Dr. António Costa (PS) em Entrevista: Continuação da Crise Económica e Derrota eleitoral

CostaEntrevistaNo último dia do ano que há pouco morreu o Correio da Manhã publicou uma entrevista do Dr. António Costa; apresentou-a como «a primeira» na qualidade de novo secretário geral do PS. Dado que aquele responsável político aproveitou o ensejo para abordar temas de política económica, O Economista Português analisa-a de seguida nessa perspetiva, ainda que o objetivo dela pareça ser mais político-eleitoral do que económico financeiro: Costa, insiste que quer a maioria absoluta nas eleições parlamentares do corrente ano, procurando assim corrigir o erro que cometeu no congresso do PS quando avalizou o voto no PCP e no Bloco de Esuqerda, pela manobra supostamente hábil de declarar querer impor àqueles partidos a participação num governo de coligação com o PS para evitar que eles sejam uma oposição meramente destrutiva.

O jornal coloca porém a entrevista sob o signo do económico: «defendo o choque salarial» é o título principal. Costa explica: «o que nós precisamos hoje é de um ‘choque de rendimento’ para relançar o País». Este choque de rendimento parece consistir exclusivamente no aumento do salário mínimo imposto pelo Estado. A justificação deste aumento como causa do crescimento económico é pouco clara. Parece ser a seguinte: «Hoje só podemos ser competitivos por via da qualidade e não por via do custo»;   Costa justifica a imposição do aumento global com o exemplo do contrato coletivo da indústria de calçado que fixa salário superior ao mínimo obrigatório. Mas este exemplo por si só apenas demonstra que o nosso salário minímo legal ainda não coincide com o salário máximo, não explica os fatores económicos que permitem à nossa indústria do calçado ser competitiva no mercado mundial e pagar salários mais altos do que o mínimo legal. Por outro lado, aquele aumento «significativo» é apresentado como «absolutamente essencial para devolver confiança às pessoas» a qual é indispensável para «estatilizar a política de rendimentos». Estabilizar uma política mudando-a violentamente por imposição do Estado é um paradoxo e, como veremos a seguir, é também um absurdo.

A solução geral apontada é a seguinte: «o nosso problema de competitividade resolve-se pela qualificação». Sobre este tema, é tudo o que Costa António diz. É a mantra que vimos acima para justificar o aumento «significativo» do salário mínimo legal. Se a solução é tão óbvia, porque não tem sido aplicada? E, dado que não tem sido aplicada, que medidas serão usadas para que passe a sê-lo? Esperaríamos que nos explicasse como é possível que, depois de quase quatro décadas de despesa maciça em ensino, tenhamos uma das mãos de obra menos qualificadas da União Europeia. As recentes mudanças escolares serão suficientes para neste terreno nos assegurar um futuro radioso? Como explicar que os empresários portugueses não recorram espontaneamente a mão de obra mais qualificada? Será maldade deles? A qualificação da mão de obra é uma solução de longo prazo, que tem vindo a ser todos os dias pregada desde pelo menos o momento da nossa adesão ao Euro, e a nossa economia sofre de graves problemas de curto prazo: não é necessário um programa de transição entre a desgraça presente e o paraíso que nos é prometido para um futuro sem data certa? A qualificação é assim um abracadabra, uma palavra mágica que por si só nos abre a porta da gruta de Ali Babá, dando-nos grandes tesouros. Costa, ou os seus conselheiros económico-financeiros parecem não compreender que os industriais do calçado portugueses não têm que enfrentar a concorrência de indústrias pagando o salário mínimo nacional: têm sim que enfrentar a concorrência de indústrias de calçado estrangeiras que originam tecnologia mais avançada e pagam salários maiores. Os nossos industriais do calçado souberam ao longo de várias décadas combinar essa tecnologia avançada (incluindo o marketing e as marcas) com salários mais baixos do que os da concorrência estrangeira (foi a vantagem competitiva, dado que sempre tiveram um custo do capital mais elevado do que os seus concorrentes); souberam assim passar de um mercado de calçado indiferenciado e de baixo valor acrescentado para um mercado de alto valor acrescentado, assente em marcas. Sapatos ordinários são baratos ou caros; e sapatos de luxo também são baratos ou caros (mas custam mais dinheiro do que os sapatos ordinários e geram mais valor acrescentado). Exemplificando com a indústria do calçado, Costa, ou os seus conselheiros, mostram não distinguir entre custar pouco dinheiro (o nosso salário mínimo é pouco dinheiro) e ser barato (o salário mínimo é supostamente barato). Exemplifiquemos: se oferecerem ao leitor o Terreiro do Paço por um milhão de euros, é muito dinheiro, mas é barato. O nosso salário mínimo é o contrário: é pouco dinheiro (porque a nossa produtividade é baixa) e é caro para as empresas (porque sucessivos governos forçam os empresários a pagarem salários acima dos valores de mercado a fim de os respetivos partidos políticos ganharem as eleições à custa de aumentos salariais sem contrapartida na produtividade). Por isso, aumentarmos o salário mínimo gera despedimentos e falências. Claro que é uma medida que provoca crescimento económico e é boa para o comércio e indústrias que trabalham para o mercado interno. Mas, gerando aumento da procura e redução da oferta solvente, desequilibra a nossa balança externa – um problema que o Dr. Costa considerou que nem valia a pena mencionar mas que inevitavelmente diminuirá a confiança interna e externa na nossa economia.

Tempo volta para trásAntónio Costa  manifesta por vezes um jeito saudosista. Se o leitor preferir continuar a ler a entrevista ouvindo um fado apropriado àquele jeito, vá a https://www.youtube.com/watch?v=LOtAfLvhSZo

António Costa dá ainda outra justificação do aumento «significativo» do salário mínimos imposto pelo Estado com um argumento que causa gargalhada, se não provocar as lágrimas: o aumento em 2016 baseia-se num estudo económico produzido pelo governo do Engº Sócrates antes da crise de 2008, oito anos antes da decis~ão a tomar! O Dr. Costa não tem ouvido os telejornais e não sabe que nesse ano de 2008 começou uma longa crise económica? Ou tem ouvido os telejornais e acredita na propaganda do Dr. Passos Coelho que já vencemos a crise e estamos numa boa? Aliás, o Dr. Costa está convencido da estabilidade do euro, pois afirma: «As únicas verbas que nós podemos ter por certas nos próximos anos são os fundos comunitários». Que imprudência! (ver post seguinte)

Parece mais provável que o Dr. Costa acredite no milagre do Dr. Coelho. Com efeito, Costa não reparou que Coelho vai dar (isto é: imporá às empresas que dêem) o seu aumento do salário mínimo legal – e vai distribuir os fundos comunitários, antes das eleições que o Dr. Costa considera longínquas. Apresentando-se sem falsa modéstia como a «voz clamando no deserto» (João, 1,23), o Dr. Costa perora: «ando a dizer há três anos que a discussão mais importante a fazer no País é saber como vamos gastar os fundos comunitários». Largado este poderoso ronco, o Dr. Costa encolhe-se e não recomenda nenhuma aplicação dos ditos fundos. Que maldade! Sabe como salvar a nossa economia e não quer revelar-nos o seu segredo! Costa parece sugerir que deveriamos aumentar o emprego na construção civil, o que seria evidentemente um erro, pois este setor não é exportador.

Com efeito, o Dr. Costa considera que «o relançamento do setor da construção é absolutamente capital para o futuro do País». O cimento como fator de modernização estrutural é o regresso aos anos 1990 com máscara de Carnaval! Que ideia! Lembra um oficial do Exército, aliás homem inteligente e bom, que no PREC propôs terraplanar as Beiras e Trás os Montes, dado que a reforma agrária só medrava nas planícies. Será que o Dr. Costa se propõe calcetar o Alentejo para salvar a economia portuguesa dando trabalho a tailandeses? Ou não reparou que hoje nos sobejam auto-estradas, escolas, universidades, esquadras de polícia, quartéis de bombeiros, apartamentos residenciais, armazéns? Não terá reparado na crise demográfica, além da económica?

O Dr. Costa, António opõe-se à privatização da TAP e critica a ação do Dr. Costa Carlos, governador do BdP no caso BES, o que merece o aplauso d’ O Economista Português. Mais relevante é que Costa se posicione como candidato dos nossos credores. Interrogado sobre se «a dívida pública é pagável ou é renegociável», responde: «A questão é de outra dimensão. Nós temos recursos financeiros limitados e temos de ter um bom equilíbrio» entre as diferentes aplicações desses recursos. A fuga à questão revela a vontade de ser abençoado pelo sufrágio dos credores. O leitor retorquirá: essa frase, na aparência extraída das Obras Económicas, do Consº Pacheco, esquece apenas a vontade de driblar os nosos credores, se a ocasião o permitir. Essa interpretação é voluntarista e ilusória: num regime democrático, não há mudança de política sem mandato expresso do eleitorado, e driblar os nossos credores seria A MUDANÇA de política por excelência.

O Dr. Costa elenca ainda alguns objetivos meritórios de política económica: combater o desemprego jovem, ajudar as empresas exportadoras, combater o desemprego da mão de obra não qualificada (aliás a primeira a sofrer com o aumento do salário mínimo legal). Mas estes objetivos, enunciados a trouxe-mouxe, não são acompanhados de medidas de política económica que os credibilizem. São votos pios, que o testamenteiro violará ao voltar da primeira esquina. São a caça ao gambuzino sem metal sonante na mão do promitente.

Como quer agradar aos credores, Costa, que no caso do salário mínimo nacional vimos perdulário com o dinheiro dos outros (as empresas), é prudente com o seu dinheiro, isto é, com a despesa pública: promete pagar as pensões de reforma mas só às que já estão «formadas»; promete repor os vencimentos da função pública mas não se compromete com o calendário da reposição: «no devido momento, que é entre a conclusão da estratégia orçamental para a próxima legislatura e a elaboração do programa do governo», isto é, depois das eleições legislativas das quais, diz Costa, «estamos muito longe». Dez meses no máximo é muito longe? Lembra o saudoso Harold Wilson, primeiro ministro britânico, que desvalorizou a libra uma semana depois de ter prometido que nunca a desvalorizaria; os jornalistas apontaram-lhe a contradição e ele respondeu: «Uma semana é muito tempo em política».

O longo relambório anterior é um exame sucinto mas exaustivo da dimensão económico-financeira da primeira entrevista do Dr. Antonio Costa. As suas palavras supreendem pela falta de concatenação entre os objetivos económico-financeiros e os nacionais, pelo caráter parcial das propostas, pela pequena ambição delas, pelo otimismo que parece assentar num saudosismo e no esquecimento das realidades portuguesas, peninsulares e transpirenaicas.

AntónioCostaePassosCoelhoPura cortesia ou genuíno enlevo?

As palavras económico-financeiras do Dr. António Costa (ou dos seus conselheiros) consistem em propor-se aplicar, se o PS ganhasse as eleições, a política económica que o Dr. Passos Coelho está já a aplicar para ganhar as eleições; se derem um bochecho de melhoria económica, terão um custo financeiro elevado, pois nem o governo Coelho nem o opositor dinástico Costa são senhores de uma fórmula política que lhes permita aquietar os «nercados», isto é, os nossos credores; são palavras inadequadas ao nosso país; na medida em que o PS seja influente, anunciam o prolongar da crise estrutural iniciada pelo Euro e pela politica de farturas sem produção; não contendo nenhuma promessa realizável e que o Dr. Passos Coelho não possa cobrir, pressagiam uma derrota eleitoral do PS nas tais longínquas eleições legislativas de 2015.

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A entrevista comentada está disponível em

http://www.cmjornal.xl.pt/domingo/detalhe/antonio_costa_defendo_um_choque_salarial.html

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