Nóvoa: derrotado face à austeridade >>>>>>> e boas maneiras sociais

Sampaio da Nóvoa com Carlos César, Laboa abr 2015Sampaio da Nóvoa com Carlos César (à direita na foto)

O Doutor António Sampaio da Nóvoa, por quem O Economista Português tem consideração pessoal, proferiu há dias declarações com incidência económica que merecem exame pois emanam de um candidato sério  a Presidente da República.

Falando sobre educação e conhecimento, no terceiro aniversário da elevação a cidade de Lagoa (S. Miguel, Açores), Nóvoa afirmou que a emigração de jovens muito qualificados «é o maior desperdício que a sociedade portuguesa fez nas últimas décadas»; este «desperdício do conhecimento» é «o aspeto mais dramático dos últimos anos» porque é nele que «se pode encontrar uma capacidade de desenvolvimento que não tem de ter um crescimento [económico] enorme»; sempre segundo a Lusa citada pelo Açoriano Oriental, disse ainda: «é preciso acabar com a ‘ilusão’ de que voltará a haver em Portugal e na Europa, nas próximas décadas, níveis de crescimento como os registados no passado, mas considerou que isso não significa que não haja esperança em maior igualdade, desenvolvimento e bem-estar, estando a resposta na educação e na capacidade de ‘levar o conhecimento’ para a sociedade».
O Economista Português propõe as seguintes observações:
Os conceitos são todos vagos: qual é o «passado» para efeito de comparação com os «níveis de crescimento [económico]»? Os anos 1980? Os anos posteriores ao Euro? Que significa «‘levar o conhecimento’ para a sociedade»? A desejada «igualdade» é das oportunidades ou a dos factos materiais?  Será possível conhecermos em números a previsão de crescimento económico referida e nunca concretizada?
A afirmada «ilusão» da possibilidade de crescimento resulta do Doutor Nóvoa só olhar para Berlim: basta ver a economia dos Estados Unidos, cuja estrutura é comparável à europeia, para nos apercebernos que o crescimento é uma realidade e não uma ilusão. Aliás, Larry Summers, um dos mais respeitados economistas estado-unidenses, disse recentemente: «o desafio económico do futuro não será produzir o suficiente, será oferecer um número suficiente bons empregos ». Como o leitor sabe, são as regras do Euro e a política austeritária da Srª Merkel que impedem o nosso crescimento – ainda que sejam mais numerosas e fundas as causas de longo prazo do atraso económico do nosso país. Partindo ele próprio desta ilusão, o Doutor Nóvoa fica desarmado perante a política austeritária. O gráfico seguinte ilustra o parágrafo anterior:

UEvsEUAPib2012a2014A média das percentagens de crescimento é mais de seis vezes superior nos Estados Unidos

Fontes: http://www.tradingeconomics.com/united-states/gdp-growth-annual; http://www.tradingeconomics.com/european-union/gdp-annual-growth-rate

Em que consiste o «desenvolvimento» sem «crescimento económico» (ou com baixíssimo crescimento, como vimos o Doutor Nóvoa é vago)? Sem esclarecimentos adicionais, trata-se apenas de palavras palavrantes. Mais desenvolvimento sem crescimento económico é um elefante com asas de borboleta: não voa. Aliás, as Nações Unidas geraram um Índice de Desenvolvimento Humano para evitar a tirania do económico sobre o social, mas mesmo esse indicador não dispensa o bom, velho PIB, que aliás nele desfruta de um peso considerável.
Sem crescimento económico, como conseguiremos «maior igualdade, desenvolvimento e bem-estar», e conservaremos em Portugal os jovens altamente qualificados e desempregados? A tese do Doutor Nóvoa parece inadequada pois esquece um ponto crucial do Estado de Direito Democrático: é o crescimento económico que permite diminuir sem dor as desigualdades pois o novo excedente permite o respeito dos direitos adquiridos e, portanto, a concretização dos ótimos de Pareto (pelo menos numa interpretação generosa deles). Ótimo de Pareto é aumentar o bem estar de todos, sem que diminua o bem estar de um único elemento do todo. Sem crescimento económico, se se quiser igualizar, será preciso tirar a uns para dar aos outros, o que provocará violências sociais.
A nossa «maior igualdade, desenvolvimento e bem-estar» é compatível com a divergência real entre nós e a média da União Europeia, que tem vindo a verificar-se desde o estabelecimento do Euro? Se é, porque não foi recuperado objetivo da nossa convergência real?

Outras observações haveria a propor, mas seriam menos centrais. Recusar a meta do crescimento económico é uma inexatidão em teoria económica e consiste na prática em entregar o ouro ao bandido. Por isso o Doutor Nóvoa parte derrotado para bondades sociais que mais parecem gambuzinos eleitorais. Quererá ele esclarecer?

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Para ler um resumo jornalístico das palavras do Doutor Antonio Sampaio da Novoa, queira clicar no link abaixo.
http://www.acorianooriental.pt/noticia/cesar-diz-que-sampaio-da-novoa-representa-aquilo-de-que-portugal-precisa

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