Os «Rankings» das Escolas são bons para quem não sabe de Economia

RankingGráfico

O leitor imagine que o Mandarim lhe aparece e lhe dá a escolher entre duas empresas: a nº 1 vende 130 unidades monetárias, e gasta em matérias primas, rendas e energia 40; o seu valor acrescentado é 90; a empresa 2 vende 140 unidade monetárias, e gasta em matérias primas, rendas e energia 100 e o seu valor acrescentado é 40. O leitor não hesita e não acaba a pedir um chinelo, tipo Eça de Queirós, pois tem que escolher entre um das duas: se a proporção dos lucros no valor acrescentado for igual, é evidente que o leitor prefere sem hesitar a empresa 1: vende menos, mas o valor acrescentado é maior e o lucro será portanto maior.

Nos rankings das escolas secundárias, nos quais se procura escalonar as escolas que ensinam melhor, a escolha seria ao contrário das empresas: a escola 1 em que os alunos entram com conhecimentos no valor de 40 e saem com conhecimento de 130 fica atrás da escola 2 em que os alunos entram com conhecimentos de 100 e saem com conhecimentos de 140. Porque 140 é maior do que 130. O gráfico acima compara as duas escolas. A unidade de conhecimentos é a mesma das notas dadas nos exames desses alunos.

Resulta essa escolha errada de os rankings do secundário serem produzidos em função exclusiva das vendas, isto é, dos resultados finais, isto é, dos exames de fim de ano, sem terem em conta os valores de entrada. Estes rankings notam os alunos à saída dos cursos mas não os notam à entrada, ao passo que nas empresas notamos os custos de matérias primas, rendas, energia, etc (os valores à entrada), notamos os valores de venda (os valores à saída) e em função de ambos determinarmos o valor acrescentado. Veja a seguir os critérios usados no ranking do Diario de Notícias, que acaba de ser posto em linha (ao alto da gravura seguinte está o endereço eletrónico).

RankingDNCritérios

Para escalonarmos o valor acrescentado por cada escola aos seus alunos (o que ela ensinou ao aluno), teríamos que medir os conhecimentos dos seus alunos à entrada e à saída; de seguida somaríamos esses valores por escola e recorreríamos a uma medida de distribuição para as compararmos (média? mediana?). Partimos do princípio que os alunos não têm explicador.

Não seria difícil obtermos esse valor acrescentado escolar: bastava que os alunos respondessem a uma prova no primeiro dia do ano escolar e a outra no último dia, ambas ministradas por entidades independentes (os que tivessem má nota na primeira prova não teriam prenda de Natal. Como só medem valores de saída, os rankings apenas medem os melhores alunos, não medem, ao contrário do que supõem os pais zelosos, a eficiência da escola a transmitir conhecimentos aos seus alunos.

2 responses to “Os «Rankings» das Escolas são bons para quem não sabe de Economia

  1. Notavel este texto sobre os rankings. Eu ja’ sentia intuitivamente aquilo que nele se diz. Mas o texto tem o grande merito de por as coisas claras de um modo analitico. Fica bem claro que problema central e’ de facto o do valor acrescentado e nao o do valor final. Essa analise merece a mais ampla divulgacao. Elevar as criancas das classes sociais marginalizadas (tambem do ponto de vista da cultura) tem mais merito do que conseguir resultados excelentes com os filhos da elite. Olhar so’ para os resultados finais, como fazem o governo e as classes dominantes, e’ desinformar jogando areia nos olhos dos outros.

  2. OEconomista Português agradece o gentil comentário. Permite-se, porém, duas observações.1ª o problema nãõ é apenas de classe social mas de desigualdade à partida. Assim, um adolescente da classe dirigente mas menos dotado sofrerá numa turma de bons alunos,ou destinada a maximizar a classificação e por isso será também vítima dos rankings; 2º A justificação razoável dos rankings atuais é: conseguimos o melhor resultado marginal, embora sejamos maus na média. Esta anotação levanta duas outras questões: a) será por este motivo «raciional» em relação ao fim que tantos pais pagam balúrdios e nquietam-se tanto ao ponto de distribuírem os filhos por escolas de acordo com o ranking? b) Haverá adolescentes inteligentes e trabalhadores de classes de menores rendimentos que padecem de não poderem ir para turmas que puxem por eles? Talvez haja, É que o 25 de abril nunca conseguiu montar um sistema decente de bolsas de estud e por isso nas classes de menos rendimentos continua a haver muitos rapazes e raparigas inteligentes (somos uma organização política pouco meritocrática, por comparação cm o padrão da Europa ocidental). Aliás, um estudo recente informava que só havia um país na Europa com um acesso mais desuigual do que o nosso ao ensino superior: a Turquia.