Passos e a Grécia Parte 5: a Espanha isola Portugal >>> e revela ao Mundo o próximo Bodo a Atenas

GréciaFT2015março2Financial Times eletrónico de hoje

Como era previsível, as aventuras helénicas do Dr. Passos Coelho já estão a dar-nos mau resultado: o ministro da Economia e da Competitividade (da Competitividade!) do país vizinho terrestre, Sr. Luis de Guindos, declarou já saber qual a ajuda futura à Grécia (30 a 50 mil milhões de euros) e já disse que Madrid participará com 13-14% do brinde. Ficamos assim a saber o próximo presente da União Europeia (e nosso) à Grécia, embora haja ainda um intervalo grande para discutir. Estamos a falar de números interessantes: o resgate de 2010 foi de 45 mil milhões de euros e o de 2012 ascendeu a 130. Guindos aponta para o perdão de um terço da dívida grega, embora estas palavras estejam proibidas.

Assim, Madrid mostra-se generosa, com a mesma generosidade queimando o Dr. Passos e Portugal: somos nós, portugueses, dirigidos pelo Dr. Coelho, os Shylocks que querem levar a Grécia à fome. Vai ao pelourinho a política europeia inspirada no Lazarillo de Tormes (ver post de ontem).
Madrid talvez pense poupar uns cobres com a manobra: é que insiste no «resgate», palavra hoje maldita sob o olhar de Ares-Varoufakis e, a troco de desistir dela, talvez arremesse mais alguns pontos percentuais da ajuda à Grécia para os ombros do Dr. Passos Coelho. Os responsáveis europeus negam as discussões sobre o terceiro resgate grego – mas o desmentido refere-se por certo à palavra resgate. Madrid chorará lágrimas de crocodilo se o terceiro não-resgate falhar, mas está agora bem posicionada para  qualquer das alternativas (perdão da dívida grega, recusa desse perdão). ao passo que o Dr. Coelho espera ser redimido por uma palavra boa do Sr. Junker, o comissário geral, ao qual aliás pregou uma luzida descompostura a semana passada.

Os ombros em causa serão hipoteticamente também os do Dr. Costa que, sempre com aquele «engano de alma ledo e cego» de não enxovalhar Portugal, desinteressou-se destas perigosas questões europeias, e é hoje um «imigrante do interior» (Châteaubriand); por isso foi sábado a Santarém garantir-nos a salvação da Pátria pelo método expedito de prometer a transferência dos empregos das CCDRs para os presidentes das Câmaras. As CCDRs são as Comissões de Coordenação Regionais, as regiões parturejadas pela nossa clandestinidade burocrática.
Um obscuro funcionário do Ministério das Finanças alemão, o Sr. M. Jäger, na sua reunião de rotina com a comunicação social, confidenciou baixinho: «não devemos meter-nos nos negócios dos outros países da União Europeia», o jogo grego não é aceitável  e manifestou «grande reconhecimento» a Espanha e a Portugal, o que no nosso país foi acolhido com esfuziante regozijo e considerado uma condenação da Grécia – pelo menos uma das nossas televisões assim oraculizou à hora do jantar, provocando aos numerosos teleespetadores gargalhadas que quase os iam engasgando. Mas não é: significa apenas que Berlim acusa o toque de Atenas e percebeu que os sucessores de Clístenes pretendem interditar-lhe a manipulação do nosso país para efeitos de influenciar a verba final, quando em junho tocar a fuzilamentos europeus, isto é, quando se decidir o novo e oculto perdão da dívida grega. Este aspeto parece ter passado desapercebido aos comentadores aborígenes o que sugere que, em termos de compreensão da União Europeia, os Balcãs são uma passadeira rápida e os Montes Hermínios uma cordilheira gigantesca.

CaiaFronteiraCaia: uma fronteira eterna

Não haverá um conselheiro do Dr. Passos Coelho a quem ele possa pedir umas palavras para deixar cair pela televisão abaixo e que nos lancem na alma a consoladora certeza que ele, Coelho e Primeiro Ministro, tem alguma ideia do que está a passar-se para lá do Caia?

 

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