Homenagem a José da Silva Lopes (1932-2015)

SilvaLopesJosé da Silva Lopes morreu na Quinta-Feira Santa deste ano de 2015. O leitor está ao corrente da influência tutelar que ele exerceu sobre O Economista Português o qual, nesta ocasião, deve renovar esse penhor. Contrariando Max Weber, O Economista Português procurará a seguir homenageá-lo sem se homenagear.

Silva Lopes foi um elemento excecional da primeira geração de economistas profissionais portugueses; foram formados no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras depois de ele ter sido transformado numa faculdade de economia de tipo anglo-saxónico, sobretudo devido à ação dos doutores António Manuel Pinto Barbosa (1917-2005) e em certa medida Manuel Jacinto Nunes (1924-2014). Até então, entre nós, os economistas não se distinguiam dos guarda-livros, os financeiros eram professores de Direito (Afonso Costa, Salazar) e os gestores de grandes empresas eram também juristas ou engenheiros. Estamos no começo dos anos 1950. Outro exemplo ilustre dessa geração é João Salgueiro, dois anos mais novo do que Silva Lopes e graças a Deus em plena e promissora atividade.

Silva Lopes era um génio do cálculo das probabilidades e tinha um talento para os negócios que exercitava em benefício do país e pouco pro domo sua (talvez seja bom que um economista tenha queda para os negócios). Partilhava estas qualidades com o seu admirado John Maynard Keynes (1883-1946), especialista em probabilidades e jogador triunfante na bolsa de valores (o que em concreto Silva Lopes não parece ter sido). Silva Lopes terá ficado mais perto na produção teórica não só por causa da sua idiossincrasia mas porque a formação em Cambridge revestia uma vertente humanista que escasseava no Quelhas. Mas Keynes não foi governador do Bank of England nem Chancellor of the Exchequer e Silva Lopes foi governador do Banco de Portugal (antes de ser BdP) e ministro das Finanças (antes de tal cargo corresponder a vogal do conselho da Eurozona).Tal como o professor de Cambridge, Silva Lopes ligou sempre a análise económica a uma dada forma de ação política e a uma específica preocupação com o nível do emprego. Por isso, ambos intervieram nos mass media: Keynes escreveu e publicou, Silva Lopes teve os telejonais onde o seu jeito brusco, sábio, seguro, direto, charmoso, desajeitado, modesto e desassombrado irritou muitos governos e maior número de governantes, mas esclareceu numerosos cidadãos.

A morte em Quinta-Feira Santa é o fim de um ciclo.  Como decisor ou como técnico Silva Lopes esteve no centro de todas as opções centrais da economia portuguesa desde os anos 1950 (assessorou o legitimista José Gonçalo Correia de Oliveira nas negociações sobre a nossa participação na Associação Europeia de Comércio Livre, mais conhecida pela sigla inglesa EFTA, e no GATT, antepassado da Organização Mundial do Comércio). Colaborou no pedido de acordo com o então Mercado Comum, no governo de Marcelo Caetano. Silva Lopes dera a sua colaboração técnica ao Estado Novo, que aliás a pedira, mas marcou sempre as suas distâncias políticas em relação a ele. A sua ação foi crucial para ultrapassarmos os erros económicos cometidos na sequência do 11 de março de 1975 e para o nosso regresso à arena económica mundial, em particular com a introdução do crawling peg, a desvalorização programada e pré-anunciada do escudo. O seu parecer ainda terá sido escutado quando entrámos na atual moeda única europeia, o Euro. É meio século de história económica portuguesa. Será o ciclo europeu?

Esta última passagem de Silva Lopes foi acompanhada por um merecido, e pouco habitual, coro unânime de hossanas – descontada uma voz desafinada de um ministro, tão tonta que é melhor supô-la involuntária. Salientemos o post do atual papa keynesiano, Paul Krugman, cuja carreira aliás algo deve ao homenageado. Convém porém contrastar a unanimidade das homenages nacionais com o modo como o homenageado foi tratado: data de 1980 o último cargo executivo financeiramente significativo de Silva Lopes no Estado português. Teve que passar o cavaquismo no exílio interior e exterior (consultor do FMI, do Banco Mundial). Em 1995 o Partido Socialista ganhou as eleições e António Guterres nomeou-o para uma prateleira prateada, a presidência do Conselho Económico e Social. Era a reforma antecipada. Silva Lopes estaria velho? Não: tinha 63 anos e exerceu aquela presidência até 2009. Talvez seja melhor supor que o 25 de abril foi com ele menos tolerante do que o Estado Novo: ao ser marginalizado,  Silva Lopes pagou o preço da sua independência de espírito, agora tão louvada por tantos dos seus obituaristas. Fomos nós quem perdeu.

2 responses to “Homenagem a José da Silva Lopes (1932-2015)

  1. Margarida Ponte Ferreira

    Bela homenagem a um economista que soube marcar uma época. O Economista Português, ao referir os antecedentes académicos de Silva Lopes destacou, merecidamente, os Professores Pinto Barbosa e Jacinto Nunes. Porém, não seria justo, na menção aos que tiveram influência na formação dos “economistas do ISCEF”, esquecer o Professor Pereira de Moura, quiçá o mestre que mais deixou nos seus alunos a marca do keynesianismo – pesem embora controversas opções políticas que faria no pós 25 de Abril.

  2. O Economista Português agradece o comentário da Drª Margarida Pondete Ferreira e informa que só ao mencionou o Prof,. Francisco Pereira de Moura, que como é do dom´ínio público, o influenciou pessoalmente, por supor, talvez erradamente, que ele tinha tido um papel menor na formação do ISCEF moderno do que os outros dois professores nomeados no texto.