Aquecimento da Terra em Lima : Governos dos Países Ricos enganam os seus Eleitores

AquecimentoEfeitoDeestufaAs negociações das Nações Unidas sobre o clima acabaram ontem em Lima, Perú, com dois dias de atraso; são negociações intercalares para um tratado a debater no próximo ano em Paris, limitando as emissões de gases com efeito de estufa para realizar o objetivo de reduzir a dois graus centígrados o aquecimento do planeta Terra. É incerto que o tratado seja um dia assinado mas é certo que os governos dos países ricos já recomeçaram a tentar enganar os seus eleitores em matéria de aquecimento global.
As posições de partida em Lima eram as seguintes:

> Os países ricos, os maiores poluidores, queriam enfraquecer a contabilização das suas emissões e forçar os países emergentes a passasem a ter que limitar as suas emissões poluentes;

> Os paises emergentes (China, Índia, Brasil) queriam continuar a evitar a contabilização dos seus gases poluentes;

> Os Estados-ilhas, existentes sobretudo no Pacífico, mais ameaçados pelo aquecimento, queriam uma compensação financeira para os danos causados por esse aquecimento.

Ontem, antes mesmo de serem dados a conhecer os resultados do encontro de Lima, a imprensa ocidental cantava vitória: os países emergentes tinham-se comprometido a aceitar a contabilização dos seus gases com efeito de estufa. Essa imprensa tinha sido inspirada pelo seu governo. A notícia de abertura da edição eletrónica de ontem do New York Times, aliás semelhante a tantas outras, é reveladora. Veja-a a seguir.
AquecimentoLimaNYTimes14dez14Ora nada de menos certo do que esse compromisso. (aliás, o «would» do diário bem pensante nova-iorquino lançava a dúvida sobre o resto do titulo e era suficiente para que ele se autodesmascarasse). A China, arguindo a sua soberania, impôs que o «dever» de informar sobre os cortes nas emissões fosse substituído por o «poder» de informar. A obrigação de os países emergentes contabilizarem as suas emissões não foi também assumida: o texto inclui a frase aprovada em negociações anteriores, «responsabilidades diferenciadas mas comuns», a que foi acrescentada a frase «à luz das diferentes circunstâncias nacionais». É nesta última frase que se baseia o otimismo oficial dos países ricos mas qualquer pessoa de bom senso reconhecerá que se trata de uma mão cheia de nada. Aliás, o ministro da Índia saíu feliz, declarando que obtivera o que precisava.  Os Estados-ilha foram contemplados com o reconhecimento que têm direito a serem indemnizados pelos prejuízos causados pelo aquecimento global mas não se sabe quem os indemnizará, nem por que danos, nem como nem quando. Ainda assim, parecem ser os únicos que sairam de Lima com algo tangível na mão.
A rica invenção da vitória em Lima destina-se a sossegar sem razão os eleitores dos países ricos que, devido à crise económica, estão cada vez menos generosos. A questão, porém, é de fundo. Se o aquecimento do planeta nos matará a todos, qual a razão porque os pobres (e os ex pobres) têm licença para nos assassinar? Era como se o Código da Estarada autorizasse que os condutores com rendimentos abaixo de x estivessem autorizados a não indemnizar as vítimas dos desastres que causassem.
Aceitando o compromisso político que autoriza os países emergentes  a poluirem à vontade, os ecologistas perdem a cara para defenderem a sério a restrição aos gases com efeito de estufa: sendo a ameaça do aquecimento tão letal como dizem, quem acredita que a tolerem quando vinda da Índia ou da China? Se a toleram é porque sabem ser falsa a ameaça que agitam. Porque haveríamos de diminuir hoje o nosso nível de vida a fim de evitar que num futuro remoto se concretizem… falsidades que nunca se concretizarão? Acordos deste tipo são suícidas – exceto, claro, se as ameaças forem falsas. Por isso, queira o leitor preparar-se para ouvir os ecologistas governamentalistas atacarem os seus aliados governamentais: «trairam-nos em Lima, deviam ter dado mais». Etc.

*

A comunicação social portuguesa ignorou Lima (como ignora a Grécia, para nos evitar maus pensamentos nesta quadra de animação do comércio a retalho chamada Natal). Para o leitor acreditar que existiu um acordo nas NU sobre aquecimento global, queira ler

http://www.theguardian.com/environment/2014/dec/14/united-nations–way-forward-on-climate-change

ou

http://www.independent.co.uk/environment/climate-change/un-climate-change-deal-in-peru-attacked-by-environmental-activists-as-weak-and-ineffectual-9924528.html

 

Anúncios

Os comentários estão fechados.