Pão partido aos pequeninos ou os Certificados de Aforro, o Estado e a Banca

SalvadorDaliAs finanças públicas portuguesas vistas por Salvador Dali (é a parte em cima da mesa)

Como os juros descem, um membro do governo da área das Finanças anunciou que o Estado desceria o juro dos Certificados de Aforro. Com mais ou menos atraso, foi o que sempre aconteceu: os juros desse instrumento acompanham os juros do mercado comparável. Só descerão os juros dos novos certificados, e por isso estamos perante um ótimo de Pareto (ninguém perde) e por isso causava dó (ou provocava gargalhadas loucas) uma entrevista a um membro do governo comparando essa descida de juros a um despedimento em massa.

Perante a notícia da baixa de juros do Estado-Banco, o Engº Faria de Oliveira apareceu em nome dos bancos a implorar que o Estado não os concorrenciasse mais na obtenção de poupanças: como os juros descem, a banca também descerá os seus.  Porque o Governo não diz para que juro descerá os ditos certificados e por isso parece querer algo da banca ou concorrer com ela.

Para transformar a cena num quadro de Salvador Dali, o dito membro do governo achou por bem teorizar sobre a credibilidade financeira dos Estados: «Também é importante do ponto de vista do Estado, enquanto emitente, poder referir que tem capacidade de captação junto do mercado doméstico. Os investidores estrangeiros valorizam isso». Já chegámos à finança burkinaBé. Esta teoria burkinabense dispensa o Estado português de conceber e aplicar (implementar, em português vagamente contemporâneo) um instrumento de poupança financeira a longo prazo para o pequeno aforrador que , sem concorrenciar a banca comercial que financia a dívida pública, aumentasse e segurasse a poupança nacional. É que este instrumento exigia matemática que os nossos financeiros públicos, treinados no privado, não dominam – e talvez nem saibam que existe.

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