Tsipras e Merkel em Berlim >>> a Paz armada

TsiprasMerkelFAZ2'15mar24«Tsipras em Berlim: ‘Nem os gregos são preguiçosos nem os alemães culpados’»

O Sr. Tsipras, primeiro-ministro grego, e a Srª Merkel, chancelarina alemã, encontraram-se ontem pela primeira vez. A Alemanha quis ser acolhedora e comprometedora: como o chefe do executivo helénico acusa a Wehrmacht de crimes de guerra, fê-lo aceitar as honras prestadas pela Bundeswehr.
O encontro teve por base uma carta em que o Sr. Tsipras dizia que o seu país não pode pagar a dívida e a Srª Merkel manteve-se «firme nas exigências» de reformas (Daily Telegraph), subentendendo-se que assim a Grécia poderia pagar a dívida. Durante o encontro, o grego voltou a levantar a reivindicação do reembolso das reparações de guerra, assunto que Berlim dá por encerrado, salienta The Guardian. Foi um «começo, nada mais do que isso», titula Der Spiegel, mas, segundo o Financial Times, serviu para «diluir a tensão».
Na substância, o diferendo continua na estaca zero: a Grécia  tanto pode entrar em bancarrota, saindo do Euro, como pode conseguir melhorar a sua situação – como, e é a tese oficiosa portuguesa, conseguir um faz de conta para fingir que ganhou e ficar pior do que Portugal. Contudo, a Grécia conseguiu encetar negociações sem abdicar das suas reivindicações. É uma vitória processual, cujo alcance avaliaremos oportunamente. Por seu lado, a Srª Merkel fez ontem de crocodilo pequenino quando disse, na conferência de imprensa, que era o Eurogrupo e não Berlim a decidir das garantias gregas  – o que sugere estar a Alemanha disposta a consentir que no particular helénico lhe torçam um pouco o braço.

Compreende-se porquê: ao risco de não conseguir cobrar os seus créditos, acresce o do regresso do remorso do nazismo, que a reunificação alemã parecia em risco de sarar. Há um ou dois anos, o ex-chanceler Helmut Schmidt disse que a tática de Merkel voltaria a criar inimigos à Alemanha ne Europa, despertando um passado horrível; é «o passado que não passa nunca», isto é,  os crimes nazis como acusação ou remorso regressam sempre à política alemã pois são delitos sem expiação. A sua indemnização foi ontem (ao que parece) pela primeira vez exigida na própria capital alemã. Aliás, multiplicam-se na Alemanha as vozes favoráveis à aceitação do pedido grego de reparações (sociais-democratas de esquerda, ecologistas) – de reparações e não de reembolso do empréstimo forçado imposto pela Alemanha nazi à Grécia ocupada. Como os comentadores oficiosos portugueses adotarão a leitura de Le Figaro – «Merkel estende a mão a Tsipras, aflito com as finanças» – , talvez valha a pena o leitor ponderar essa tese lendo a manchete do Frankfurter Allgemeine, que abre o presente post: ao lê-la, o leitor não ouve o suspiro de alívio do diário conservador alemão por o Sr. Tsipras estar a comportar-se bem, não partir a louça da Eurozona – e admitir que os alemães não são… «culpados»?

Este jogo de poker – Alemanha e Grécia alardearam as suas ameaças na praça pública até ao momento em que começou o encontro – é o único fator entusiasmante na União Europeia dos nossos dias . Vale a pena segui-lo, por todas as razões e mais esta.

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