Parlamento Europeu: o Papa Francisco desafia a UE

PlatãoeAristótelesEscoladeRomaPlatão aponta para o alto, para o mundo das ideias, e Aristóteles para baixo, para a realidade concreta, assinalou o Papa Francisco em Estrasburgo, sugerindo esta dualidade como uma mensagem para a Europa: ideais e realismo (pormenor da «Escola de Atenas», fresco de Rafael)

«Não podemos tolerar que o mar Mediterâneo se torne num grande cemitério» de imigrantes, disse ontem o Papa Francisco quando interveio no Parlamento Europeu, em Estrasburgo. Esta frase deu o título ao Diário de Notícias (Lisboa), a Le Figaro (Paris) e a Der Spiegel (Hamburgo). The Guardian (Londres) titula: «o Papa Francisco ataca a UE por causa do tratamento dado aos imigrantes».
O Papa Francisco disse que «os grandes ideais que inspiraram a Europa parecem ter perdido a sua força de atracção, em favor do tecnicismo burocráticos das suas instituições» e que estas são vistas muitas vezes como «distantes» ou «prejudiciais» aos povos. A técnica substitui «a «centralidade da pessoa», tratada tantas vezes como « um bem de consumo a ser usado». A Europa está «velha e cansada» (o que deu o título ao Financial Times) e o resto do mundo vê-a com «distância, desconfiança e suspeita» disse o primeiro Sumo Pontífice não europeu desde há umas centenas de anos;  a UE«afastou-se dos princípios de paz e solidariedade» dos seus fundadores, após a Segunda Guerra Mundial. No campo económico , Papa defendeu a criação de emprego estável, em particular para os jovens e a dignificação da pessoa em geral do trabalhador em particular, mas aceitou a flexibilidade do mercado;  no campo político,  sugeriu à defesa da democracia contra as multinacionais e a paz na Europa; instou os políticos a devolverem a esperança no ideal europeu. À tarde, no Conselho da Europa, pediu uma «solução política» para as crises atuais, numa referência à Ucrânia e à Síria.
O Papa questionou a UE alemã que nos rege e desafiou-a a regressar às origens. Pela voz do Frankfurter Allgemeine (Frankfurte), a Alemanha da Srª Merkel respondeu que está contente consigo própria e rejeitou os desafios: «o Papa Francisco acredita na Europa», titulou aquele jornal. Acredita? Pô-la à prova, chama-à às suas responsabilidades, diz-lhe como é vista no mundo – ao contrário da propaganda incessante dos meios de comunicação social politicamente corretos. Há três décadas, o Papa João Paulo II disse em Estrasburgo: a Europa é «o farol da civilização». O leitor nota alguma diferença entre os discursosdos dois papas? Os parlamentares europeus aplaudiram dois minutos. Tirarão como consequência do discurso do Papa Francisco aumentar as sanções à Ucrânia e sacrificar mais os países devedores?

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