O Caso dos Submarinos: da Diferença entre Masturbação e Corrupção, bem como da Aplicação dessa Diferença ao Caso do Dr. Ricardo Salgado

RicardoSalgadoVítorMotaCorreiodaManhãRicardo  Salgado: de banqueiro do regime a  bode expiatório do dito regime?

«Só vejo aldrabões à nossa volta». A frase foi dita pelo Dr. Ricardo Salgado numa reunião da família Espírito Santo na qual se tratou de distribuir o prémio (ou um dos prémios) do negócio dos submarinos. Essas reuniões foram gravadas e a TVI transmitiu-as, no todo ou em parte. O Economista Português só conhece a reunião em causa através de um artigo do Doutor José Pacheco Pereira. O prémio a distribuir era um total de 20 milhões: cinco à família Espírito Santo e quinze para três indivíduos não identificados e para «Alguém», tambem anónimo. Os elementos da família Espírito Santo resmungam contra esta desigualdade. Ricardo Salgado responde: «E vocês têm todo o direito de perguntar: mas como é que aqueles três tipos receberam 15 milhões? A informação que temos é que há uma parte que não é para eles. Não sei se é ou não é. Como hoje em dia só vejo aldrabões à nossa volta… Os tipos garantem que há uma parte que teve de ser entregue a alguém em determinado dia». Mas acrescentou não os aconselhar a meterem-se nesses negócios, «porque eles estavam-se a preparar para fazer o mesmo com carros blindado». E na sala ouviu-se «e em metralhadoras e fragatas». Como é sabido, o BES, presidido por Ricardo Salgado, organizou o leasing através do qual foram comprados os submarinos.

O resumo desta reunião oferece uma grande diferença em relação às opiniões noticiosas dos nossos meios de comunicação social e aos trabalhos da comissão parlamentar de inquérito: nos mass media e na comissão, há um homem mau, de seu nome Ricardo Salgado, que sozinho manipulou um país honesto e bom; era o DDT, o Dono Disto Tudo, o banqueiro do regime; neste resumo há nós (os que ficaram com cinco milhões dos submarinos) e eles (os que ficaram com quinze milhões). Sabemos quem é o nós (a família Espírito Santo, todos os ramos e familiares incluídos, mesmo os que não sabiam de nada) mas ignoramos quem são os eles, os três dos quinze milhões e mais o alguém, que parece ser superior aos tais três. Não só ignoramos: ninguém está muito interessado em saber quem eles são. Embora ignoremos também a que título(s) são pagos aqueles quinze milhões (o que em abstrato permite supor que se trata de atos lícitos, no todo ou em parte), custa a crer que os três e o alguém sejam manucures de cabeleiro no Amoreiras Shopping e um dos novos polícias-sinaleiros que a PSP está a formar. Dito de outro modo: o caso BES é inseparável do caso dos submarinos. Exceto, claro, se o Dr. Ricardo Salgado tiver levado a sua extrema maldade ao ponto de … se corromper apenas a si próprio.

A narrativa da comunicação social e da comissão parlamentar exerce o fascínio de um conto dos irmãos Grimm ou de uma estampa de Gustace Doré – mas tem também a mesma verosimilhança. Aliás, curiosamente, a versão da comissão é a mesma da quase totalidade desta televisão única e deste jornal único com que os portugueses são servidos: as insinuações sobre o Dr. Ricardo Salgado não excluem ilícitos como a corrupção. Ora, dada a confusão prevalecente no exame destas questtões O Economistas Português sente-se na obrigação de sublinhar uma diferença conceptual aparentemente óbvia mas que na realidade tem sido ultimamente esquecida: a diferença entre corrupção e masturbação (não, não é gralha).  Com efeito, a corrupção padece de uma ligeira diferença face  à masturbação: esta é necessariamente uma atividade solitária ao passo que aquela é necessariamente uma atividade social, pelo menos a dois, o corruptor e o corrupto (o empresário de um teatro, sabendo que tem lotação esgotada, associa-se a um vendedor clandestino para escoar os bilhetes no mercado negro a um preço superior ao tabelado). Corruptor e corrupto, aliás, são suscetíveis de se aliarem para espoliarem um terceiro e num certo sentido são sempre sócios; só que, na maioria dos casos, um dos sócios é forçado. Ora a comissão parlamentar de inquérito, seguindo aliás a dica da nossa comunicação social, apresenta as atividades do Dr. Ricardo Salgado como o pecado da masturbação, que ele teria praticado sozinho e, paradoxalmente, sugere que agindo assim conseguiu envenenar  o tal país honesto e bom. Esta é uma história para criancinhas da primeira comunhão – mas não é a primeira vez que as autoridades e os meios de comunicação social assim nos tratam.

Essa narrativa durará algum tempo, mas por certo as famílias portuguesas trincá-la-ão com o perú do Natal (e a meia-desfeita, as rabanadas, etc): se houve crimes, ilícitos, maldades avulsas e várias,  não é logicamente admissível que elas tenham sido apenas praticados pelo BES. O resumo da reunião da família Espírito Santo sugere uma abordagem mais realista: a dos «nós» e a contra «eles». No caso, «nós» (Espírito Santo)  contra eles (anónimos) pois é visível o clima de tensão entre os dois sócios, o sócio nós e o sócio eles (Ricardo Salgado parece chamar «aldrabões» aos eles, palavra que dá bem a medida da tensão entre ambos os grupos). O que aliás permite em abstrato compreender a existência de interessados em transformar o Dr. Ricardo Salgado no bode expiatório das vergonhas do regime que felizmente nos rege.

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2 responses to “O Caso dos Submarinos: da Diferença entre Masturbação e Corrupção, bem como da Aplicação dessa Diferença ao Caso do Dr. Ricardo Salgado

  1. Caro Economista:
    A destrinça que estabelece tem semelhanças com outra realidade muito popular entre nós: a da produção de textos/comentários com recurso à bílis, por contraponto ao uso do cérebro.
    Duvido que tenha muito sucesso no seu texto, pois o maralhal prefere os comentários picantes que o uso da bílis na sua confecção permite.

  2. O Economista Português agradece a análise galénica.