Vítor Bento responsabiliza a ortodoxia berlinense pela crise da Eurozona

VítorBentoEurozonaA Europa perdeu PIB e ganhou desemprego entre 2008 e 2014, mostra o gráfico de Vítor Bento

A semana passada, o Dr. Vítor Bento, um economista que depois da aventura do Novo Banco, retomou o seu lugar no Conselho de Estado, publicou uma análise da reação da Eurozona à crise de 2008, intitulada Eurocrise: uma outra perspectiva. O texto demonstra que a Eurozona piorou desde 2008 a 2014 (PIB encolheu 1,5%, desemprego aumentou), ao passo que os Estados Unidos melhoraram (PIB cresceu mais de 8%, desemprego estagnou). O desequilíbrio externo da Eurozona também aumentou. Por isso, a crise não era inevitável; resulta de um diagnóstico errado: não se tratou sobretudo de um problema de finanças públicas mas sim de insuficiência da procura. O diagnóstico errado gerou políticas erradas: reduzir a despesa pública, aumentar a receita pública. Bento divide os países da Eurozona em três grupos, segundo o saldo das suas contas externas desde a fundação do Euro: Excedentários (Alemanha e outros), Deficitários (Portugal, Grécia, Espanha) e França+Itália. A sua exposição mostra que a distribuição do ajustamento à crise foi assimétrica: os deficitários pagaram mais. Bento não propõe medidas de política pois, diz, prefere que os leitores se concentrem na produção de um diagnóstico.

Bento escreveu cerca de quatro mil palavras (dez vezes as do presente post) que exigem algum tempo de leitura mas são claras. É uma análise keynesiana, dentro da ortodoxia financeira dominante no mundo (com exceção de Berlim, Frankfurt e Bruxelas). Para ele, o problema não está na estrutura da Eurozona mas apenas nas políticas económicas. Bento defende a desvalorização do Euro, como ressalta do gráfico acima, e por certo um orçamento federal anticíclico (as despesas públicas aumentam quando o PIB cai), implicando o auimento da criação de moeda.

Embora prudente – a palavra Alemanha nunca é escrita – é claro que Bento critica a política económica de Berlim e Bruxelas e a narrativa da crise dada pelo apóstolo berlinense Pedro (Passos Coelho). Por isso é interessante observar a reação ao texto de Bento dos que apoiam indefetivelmente o Governo perante um economista do Establishment que desrespeita a crimininalização oficiosa dos portugueses. Embora em geral de poucas letras económicas, criticam Bento sem respeito: são patriotas do estrangeiro e dói-lhes o coração verem a Alemanha assim criticada, por explorar os pobres da Eurozona. Um deles critica Bento por, entre outras supostas razões, «aparentar dar razão aos que acham que a solução em Portugal é o crescimento». Eis como a ignorância, além de atrevida, pode ser divertida.

*

O texto integral do Dr. Vítor Bento está disponível em

http://observador.pt/especiais/eurocrise-uma-outra-perspectiva/

Anúncios

Os comentários estão fechados.