O Semiprotetorado ainda não sabe se beneficia da nova política do BCE

A decisão de ontem do BCE  sobre o QE (Quantitative Easing) levanta duas questões: Portugal beneficiará dela? Que efeitos terá essa política na Eurozona e entre nós?

Portugal beneficiará do QE ?

BCEBigBazookaDNA nossa imprensa diz que o nosso país beneficiará do QE mas o Sr. Draghi sugeriu que não beneficava

Ontem o nosso governo nada disse sobre o assunto QE – e todos sabemos que é preciso muito para calar a voz do Dr. Passos Coelho; o Dr. Costa, Carlos, o governador do BdP, estava invisível; o Dr. Costa, António, felicitou a Eurozona e condenou o governo mas não disse se iríamos beneficiar do QE. Ora o governador do Banco Central Europeu (BCE), Sr. Draghi, disse ontem que compraria títulos que tívessem a qualidade de investimento; como é sabido, a dívida pública portuguesa não atingiu esse estatuto, na classificação das três principais agências de rating. O BCE tem o direito de proceder ele próprio à classificação de risco que entender – mas para isso tem que ser ele a dizê-lo, o que não ocorreu ontem. O BCE anunciou ontem o QE entre outras razões a fim de fazer crescer água na boca do eleitorado grego para as eleições de depois de amanhã: mais dinheiro significará o fim da austeridade o que conduziria à derrota do Syriza, o partido de extrema esquerda anti UE. Nada de menos certo, aliás: o grego votará em quem o defender melhor e atribuirá ao Syriza a meia vitória que ontem começou a ganhar em Frankfurte. Por isso é duvidoso que Portugal saiba o seu destino antes das eleições gregas. Seja como for, temos direito a um esclarecimento oficial: recebemos QE? se sim, em que condições? O BCE compra só dívida pública portuguesa ou obrigações das empresas?

• A economia beneficiará do QE?

CUFBarreiroFábricasHaverá novos projetos fabris à espera de financiamento?

A dimensão do QE foi quase o dobro do esperado e eleva-se a pouco menos de um quinto do PIB anual da Eurozona. Em proporção, por´ém, é cerca de um terços  ação da Reserva Federal nos Estados Unidos, em circunstâncias simillares. O Sr. Draghi continua a saber manipular os mercados. Ao contrário do que ontem parecia provável, os Estados-membros responderão por 80% dos prejuízos com a sua dívida pública e não pela totalalidade. Os efeitos a curto prazo foram os esperados e foram encorajadores: o câmbio do euro caíu, os índices de ações de empresas subiram.  «Entra uma nova era», titula o Wall Street Journal para assinalar o fim da resistência aleao ao keynesianismo. No Telegraph de Londres, Ambrose Evans Pritchard escreve que a Alemanha se considera derrotada pelo bloco latino. É facto que não desapareceram as reistências germânicas ao QE; o  Frankfurter Allgemeine, um jornal conservador, diz que a decisão «quebra a confiança».  O tradicional Sr. Gauweiler já anunciou que impugnaria a decisão e em Davos a chancelarina Merkel sugeriu isso mesmo, embora declarasse respeitar a independência do BCE.  A aplicação das medidas, prevista para março, não é ainda certa.

As medidas, reconhecidamente tardias, serão suficientes? Em termos de procura só serão suficientes se os governos não seguirem políticas orçamentais contracionistas; se por exemplo resolverem diminuir a dívida pública (como a regra de ouro exige, aliás), os efeitos serão atenuados ou mesmo anulados. A outra incógnita é a banca. O Economista Português considera que para lá dos Pirinéus pelo menos boa parte da banca continua afogada em dívidas e que aproveita a ocasião para melhorar os seus balanços (o BES não era o único banco com problemas por essa Eurozona fora). Do lado da oferta, a questão surge entre nós e não só: haverá projetos de investimento produtivo com capacidade para se pagarem, sem dependerem de subsídios? Ninguém ouviu a CIP ou a AIP reivindicarem financiamentos pelo que tudo leva a supor que a banca tem razão: a indústria transformadora não tem projetos de investimentos em carteira. O mesmo se passará com a energia? E com a agricultura de grande escala tipo Alqueva? E com o turismo? E com os transportes, nomeadamente por mar, tão ecológico, tão barato e tão capaz de substituir  os camions TIR e dispensar oTGV? E com a pesca? Nesse caso, o dinheiro fresco do QE, a chegar a Portugal, fomentará o melhor aproveitamento da capacidade produtiva das indústrias viradas para o mercado interno mas o essencial dele aumentará as importações para consumo privado e por certo do Estado. Isto é: agravará a nossa balança de pagamentos.

Em tempo: Às 14h48 de sexta-feira, o Diário Económico publicou finalmente  declarações do Dr. Passos Coelho à Lusa; essa declarações, congratulando-se com o QE em geral, revelam que sabe tanto como o leitor ou os Drs. Costa António & Carlos sobre se o nosso país tem direito a aceder ao programa de QE do BCE. Pobre semiprotetorado. E diz a Drª Maria Luís Albuquerque que o semiprotetorado não precisa de esmolas!!! Tem razão. Precisa de uma moral cívica diferente.

As declarações do Dr. Coelho estão em

http://economico.sapo.pt/noticias/primeiroministro-diz-que-decisao-do-bce-e-bemvinda-e-espera-que-seja-eficaz_210562.html

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2 responses to “O Semiprotetorado ainda não sabe se beneficia da nova política do BCE

  1. Basta ler o Observador e obtem todas as respostas.

  2. O Economista Português agradece a sugestão mas preferia uma fonte oficial.