Pesticida no Laranjal? Só com Curso especializado

LaranjeirasPesticidas? Vá estudar primeiro

Uma senhora conhecida d’ O Economista Português herdou umas leiras e a casa da família; por respeito para com os seus maiores tem tentado manter a herança. Nela estão umas laranjeiras. Teve que mandar podá-las. Quem se encarregou desta tarefa disse-lhe: «Daqui a algum tempo, tem que lhes pôr química. Mas a senhora não pode comprar os pesticidas». Não posso? surpreendeu-se a senhora, que já concluíu vários cursos. «Não, pesticidas só com um curso». Com um curso? Ao que  disse este informante à pobre proprietária das leiras, é um curso intensivo, operado numa estação oficial e que ao paciente custa 15o euros.

Terá o informante dito a verdade? O Economista Português não se surpreenderia com este modo singelo de o nosso Estado estimular a agricultura e, claro, as finanças públicas.  A regulação dos pesticidas evitará acidentes de trabalho (contam-se por dezenas de milhares os agricultores portugueses mortos a pulverizarem as suas laranjeiras), anulará suicídios extemporâneos, adiará o aquecimento do planeta Terra e criará emprego entre os burocratas que o ministram, os que mandam ministrá-lo e os que fiscalizam a sua aplicação. Para quando um curso obrigatório e pago que habilite cada um de nós a acender fósforos ao pé do fogão de cozinha? E outro também obrigatório  e também pago para sermos autorizados a acender isqueiros na cozinha? Sem curso, teremos que pagar a alguém da junta de freguesia ou, quem sabe, da direção-geral. Com curso também temos.

Esta ironia é para aliviar: mais autorizações é mais corrupção, menor remuneração para os produtores e menos crescimento económico. O curso dos pesticidas é apenas um sintoma. Por certo inspirado pelos neoliberais da Comissão de Bruxelas.

3 responses to “Pesticida no Laranjal? Só com Curso especializado

  1. Trata-se de uma norma da União Europia. Os pesticidas só podem ser vendidos a quem tenha a formação necessária para os aplicar correctamente e com segurança. Isto é: ou o agricultor tem essa formação (renovada cada 10 anos; como as cartas de condução de automóveis) e pode comprar os produtos; ou adquire a um técnico qualificado o serviço de aplicação dos produtos e será esse técnico que os irá adquirir.

    Este sistema é análogo ao da venda de medicamentos em farmácias: há alguns que só podem ser vendidos com receita médica, entre outras finalidades para garantir que serão usados segundo a recomendação adequada. No caso dos agroquímicos, a “receita” tem que ser subscrita por um técnico com formação universitária, as casas somerciais têm que ter um responsável técnico com formação superior (como as farmácias) e a venda só é feita a quem esteja habilitado para a sua correcta aplicação.

    A aparente burocratização de uma transacção aparentemente simples é uma medida de protecção de todos, desde quem compra a quem aplica, a quem consome os produtos e a quem passa ou se encontra próximo das culturas em que são aplicados. Peço a O Economista Português, em nome da admiração que tenho pela qualidade das suas análises econónicas, que tenha em conta o facto de que muitas das substâncias utilizadas em agricultura são mais perigosas do que medicamentos que se compram nas farmácias, além de que se vendem em quantidades muito maiores. E por outro lado, as condições de uso seguro são muito mais complexas e exigem conhecimentos técnicos específicos que vão muito para além dos que são necessários para usar uma caixa de fósforos ou um isqueiro BIC.

  2. O Economista Português agradece o comentário e tem que confessar que não ficou surpreendido ao lê-lo. Permite-se sugerir a colheita de estatísticas sobre os danos provocados por fósforos em cozinhas e por uso incopmpetente de pesticidas em pomares, mesmo de reduzida dimensão, antes de assim levianamente se descartar a obrigatoriedade de cursos especializados para acender fósforos em cozinhas. Tudo leva a crer ser mais arriscado acender fósforos em cozinhas do que usar pesticidas em laranjais. Ou, num registo tecnocrático: onde estão publicados os estudos medindo o risco do uso dos pesticidas e justificando a extraordinária medida adotada em Bruxelas? Qual o debate público que esses estudos tiveram? qual o debate público sobre a restrição das nossas liberdades a propósito dos pesticidas?

  3. Boa noite,
    É sempre um prazer ler este blogue.
    – – –
    “(…) onde estão publicados os estudos medindo o risco”?
    A Comissão Europeia adoptou em 2000 o “princípio da precaução” em tudo o que diga respeito a política ambiental (https://en.wikipedia.org/wiki/Precautionary_principle#European_Commission).
    Assim, na dúvida, proíbe-se primeiro e estuda-se depois.
    A industria nacional de postes de madeira tratada (para cercas, para linhas de telefone ou electricidade, etc.) foi severamente afectada pela proibição do uso de produtos de impregnação eficazes, sem que fossem demonstrados os seus efeitos nocivos no ambiente. Como não havia (nem há actualmente) outros produtos com a mesma eficácia, o mercado dos postes foi, assim, entregue “por decreto” à indústria do betão pré-fabricado, que implica, no seu todo, uma pegada ecológica imensamente maior.
    Na altura também se perguntou ao Governo “onde estão publicados os estudos medindo o risco do uso do que se proíbe e das alternativas que tomarão o seu lugar”? Nunca houve resposta..