Economia em 2015: Coragem Portugueses

OliveiraDaFigueiraInvertendo a sua polícia de apoio ao BES e empurrando-o para a falência, o Bdp (Banco de Portugal) deu um poderoso contributo para que voltássemos a ser identificados com o Sr. Oliveira da Figueira, exibido acima a indrominar Tim Tim.

O Economista Português propõe-lhe um balanço sintético da economia em  2014 e alguns alertas para 2015. Comecemos pelo dimensão nacional. Saímos do programa da troika o que nunca esteve em dúvida dada a garantia do Sr. Mario Draghi, governador do Banco Central Europeu («pago tudo», na tradução deste blog). Com efeito, ainda não conseguimos equilibrar as contas públicas nem muito menos alcançámos o crescimento sustentável do PIB e por isso a melhoria da nossa dívida pública não se deve aos nossos esforços nem aos nossos sacrifícios: os sacrifícios foram o preço político que  temos que pagar aos nossos credores e só de modo secundário foram eficazes em termos económico-financeiros.

O governo afirma-se contente com os resultados da aplicação da receita FMI/Merkel. Com singular modéstia e extraordinária clarividência, a Srª Ministra das Finanças declarou que o nosso caso com a troika prova a compatibilidade da austeridade e do crescimento. Nem mais. Ora o crescimento ronda 1% do PIB. Como o serviço da dívida ronda os 6% do PIB, teremos que diminuir o nosso nível de vida 5% ao ano, ou continuar a vender ativos portugueses a estrangeiros para pagarmos consumo destruindo património.

O governo Passos Coelho repete em dó menor a receita do Engº Sócrates, que tanto criticou, e só consegue aquele mísero crescimento do PIB recorrendo ao método socialista de aumentar a procura interna. Mas o aumento da procura interna, sem assentar em ganhos de produtividade de dimensão equivalente, incrementa a dívida, abala o rating financeiro nacional e, dentro da receita da troika, exige nova dose de austeridade. A nossa política financeira é hoje idêntica à britânica nos anos 1960 e 1970: o «stipo and go» (pára e anda). O go era exigido para ganhar eleições, o stop era determinado pela desvalorização do esterlino devido à expansão da procura na fase do go. É a mesma a razão da identidade: Londres queria defender uma paridade irrealista da libra  esterlina, a classe política portuguesa quer defender a paridade irrealista do euro que lhe foi imposta pela Alemanha.

Com a crise da troika, teremos perdido uns 8% do PIB. Com o crescimento deste ano e do próximo, teremos recuperado quando muito um quarto dessa perda.  Os nossos contentinhos consideram suficiente e felicitam-se.  Por este andar, a economia portuguesa não tem salvação. Para salvarmos a nossa economia precisamos de: 

* O Euro a 1,10 dólares (ou recebermos da União Europeia financiamentos que compensem a perda que sofremos devido ao câmbio alemão do euro):

** Apoio ao setor de bens negociáveis (exportáveis), à custa dos setores de bens não transacionáveis. O contrário do que o governo tem almejado e concretizado.

*** Redução da despesa pública (Estado, autarquias locais e regionais) que promova o emprego mercantil ou o emprego social.

CostaAntónioPrometeAumentodoSalárioMínimoCaça aos gammbuzinos, primeiro aviso: aumentar o salário mínimo por decreto lei é aumentar o desemprego e a desigualdade, sacrificando o crescimento económico mas agrada aos assalariados dos setortes imunes à concorrência mundial, também designados por Produtores de Bens não Transacionáveis

O otimismo do bacalhau a pataco não se reduz ao Ministério das Finanças. Na sua mensagem de Natal, o Sr. Primeiro ministro afirmou que pela primeira vez não víamos nuvens negras no nosso horizonte. Este otimismo de tragicomédia é necessário para legitimar o gasto da curta almofada financeira a comprar o eleitorado. É também necessário porque a classe política sabe  não ter a possibilidade de nos exigir mais sacrifícios:; por isso, para sobreviver, precisa de ganhar a guerra económica e financeira, imaginariamente que seja. Com efeito o otimismo não é apenas governamental, é partilhado pela oposição rotativa, o PS, cuja nova direção, do Dr. António Costa, afirma que, para resolver os nossos males,  basta substituir o governo PSD por um governo PS – sem ser necessário sugerir a menor alternativa. Esta afirmação confessa implicitamente  que esses males estão ultrapassados, já que serão curados pela simples substituição de Coelho por Costa.  Aliás, como ressaltou do debate em S. Bento sobre a sustentatibilidade da dívida pública, os nossos  socialistas não propõem nenhum plano de ação alternativo à troika: suscitaram esse debate, e, apoiados nos seus economistas, nele tiveram um desempenho acima do obscuro e abaixo do competente. Se os dirigentes partidários se limitassem a tirar a média das previsões sobre a variação do PIB em 2015, logo veriam que todos os meses cai a taxa de aumento prevista.  Ou se desmaquilhassem as estatísticas do desemprego dos estágios pagos e das desistências de procurar um posto de trabalho. Estes espelhos mostrar-lhes-iam a deformação do seu otimismo.

NovoBancoVendaBlindadaContraProcessosCaça aos gambuzinos, segundo aviso: «blindagem» é uma palavra positiva, lançada pela propaganda governamental, parece que nos dá segurança,   mas no caso significa que o contribuinte pagará o risco das ações judiciais anunciadas contra o BdP e o Estado português a propósito do BES. Para realizar uma política que nos foi anunciada como não tendo custos para o contribuinte.

Um dado evidencia o fracasso da política da troika, servilmente adotada pelo PSD, pelo PS e pelo CDS; segundo números da Federação Internacional dos Analistas Financeiros, em 2014 a bolsa portuguesa foi uma das três piores do mundo. Devido ao efeito Draghi, a nossa dívida pública melhorou mas as ações portuguesas perderam um quarto do seu valor. Melhoram as finanças, piora a economia, pois as ações representam o que devia ser o país produtor. 2014 fica marcado pelo aprofundamento do estrangeiramento das empresas portuguesas (o que a prazo agrava os nossos males, devido ao aumento de saídas de fundos), pela destruição da PT como empresa multinacional e  pelo falimento deliberado do BES, o único grande banco comercial de capitais portugueses. Este falimento, enfeitado com a prisão do licenciado em engenharia José Sócrates e ao que parece antigo Primeiro Ministro, marcou a autotransformação da nossa imagem económica internacional na do Sr. Oliveira da Figueira, o levantino do Ocidente.

O governo procurará por certo distribuir depressa os fundos estruturais europeus e veremos se este singular fator de otimismo se traduz  em aprovações de projetos produtivos suscetíveis de melhorar a função de produção nacional. As perspetivas económicas internacionais são más. A queda do preço do petróleo agrada-nos porque poupamos em energia mas em breve veremos que essa poupança tem por preço inevitável nova quebra da produra internacional e em particular da europeia. As incertezas europeias mantêm-se, com o desenvolvimento dos nacionalismos no Reino Unido, na França e na própria Alemanha – além da Grécia, que ameaça precipitar nova crise da eurozona, se eleger o Seriza, o partido que quer renegociar a eurozona e a dívida grega. Volta assim a ameaça de crise do euro, engatada na ameaça de a eurozona entrar numa depressão económica à japonesa. O caso grego obriga-nos a uma planeamento de emergência e convida-nos a examinar tecnicamente a possibilidade de melhoria da nossa tática nacional face aos nossos credores.

FamilleBélierEm França, o neonacionalismo provocado pela eurozona já faz receita de bilheteira nas salas de cinema

Esse neonacionalismo, pejorativamente designado de radicalismo ou de populismo, lança raízes estruturais: em França, o maior sucesso de bilheteira no Natal não é o fabuloso filme de Ridley Scott, o Exodus, um êxito mundial, é sim La Famille Bélier, a longa metragem local e localizada de uma família bem francesa que prefere a aldeia tradicional gaulesa à metrópole da eurozona e da globalização. Na Alemanha, a classe dirigente já percebeu que não tem condições de novo esticar a corda, no estilo Merkel 2008, mas o chamado povo alemão está cada vez mais irrequieto contra o statu quo germânico e eurozonático: surgem na velha Germânia noturnos movimentos populares contra os imigrantes muçulmanos, multiplicam-se as greves, divide-se a estrutura sindical, que discute a sua própria lei e propõe-se modificá-la em sentido mais autoritário, firma-se no eleitorado a Alternativa para a Alemanha (AfD), o partido anti eurozona, que, haja Deus, está persuadido que os portugueses exploram e martirizam os alemães.

O Economista Português apela por isso à coragem do leitor, para enfrentar as desgraças previsíveis e para imaginar as reformas necessárias. Como a caça aos gambozinos eleitorais abrirá em força, pede-lhe também um esforço suplementar de lucidez. Bom Ano.

21 responses to “Economia em 2015: Coragem Portugueses

  1. “O crescimento ronda 1% do PIB. Como o serviço da dívida ronda os 6% do PIB, teremos que diminuir o nosso nível de vida 5% ao ano”. Para evitar adjectivar esta sua dedução, vou só dar um exemplozinho com números. Imagine que o PIB é de 1000; um serviço da dívida de 6% significa que, para pagar juros, vão 60. Onde é que isso implica um decréscimo do nível de vida??? E porquê de 5%??? Por ser 6% menos 1%?! Por favor…

  2. O Economista Português agradece a pergunta. Se o PIB crescer 1% num dado ano, temos 1% do PIB para pagar os 6% do serviçod a dívida. Onde iremos buscar os 5% que faltam (6-1)? Ou vendemos património, ou contraímos novos emoréstimos ou diminuímos mais o nosso nível de vida para, com essa diminuição, satisfazermos os nossos credores.

  3. Aparentemente, o meu exemplo numérico serviu de pouco. A conta que está a fazer não tem sentido nenhum. “temos 1% do PIB para pagar os 6% do serviço da dívida.” Nããããoo!!! Aí é que está o seu equívoco! Temos 100% do PIB para pagar o serviço da dívida. Obviamente, dava jeito que o PIB servisse também para outras coisas, mas isso não justifica o cálculo que fez.

  4. O Economista Português agradece a resposta e lamenta não ter estado à altura do «exemplo numérico». Permite-se lembrar que PIB e o serviço da dívida são ambos fluxos. O acréscimo do PIB, medido num dado período, mede o excedente adicional criado nesse período. Se o excedente diminui ou desaparece, o cumprimento das obrigações anteriroes exige venda património, ou a contração de novos empréstimos ou a diminuição do nível de vida. Como a dívida exterior tem que ser paga (ao contrário do vencimento dos funcionários públicos, no exato valor do período anterior). Oprocesso de empobrecimento em causa não começou este ano: começou desde o momento em que o serviço da dívida aumentou mais do que o PIB. Só que estão a esgotar-se os meios tradicionais para ocultar esse empobrecimento; esse meiosforam as privatizações e a contração de empréstimos adicionais.. A frase «Temos 100% do PIB para pagar o serviço da dívida» seria verdadeira se vivessemos num regime comunista em que o Estado gozasse de um poder absoluto sobre o rendimento dos cidadãos (que, visto de outro ângulo, é o PIB, com ligeiras diferenças, irrelevantes para o nosso caso).

  5. “Permite-se lembrar que PIB e o serviço da dívida são ambos fluxos.” Não estava esquecido, mas é irrelevante para o caso.
    “Se o excedente diminui ou desaparece, o cumprimento das obrigações anteriores exige venda património, ou a contração de novos empréstimos ou a diminuição do nível de vida.” Não, não exige. Porque os 6% a que se refere não são uma taxa de crescimento do serviço da dívida. Portanto, se o PIB se mantiver constante e também o serviço da dívida (represente ele 6% ou 20% ou 1%) não há qualquer necessidade de vender património ou afectar o nível de vida (e nem vou entrar numa discussão sobre este conceito!). Daí que as contas que fez não tenham qualquer nexo.

  6. O Economista Português agradece o comentário. Se o PIB se mantiver constante e o serviço da dívida também se mantiver constante, não se deteriora o nível de vida nem tem que se aumentar a dívida para o manter. Mas, se já havia desequilíbrio (pelos motivos antes apontados), ou se o desequilíbrio se arava negativamente, pela diminuição do PIB ou pelo aumento do serviço da dívida, voltamos ao dilema de aumentar a dívida ou diminuir o nível de vida (para não mencionarmos outros componentes da despesa). Em Portugal, no período da troika, conseguimes realizar os dois braços do dilema: aumentarmos a díviida (e o seu serviço) e diminuirmos o nível de vida. Por isso, a frase questionada tem todo o sentido.

  7. Este assíduo leitor gaba a paciência d’O Economista Português..
    E deseja-lhe um óptimo 2015, ou um 2015 optimizado (às circunstâncias).

  8. O Economista Português está a gastar ingloriamente o seu latim com a Drª Vera Barros e isso não vale a pena quando se combatem números com ideologias. Um melhor 2015

  9. O Economista Português agradece o comentário. A Drª Vera Barros perguntou e comentou e por isso merecia resposta, tenha ou não tenha ideologia.

  10. Não é certamente nas minhas contas que há ideologia. Eu tentei explicar que subtrair uma taxa de esforço a uma taxa de crescimento era um disparate, sem qualquer consideração normativa. Obviamente, o desperdício de latim e de tempo foi meu.
    Caro Amílcar Vicente, ir ao seu blog, ler que é um adepto do rigor e depois confrontar com o seu comentário…

  11. O Economista Português felicita a Drª Vera Barros estar tão contente consigo mesma, sem ter lido ou sem ter entendido o post comentado, deixa o assunto no Ano Velho e deseja a todos bom Ano Novo

  12. Eu não comentei o post na sua totalidade, cingi a minha observação a uma afirmação que nele é feita. E a minha objecção é puramente matemática. Se bem percebi do seu raciocínio, define nível de vida como a diferença entre PIB e juros da dívida pública (que é um conceito discutível, mas nem vou entrar nessas considerações normativas e técnicas). E, portanto, aquilo que estabelece é que a taxa de crescimento do nível de vida iguala a diferença entre a taxa de crescimento do PIB e a taxa de crescimento dos juros da dívida pública. Eu podia logo contestar isto com recurso ao cálculo diferencial, mas a verdade é que, para valores pequenos, essa aproximação funciona bem, portanto nem é esse o meu ponto. A minha crítica é a de que os 6% não são uma taxa de crescimento dos juros da dívida pública, são uma taxa de esforço, logo o seu cálculo de 5% está incorrecto. E isto são contas, não estão à mercê de posições ideológicas.
    [Se o meu primeiro comentário não foi logo tão explicado, isso deve-se somente ao facto de o nome do seu blog me ter feito supor que era economista; só depois, pesquisando, vi que a sua formação é em Direito e Sociologia.]

    • Já no Ano Novo, O Economista Português agradece o comentário da Drª Vera Barros. É exato que o post comentado comparava, aliás de passagem e sem definir, duas sériees latentes: a taxa de variação do nível de vida com a proporção do PIB consagrada ao serviço da dívida pública. A Drª Vera Barros qualificou aquelas séries em categorias opostas (taxa de esforço e taxa de variação, respetivamente) e dessa qualificação deduziu a ilegitimidade da articulação de uma com a outra em termos de matemática que depois precisou serem de cálculo. Ora a diferença de qualificações é exata mas desprovida do alcance que a sua autora lhe dá. Com efeito, a comparação em causa não significa sugerir que teria sentido mandar passar pelas forcas caudinas do cálculo diferencial as séries de valores da variação do PIB e do serviço da dívida em proporção do PIB. Com efeito, esse cálculo só tem sentido quando há uma relação de causalidade/funcionalidade entre ambas as variáveis: o movimento da Lua influencia as marés (bom tema de cálculo) mas a variação da produção vinícola não influencia a frequência da missa de domingo nas regiões rurais (mau tema de cálculo). A comparação d’ O Economista Português assentava noutra base: as séries comparadas eram homogéneas pois ambas eram uma proporção do PIB , o que legitimava a comparação; porém, a comparação efetuada não éuma proposta de causalidade ou de identificação de relações funcionais; é sim um exercício de contabilidade nacional – um exercício que nem discretamente se assumia como inovador, pois não sugeriu a inovação, e que nem por isso aspirava a um valor explicativo. Aliás, a comparação era mais lógica do que matemática, para usar um conceito a que a Dr. Vera Barros recorreu com alguma insistência.

  13. Meus Amigos as contas sao faceis de fazer. Se nao pagarmos cerca de75 % da divida, se conseguiimos emprestimos a 0.5 a 0.75 % a 50 ate 75 anos se em concomitancia nao aumentarmos a divida entao DE FACTO os costas todos podem fazer promessas. Se nao for resta-lhes a elasticidade do modelo conforme captarem mais impostos, menos economia paralela, nao aumento dos funcionarios publicos etc ou seja deixem-se de fantasias. Ha neste forum gente que sabe fazer contas. Entao digam as pessoas:
    1- a divida nunca sera para pagar
    2- vamos tentar nao aumentar a divida e isso é possivel se……….
    A conjuntura ajudar, se o petroleo nao subir acina de 40 dokares, se os juros nao forem superiores a 0.5 % ou menos se continuarmos a ser rigorosos, se nao houver aumentos malucos, se a Europa começar a comprar-nos mais, se formos competentes e criarmos novas empresas que substituam importaçoes, que apareça de imediato gas ou petroleo ( leva 3 anos no minimo a começar a bombar depois da descoberta) se e se e se…
    De facto sem perdao da divida em 75 so assistimos a fantasias de politicos ignorantes e vigaristas. NAO PODEM prometer o que estao a prometer. E eles sabem isso. É uma pena estarmos sujeitos a estes vendedores de banha da cobra

    • O Economista Português agradece o comentário. Talvez ascontas não sejam tão fáceis de fazer – mas quem quem avançar com promessas, eleitorais ou outras, tem o dever de exlicitar as suas contas. E os defensores da slução troika têm o dever de a justificar, a médio e longo prazo, pois somos os devedores. e essa solução foi desenvolvida pelos credores.

  14. João Rosendo

    Não sou economista, sou só engenheiro pelo que percebo alguma coisa de matemática – se temos dois fluxos que crescem de modo diferente e que representam percentagens do PIB, tenham eles o nome que tiverem podem naturalmente subtrair-se pelo que o cálculo do Prof. Salgado de Matos tem de estar correcto. Só posso desejar além de um Bom Ano Novo uma maior literacia matemática para 2015.

    • Só que um deles era uma taxa de crescimento, o outro uma proporção do PIB…

      • O Economista Português anota que a Drª Vera Barros o proíbe de articular os produtos de uma taxa de variação do PIB transformada em proporção do PIB (que ela designa por taxa de crescimento) com uma outra prioporção do PIB e, embora com desgosto, declara-se indisponível para aceitar a probiçãso. Bom ano, Drª Vera Barros e viva o cálculo diferencial.

      • Caro “Economista Português”, vamos devagarinho. Defina-se nível de vida como PIB subtraído de juros da dívida pública. O PIB crescerá 1%. E os juros da dívida pública quanto vão crescer? Se nada crescerem, o nível de vida – segundo a sua definição – crescerá 1%; se o seu montante diminuir, até crescerá mais que isso. Os 6% a que alude nas suas contas não são uma taxa de variação, logo não pode fazer a subtracção que faz. Poderia se fosse uma taxa de crescimento.

        Comentário d’ O Economista Português
        O Economista Português agradece o convite da Drª Vera Barros a irmos «devagarinho» e procurará aproveitá-lo para esclarecer melhor o sentido de uma frase incidental , mas estrategicamente importante, que, depois de um debate com tantos lances, convém que comecemos por recordar: «Ora o crescimento ronda 1% do PIB. Como o serviço da dívida ronda os 6% do PIB, teremos que diminuir o nosso nível de vida 5% ao ano, ou continuar a vender ativos portugueses a estrangeiros para pagarmos consumo destruindo património». A Drª Vera Barros considera que a frase revela subtração de uma taxa descritiva (o serviçoda dívida) a uma taxa de variação (a variação do PIB) e qualifica de errada tal subtração: em termos de cálculo diferencial, a articulação das duas taxas é insubsistente. Mas atentemos no seguinte exemplo simples. No ano 1, o PIB é 100 unidades monetárias e o serviço da dívida pública é 6 em moeda, sendo portanto 6%. No ano 2, o PIB passou a 101 (cresceu 1%), o serviço da dívida manteve-se em 6 e em percentagem baixo para 5,9%. Isto é: quando passamos do exame das percentagens para os valores brutos que lhe estão subjacentes, é clara a relação: o crescimento do PIB diminui o peso do serviço da dívida (a taxa de esforço, na terminologia da nossa ilustre comentadora, que recorre a um conceito dos empréstimos, em particular do crédito à habitação). Mas, dir-se-á, a percentagem é o primeiro passo do cálculodiferencial e por isso não deve ser usada fora dele. Seria um argumento rigorista e desajustado da realidade: o uso de uma dada percentagem como símbolo da variação do valor monetário subjacente é alias de uso corrente na linguagem corrente e na literatura económica. Quem pensaria que o Moisés, de Ridley Scott no Exodus, ao falar, aliás anacronicamente, de taxa de variação populacional, apela a que os espetadores apliquem o cálculo diferencial aos livros bíblicos, uma vez que qualquer derivada é uma taxa de variação? Por outro lado, exceto em estudos académicos de teoria económica, o que evidentemente não era o caso do texto em causa, é corrente o mesmo emprego da taxa em lugar do valor bruto que lhe corresponde. Era óbvio o estatuto alusivo da frase em causa, que convidava a uma interpretação larga e não literal, pois à primeira vista contrariava a tese defendida (e o mesmo ocorre com o exemplo acima dado); com efeito, a tese era que o nível de vida diminuia com o serviço da dívida (em relação a um momento anterior sem serviço da dívida, ou com serviço menor) e o texto referia uma situação em que o peso desse serviço diminuía, pois referia um crescimento do PIB, o qual, por modesto que fosse, só por si nunca diminuiria o nível de vida na situação estilizada. A frase em causa tinha que ser interpretada no contexto mais vastio, que o post aliás explicitava em boa parte ao insistir na necessidade de crescimento económico. Também de passagem a frase referia outro aspeto importante: a «taxa de esforço» efetiva tem sido escondida com as vendas de património nacional, concretizadas sobretudo nas privatizações. Era esse aliás o objetivo da frase: focar de um modo rápido e rigoroso a atenção do leitor em duas relações basicas. O crescimento do PIB, mantendo-se estável em dinheiro o serviço da dívida, diminuirá sempre o peso desta em proporção do PIB. A frase incriminada tinha subjacente, como modelo da realidade económica, que o crescimento do PIB em 1% era insuficiente para retomar o crescimento do nível de vida pois não invertia a tendência, começada com a nossa adesão ao euro, de aumentarmos o serviço da dívida mais do que aumentamos o PIB . A frase anterior, em que manipulamos duas taxas de crescimento, merece porém um reparo, que exemplica o papel da despatrimonialização portuguesa: este empobrecimento foi disfarçado pelas vendas de património, o que uma deficiente contabilidade nacional autoriza (pois a contabilidade nacional dos fluxos não é articulada com a contabilidade nacional do património). Por isso, aliás, a noção de «taxa de esforço» é adequada ao crédito à habitação mas não para a dívida pública: no crédito à habitação, pressupõe-se estável o rendimento do devedor ao passo que no crédito público não existe essa pressuposição; por isso o reembolso antecipadado é penalizado naquele e indiferente neste.

  15. Caro EP, penso que de forma sucinta explicou o que a minha filha de 4,5 anos irá ter que pagar, ou os pais dela, até que atinja a maioridade, sem nunca ter contribuído para tal. A maioria das pessoas ainda não se apercebeu que será impossível pagar a dívida actual sem um crescimento sustentado de pelo menos 4% ao ano (mais será melhor), nos próximos 15 anos. O estranho é que quem se diz matemático, como a Dra? Vera, não ter percebido isso.

    Grande abraço, e felicidades para o Blog.