Governo e Pilotos mandam a TAP para o triângulo das Bermudas & 3 gráficos sobre a situação económica da transportadora aérea

TriânguloDasBermudas
O governo do Dr. Passos Coelho obstinou-se em privatizar a TAP, sem cuidar das condições em que privatizava, não se importando que aquela operação fosse contaminada pelo calendário eleitoral. O governo julga poder decidir até 30 de junho, mas, mesmo que o consiga, a fiscalização do ato privatizador cairá em cima das eleições e o executivo está eleitoralmente só na privatização. Ontem, soube-se que a Globalia, um grupo espanhol de transporte aéreo, desistia de concorrer à privatização por não poder gerir a transportadora segundo critérios de empresa privada e por a dívida dela ser excessiva. Falhou o plano governamental de entregar a TAP barata para que um privado arrefecesse a «batata quente». Ontem também, uma assembleia do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) decidiu declarar uma greve longa que terminará dias antes do início da privatização; os motivos invocados são salariais e económicos e deles se deduz que os pilotos não acreditam que da privatização resulte o cumprimento do acordo de dezembro passado. Aparecendo desprevenido e tenso, o Dr. Passos Coelho não disse se procederá à requisição civil. Estas roturas patronais e sindicais ocorrem em simultâneo e significam uma mudança de táticas, no sentido da estratégia da terra queimada. A mudança é motivada pelos prazos da dívida da TAP, pelo acordo de dezembro e pelo calendário eleitoral. Nem o capital nem o trabalho acreditam que a privatização da TAP  será desta.
Com efeito, a desistência da Globalia sinaliza que não há condições para uma privatização a sério. O grande responsável disso é o próprio governo: obcecado em ser ele a privatizar, excluiu um consenso nacional tecnicamente informado; para tanto invoca argumentos económico-financeiros, mas não os justifica e o seu afinco em privatizar em qualquer momento, contra tudo e todos, suscita suspeitas, mina-lhe a credibilidade e retira-lhe margem de ação.
Como o governo não promoveu esse debate nacional, a opinião pública ignora se a TAP é viável, se é bem gerida, se a operação brasileira é um sorvedouro, se tem pessoal a mais. A atual TAP afigura-se inviável: dá prejuízo e o SPAC acusa-a de não lhe pagar o que lhe deve; se lhe pagasse, maior seria o prejuízo. É certo que o SPAC imputa erros à gestão Fernando Pinto e sugere que sem eles a empresa não seria deficitária. Sugere, mas não demonstra essa tese aliás pouco verosímil; e o seu extenso comunicado esquece dois grandes pormenores: a conta de ganhos e perdas da TAP e as atuais condições de concorrência internacional no mercado do transporte aéreo. Os três gráficos seguintes sugerem a inviabilidade económica da TAP (mas não discriminam os pilotos do pessoal de bordo e do de terra).

TapProdutividadeOs custos da TAP  com pessoal em percentagem das receitas estão do lado dos patos coxos (Fonte: http://centreforaviation.com/analysis/european-airline-labour-productivity-capa-rankings-104204) Para aumentar os gráficos, clique sobre eles

TapCustosDePessoalporATKOs custos do pessoal da TAP por tonelada/quilómetro estão também do lado dos patos coxos (Fonte: a do gráfico anterior)

TapReceitaPorEmpregadoA TAP é a companhia aérea europeia com menores receitas por empregado (Fonte: a mesma dos gráficos anteriores)

Na falta de um debate informado sobre a privatização da TAP, a sua privatização entra assim na fase de consensualização conhecida por «do mercado do Bulhão»: Governo e SPAC acusam-se mutuamente de mentir. É o conflito entre duas peixeiras que se puxam os cabelos; uma outra, mais velha, assiste e aconselha a amiga: «chama-lhe p… a ela antes que ela te chame p… a ti». O que é pena vindo de pessoas tão educadas e com tantas responsabilidades sociais, sobre tudo isto tão devedoras das benesses económicas distribuídas pelo Estado.
Com isto, é o país que perde: a insistência governamental nesta privatização inicia um longo período de incerteza para a TAP que ou não será privatizada (como aconteceu em diversas tentativas anteriores) ou será mal privatizada. O problema TAP manter-se-á ou agravar-se-á.

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