Dr. Passos Coelho: volte a Portugal, sff

UEBandeiraUEGrandePortuguesaPequenaNova bandeira de Portugal mais adequada à política económica ontem anunciada do Dr Passos Coelho

A disciplina orçamental é essencial para o crescimento, foi a tese  ontem defendida pelo Sr.Primeiro Ministro, na conferência «Crescer? Sim, claro. Mas como?»,  organizada pela SIC Notícias. A demonstração da tese foi: «A história recente do nosso país demonstra que contas equilibradas são condição de crescimento». O slogan «contas equilibradas» revela que o Sr. Primeiro Ministro não quer o controle das contas públicas, quer sim uma ortodoxia financeira pré-keynesiana, à alemã, sem défice orçamental, seja qual for a situação da economia. Enterrado assim o keynesianismo com um único exemplo – que importa que a Europa alemã da ortodoxia financeira seja o bloco mundial cujo PIB menos cresce? que importa que a União Europeia (UE) esteja à beira da depressão económica?- o Dr. Passos Coelho descobriu um modo simples de identificar o interesse nacional: «A Europa que existe cada vez se aproxima mais da Europa que nós defendemos, da Europa que serve os interesses nacionais»; «a defesa do Tratado Orçamental é a defesa da Europa que interessa a Portugal». Em síntese: o interesse nacional é obedecermos a Berlim.  A contraprova é que o Sr. Primeiro ministro considera que a reestruturação da dívida seria sempre «incomparavelmente mais dura» pois recusa pensar que estamos em condições de propiciar uma coligação internacional que leve os nossos credores a mais moderação.Atacando a ideologia («não há esquerda nem direita» no pacto orçamental), o Primeiro ministro define uma política económica em função exclusiva da propaganda das boas contas. Em matéria de política económica, os nossos credores têm sempre razão, eis um dogma de fé mantido pelo chefe do executivo.

Este perigoso dogma resulta  da crítica que o Sr. Primeiro ministro dirige aos governos que o precederam: «O primeiro-ministro deixou críticas às políticas de crescimento praticadas por anteriores executivos e garantiu querer romper com essa linha de ‘bancarrota e empobrecimento’», diz a imprensa. O Dr. Passos Coelho não discrimina os governo criticados, mas não exclui nenhum desde o 25 de abri; não exclui portanto os executivos de Santana Lopes nem de Durão Barroso, para não mencionar outros. A nossa falta de razão nacional articular-se-ia num silogismo simples: entregues a nós próprios, caminhamos para a bancarrota; os nossos credores não caminham para a bancarrota; se ficarmos entregues a nós próprios, caminhamos para a bancarrota, pelo que é melhor aceitarmos que os nossos credores têm sempre razão.

Passos Coelho expendeu uma única ideia nova e precisa: legislação para evitar a «promiscuidades entre a política e o mundo empresarial». A intenção é ótima (veremos a concretização) mas não aumentará o PIB, pelo menos a curto prazo; falou em legislação relativa à governança das empresas para evitar novos casos como o da PT mas esta ideia não é concreta. Também prometeu mais «coerência das políticas públicas», mas Deus sabe o significado de tal frase.

O Dr. Passos Coelho não exteriorizou uma única ideia de política económica portuguesa; compreende-se porquê: é contra a «intrusão injustificada do Estado». Se a intrusão é de facto intrusão, já é por si injustificada, como todas as intrusões; se é ainda mais «injustificada», então somos todos entusiasticamente contra – mas, como o Dr. Coelho não apresentou nenhuma «intrusão justificada» do Estado na economia,  a frase cheira a adesão à Srª Merkel, o que cairá bem em Berlim na véspera do dia em que o Banco Central Europeu tentará uma vez mais autonomizar-se do Bundesbank. A triste realidade é que o Dr. Passos Coelho não sugeriu uma única ação do Estado português que aumentasse o crescimento do nosso PIB ou diminuísse o nosso endividamento. Para ele, corre tudo tão bem na UE que por certo nem teremos que nos preocupar com política económica: o Plano Juncker é «muito importante» para nós, a União Bancária e a União Energética «beneficiarão Portugal», disse contente Coelho. O nosso Primeiro ministro voga numa estratosfera bem afastada da terra portuguesa.

O Dr. Passos Coelho apresentou-se ontem como um dirigente sem ambição nacional, em vias de transição para aquele tipo humano a que o António Alçada Baptista chamava «o contentinho» . Com efeito, Coelho deu por findas as «reformas estruturais»! – , atacou todos os seus antecessores (esquecendo-se que está sentado em S. Bento há três anos e que, por exemplo, o caso PT talvez tenha algo a ver com o seu governo), dispensou-se por fim de apresentar propostas económicas próprias pois espera tudo da União Europeia. Isto é: Passos Coelho pressupôs ontem mais duas décadas de austeridade e decadência para o nosso país.

Anúncios

Os comentários estão fechados.