Portugal emite Dívida a 30 anos? O mundo mudou…

Não se muda já como soía

Camões

Um hipereconomista português perguntou ontem a’ O Economista Português: «Acredita que Portugal emitirá em breve dívida a 30 anos? » A pergunta era fácil. O interrogado não acreditou e assim o disse, perguntando aos seus botões se o 1º de abril teria chegado mais cedo. Com efeito, a nossa dívida tem o prazo médio (otimista) de uns cinco anos porque ninguém sabe (a começar por nós) onde estará o devedor Portugal daqui a seis anos. Quem apostaria em nós a 30 anos?

A pergunta era a sério: os capitais afluem para a União Europeia, quer ela produza quer não produza. O pouco crescimento das economias norte-americana e sobretudo europeia é alcançado à custa de criação de moeda estatal. A próxima crise económica será maior do que as anteriores. Felizmente que não somos responsáveis pela política monetária, concluiu o hipereconomista.

O Economista Português ficou honrado e excitado pelo desafio. Anteontem, reparara por puro acaso que na União Europeia, os preços desciam e a produção subia – um movimento em absoluto proibido pela teoria (por toda a teoria económica), embora tão pequeno que estava na margem de erro. Mas, tal como a pergunta do hipereconomista, mandava às cordas a teoria económica. A própria mudança económica terá mudado, como dizia Camões? Os conceitos de ontem tornaram-se imprestáveis para explicar as realidades económicas de hoje? Os critérios de avaliação da credibilidade do devedor já não são os de ontem? Quais são os capitais que julgam ser Portugal capaz de amortizar uma dívida crescente, quando de acordo com os critérios de ontem  essa amortização é irrealizável? Para não fugir ao que entendeu do amável desafio, O Economista Português alinhavou uns raciocínios de comentário à pergunta. Ei-los.

StuartMillJohnJohn Stuart Mill: o estado estacionário fascinava-o

Raciocínio teórico o estado estacionário: os economistas clássicos (Ricardo, Stuart Mill) viviam fascinados por uma economia sem ciclos, imóvel, sempre rica.  Para chegar lá, é preciso que não haja nem moeda nem lucro, ou que não haja motivação pelo lucro máximo. Teremos lá chegado sem o sabermos? Hoje, há vultosos capitais que não querem nem lucro nem juro, querem apenas ser reembolsados (dentro de quantos anos?) e para esse modesto objetivo contam com o Banco Central Europeu. A Eurozona (e só ela) parece aproximar-se desta situação. Na realidade, o capital continua a ser destruído periodicamente, como o gado nos sacrifícios politeístas: a quebra da moeda e as crises económicas são essas derrotas dos credores. Só que esse fenómeno não é de hoje: sempre houve capital filantrópico e capital que se autodestrói enquanto capital mercantil mas, como a estatística não o mede, nem no passado nem no presente,  ignoramos se hoje é significativamente maior do que ontem. O leitor duvida? Queira ler Neill Ferguson cujo The Ascent of Money bem podia ter sido intitulado A Vitória Universal do Calote A derrota do credor, de Adão e Eva à globalização. Aliás o hipereconomista parece renovar o pendor schumpeteriano do presente eterno: a crise financeira é inevitável. Com um toque pósmoderno, Herman Minsky, o conhecido economista norte-americano, deu-lhe razão e até o exagerou.

KennethBouldingKenneth Boulding: génio da lógica, teorizou a economia do amor

Raciocínio teórico 2: Kenneth Boulding tratou da economia do amor e propôs uma lógica de doações para explicar a circulação dos bens e serviços. Sabia demasiada matemática, foi rechaçado pelos economistas que julgam ser a economia a ciência das trocas. Thornstein Veblen, o autor da Theory of the Leisure Class, propusera uma economia do lazer, cheia de doações e renúncias, e foi rejeitado por saber pouca matemática. A vida da teoria económica é assim. Os economistas não se interessam pelo terceiro modo de obter dinheiro: a conquista ou o roubo. Todos pensam apenas no terceiro modo de circulação de bens: a troca. Tudo isto visto e reconsiderado, O Economista Português ter-se-á enganado: não será o contribuinte alemão a pagar a Grécia, será um financeiro filipino que emprestou dinheiro a um banco de Singapura que comprou dívida garantida pelo Sr. Draghi. Filipino que, sem o saber talvez, se prepara para proceder a uma doação mais ou menos voluntária. Com efeito, a teoria económica não procurou um quadro geral que articulasse a doação, a conquista e a troca: vê troca onde há doação.
Raciocínio monetário: a economia mundial está cheia de dinheiro, devido à desregulamentação bancária  que é um elemento crucial da globalização; o Fundo Monetário Internacional fiscaliza as finanças estatais mas é incapaz de fiscalizar as empresariais; sendo o dinheiro abundante, perde o valor e portanto a taxa de juro tal como a conhecíamos, desaparece; em  certos casos, torna-se negativa. As estatísticas nacionais e internacionais medem mal o dinheiro na época da sua liberdade de circulação, e portanto de emissão; por isso subestimamos o seu crescimento; sendo demasiado abundante em relação aos bens e serviços que são a sua contrapartida no ativo do balanço, não sabe para onde ir, por serem automaticamente reduzidas as oportunidades de investimento a um tempo remunerador e seguro. Talvez a solução do problema financeiro português (e grego) esteja em encontrarmos quem nos pague para os juros e dispense a amortização próxima para ter o direito de nos comprar dívida (as taxas de juro negativas, impensáveis há poucos anos), na expetativa de Draghi for ever ou sem sequer pensar em nenhuma garantia. Em situação semelhante de aumento brusco do numerário após o começo das Cruzadas, era o depositante (o cruzado) que pagava ao depositário (os Templários) para lhe guardar   os ouros (o depósito). Este pagamento era uma variante do juro negativo. Indo por aí, a Drª Maria Luís Albuquerque e a Drª Cristina Casalinho ganhariam um Óscar da finança portuguesa.

ProtecionismoLiberaisBritânicosComo o Império Britânico era grande antes de 1939, Keynes podia permitir-se ser protecionista sem sofrer muito por violar a racionalidade económica (cartaz do Partido Lebral britânico)

Raciocínio do comércio livre: muitos pensarão que a ocasião dá para condenar Keynes: a eficácia marginal das injeções adicionais de dinheiro para gerir a procura geram um produto cada vez menor e por isso deixam de ser justificáveis; talvez; mas Keynes era ocasionalmente protecionista: boa parte do dinheiro que compra euros não terá vindo dos Estados Unidos, via Ásia? Ou seja: Keynes pensou as suas políticas de gestão da procura num quadro nacional, hoje irrelevante, pois a única proteção é a da zona monetária (incluindo a taxa de risco cambial, o Euro garante pelo menos 5% de proteção sobre o valor final das mercadorias e serviços transacionados). As pulsões monetárias dos EUA são de dimensão mundial mas falta, ou não há, um banco central mundial.
eurocontradólarRaciocínio cambial: voltámos à guerra cambial, euro contra dólar, yen contra euro. Ninguém confia na economia dos Estados Unidos depois da crise de 2008, do extraordinário presidente Obama e dos moço/as que se perfilam para lhe sucederem. Muito dinheiro aposta no Euro, não para comprar apartamentos em Lisboa, mas como ativo financeiro, e o dito começa assim a ser empurrado para moeda de reserva: o que o esterlino queria ser nos anos 1960, sem conseguir, consegue o euro, sem querer. Mas o Euro só pode ser moeda de reserva se der crédito abundante, o que pressupõe um duradouro flirt com a inflação (inflação a sério, não a do Eurostat que nela inclui -0,2%, isto é, o Eurostat inventou uma inflatio que encolhe. O nosso muito obrigado).

Eis as primeiras achegas, ambiciosas, repetitivas e desconexas. O Economista Português tentará ir verificando o atraso (ou o avanço) da teoria social face à realidade económica.

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