais perigosa para a nossa respeitabilidade europeia: foi buscar a sua bola de cristal e adivinhou que havia uma relação entre a prisão de José Sócrates e o resultado das nossas próximas eleições legislativas. Ai, ai, ai, o leitor vê onde este raciocínio nos conduz.

O leitor perguntará : então o caso devia ter sido abafado? O Economista Português começa por recusar a alternativa e lembra que um processo mediático não é a única maneira de realizar a justiça em casos financeiros. Em rigor, nem sequer sabemos ainda se há caso, pois  o juiz não despachou (ai, a presunção de inocência e os nossos meios de comunicação social!). Quanto ao fundo: de momento, o público não está em condições de sopesar os dois interesses em conflito pois o segredo de justiça intermitente não permite saber a gravidade das acusações feitas a José Sócrates nem a pertinência das respetivas provas; se as acusações forem muito graves e as provas fortes, e sem prejuízo da presunção de inocência, admite-se que um processo mesmo mediático deva tomar o passo sobre os interesses gerais. Porque a prisão de um antigo primeiro ministro, seja ele quem for, é um processo feito por portugueses a todos os portugueses perante a opinião financeira internacional; é assim porque qualquer primeiro ministro nos representou a todos nós. Queiramo-lo ou não, a prisão apresenta-nos como supercalabreses, um papel que não é o nosso.

O Dr. Pedro Santana Lopes tinha razão ao dizer que o dia da detenção foi um dia «triste» para todos nós.

4 responses to “Ganhamos ou perdemos com a Prisão de José Sócrates?

  1. Nixon, em pleno Watergate, tinha argumentos muito similares.

  2. O Economista Português agradece o comentário, ainda que não fundamentado. Mesmo que os argumentos já tivessem sido usados pelo Presidente Nixon, nem por isso se tornavam falsos no caso português.

  3. Comentário de Victor Barroso Nogueira (que O Economista Português não consegue que seja publicado pelos meios habituais; por isso, copiou-o e colou-o, a seguir)
    Entre outros menos conhecidos na Europa, Silvio Berlusconi, Nicolas Sarkozy, Giulio Andreotti, Bettino Craxi ou mesmo Richard Nixon o que eram ou tinham sido qd foram confrontados com a … justiça ?
    Respos d’O Economista Português
    O Economista Português agradece o comentário. O post em causa não arguia a originalidade do caso de Sócrates. Três dos cinco chefes de Estado ou de governo nomeados como temdo tido problemas com a justiça são italianos. O leitor considera que a Itália é um país reputado pela sua honestidade? «The Economist», e Londres, publica todos os anos um artigo verberando a falta de transparência da política italiana. As trapalhadas do Presidente Sarkozy aumentaram o prestígio financeiro da França? As trapalhadas do Presidente Nixon aumentaram o prestígio financeiro dos Estados Unidos? Anotemos que os Estados Unidos são a pedra de fecho da economia mundial e por isso têm capacidade de se permitirem desenvolturas que não estão ao alcance de uma pequena economia como a portuguesa.

  4. Concordo plenamente com a sua visão. Que perdemos com a prisão de Sócrates. Lendo as entrelinhas do seu texto e o comentário justifica esta dedução. Pensei precisamente no mesmo. Após, ter lido/visto vários noticias/comentários/comentadores/cronistas acerca da detenção de Sócrates.. Apenas um actor da vida politica falou disso. O PR, e como já nos habituou, disse que Sócrates, ex. PM, na prisão não iria prejudicar a imagem de Portugal. O que é de todo inverdade. Ontem numa longa conversa com um amigo emigrante na Suiça, eu explicava-lhe precisamente que temos de olhar para o global, para o que está acima da prisão de Sócrates, que é o prestigio de Portugal. Ele, numa atitude de sacudir a água do capote disse: ” Portugal é um país de corruptos e governado por corruptos. É bem feita. O Sócrates merece”. Disse algo como isto. O que é que o meu estimado colega não percebeu? Não percebeu, por exemplo, que os seus amigos suiços, colegas de trabalho, ao verem a noticia da prisão de Sócrates nos jornais suiços ( sim, até aí apareceu ), poderiam pensar e desconfiar do seu colega português ( dele próprio), e usar isso como arma de arremesso em qualquer situação de conflito. Como, o meu colega, várias pessoas pensam assim. No entanto, hoje fiquei mais contente quando ao falar com outro amigo portugues, mas desta vez que reside em Portugal, lhe expliquei o mesmo. Ele compreendeu, reflectiu e aceitou a minha dedução. Um tem estudos superiores numa área de relevo o outro não tem o 12 ano completo. No entanto, ambos são pautados pelo espirito de amizade e bom caracter. Será que isso ( diferença na educação ) explica a diferença de visões quanto ao que a prisão de Sócrates realmente significa para Portugal e o povo português ( residente e não residente ) ?