Dinheiro da Eurozona: O Primeiro a sair, perde, diz a Grécia

VaroufakisDjeisselblomInimigos íntimos – ou algo mais? (Jeroen Dijsselbloem e Yanis Varoufakis, ontem, algures na Eurozona)

A Grécia pedirá hoje a extensão do empréstimo , evitando comprometer-se com as formalidades da  troika perpétua. Claro que lhe será concedida. A comunicação social portuguesa dir-lhe-á sem grande convicção aliás que a Grécia foi derrotada – mas não acredite. Queira continuar a ler.

Não o conceder seria expulsar a nova Hélade da eurozona e abrir a crise europeia. Com este pedido, a Grécia não consegue mais fundos mas consegue um bem precioso: tempo – e boa reputação, a Grécia pede, a Grécia negoceia, a Grécia não é leninista. O Economista Português explica-se. A Alemanha, que beneficiava da defensiva pois apenas tinha que velar pela aplicação da regra de ouro orçamental,  começou a presente ronda negocial passando à ofensiva e dizendo à Grécia que era livre de sair da Eurozona quando quisesse. Esta jogada, perante um bom jogador, equivalia à derrota: com efeito, a jogada esquecia o Partenon, re-enterrava Konrad Adenauer, punha em risco os credores gregos que têm vindo a ser pagos e aterrorizava os credores de Portugal (a seguir, diriam o mesmo a Portugal, depois à Itália, etc)  e mandava a solidariedade europeia para a conta do cangalheiro. A Grécia respondeu com uma estratégia em três anéis: o anel formal (troika ou não troika, programa ou liberdade, etc), o substancial (dinheiro para a economia grega) e o sentimental (o Partenon, os alemães são queridos). Os vencedores de Atenas começaram então a sua tournée europeia, para se mostrarem (a ofensiva de charme, as hormonas televisivo-sexuais do «comunista» grego Varoufakis) e para sondarem as intenções de voto dos Estados-membros da Eurozona sobre o seu pedido de mais subsídios: foi uma operação de política externa, algo de diferente da mendicidade europeia que na Lusitania Ulterior é tida por diplomacia.  Os gregos não acharam que valesse a pena visitarem as Portas de Hércules (sensata poupança, dada a inexistência europeia do governo deste semiprotetorado) e, tal vez por isso, os vicegovernadores da dita Lusitania só viram o anel substancial. Não lhes passou pelas mentes que os gregos desenvolvessem uma estratégia.  Atenas computou assim o resultado da sondagem: esmagadora maioria a favor da Grécia nas condições formais, pequena maioria na condições substanciais. É a este balanço de situação que corresponde a nova jogada helénica.

Clausewitz«A adição de força dada pela defensiva é não só perdida pela passagem à ofensiva, como passa para o inimigo» (Clsewitz, Sobre a Guerra, livro III, cap. 16)

Hoje, a Grécia finge ceder no anel formal para ganhar tempo (e $$$)  no anel substancial e no sentimental. Tem para tanto uma razão técnica: não sabe quanto quer nem como quer. O Sr. Schäuble, o ministro das Finanças alemão e homem de contas apuradas, já disse suspeitar que os gregos não sabem quanto querem e tem com certeza razão. Mas a razão de fundo é outra. O Sr. Varoufakis é um economista que  nun chic enternecedor se gaba de  ter estudado Karl Marx e que afinal aprendeu com Johann von Neumann e Oskar  Morgenstern: sabe de teoria dos jogos. Tal como o grupo dos Nove no verão quente de 1975, a Grécia sabe que no presente conflito, o primeiro a sair perdia. Isto mesmo sem contar com a artilharia russa. Ora a Alemanha saiu primeiro. Ora, como diria o Dr. Jaime Gama, quem saiu mal uma primeira vez, já não goza de uma segunda oportunidade de sair bem uma primeira vez. O Economista Português admite que, se apelarmos às nossas reservas de sangue frio e humor negro, possamos divertirmo-nos muito nos primeiros dias desta Quaresma do ano do Senhor de 2015.

4 responses to “Dinheiro da Eurozona: O Primeiro a sair, perde, diz a Grécia

  1. Não conferi com a fonte, mas creio que a legenda da figura contém um erro: a primeira “ofensiva” deve ser antes “defesa”. Pelo menos, é isso que retenho na memória da leitura da obra.

  2. O facto do ministro grego ser um investidor em empresas de jogos de computador não faz dele um conhecedor das teorias que lhe estão por detrás, talvez não conheça a fundo o Equilíbrio de Nash, onde dois jogadores A e B estão em equilíbrio se a estratégia adoptada por A é a melhor dada a estratégia adoptada por B e a estratégia adoptada por B é a estratégia óptima dada a adoptada por A, então nenhum dos jogadores pode aumentar os seus ganhos alterando de forma unilateral a sua estratégia.

    • O Economista Português agradece o douto comentário. No caso, porém, sabemos que o equilíbrio de Nasch é inaplicável: os vencedores das eleições gregas já disseram que consideram que o stus quo não é para eles a solução ótima e por isso, quer o Doutor Varoufakis tenha aprofundado o teorema de Nash quer não, a questão terá que ser resolvida de outro modo – exceto se o governo grego decidir violar os seus compromissos eleitorais.