O Comércio livre em Risco ou o TTIP pelas Ruas alemãs da Amargura

ComércioLivreManifContraTTPP2015abr20Pobres crianças! Tão pequeninas e já manipuladas para a propaganda política contra a liberdade de comércio e de investimento (foto do
Der Spiegel)

Ontem as ruas da Alemanha foram largamente ocupadas por manifestantess alternativos contra a Parceria Transatlântica para o Comércio e o Investimento (TTIP, na sigla inglesa), o tratado que pretende reforçar o comércio e o investimento livre entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos da América (EUA). As previsões económicas são unânimes em prever mais crescimento económico para a EU, para os EUA e para o resto do mundo.
Estas manifestações são de mau agoiro. A prosperidade do mundo, incluindo o que resta da nossa, assenta no comércio livre e na liberdade de investimento. O Economista Português não estende este benesse incondicional aos movimentos de capitais a curto prazo. Atacar o comércio livre é serrar o galho no qual nos sentamos. Já muitos atribuem a crise salarial nos Estados Unidos e nas outras economias desenvolvidas ao comércio livre. Estão enganados: no esquema de David Ricardo (1772-1823) o comércio livre talvez causasse desemprego mas, por si só, não baixaria os salários dos empregos sobrantes, pelo contrário. A causa mais provável da baixa dos salários nos países desenvolvidos é o cruzamento dos robots com a informática. Mas os sindicatos norte-americanos, os nacionalistas europeus, os nacionalistas dos diferentes países europeus julgam que a culpa é do comércio livre. Sem comércio livre, a União Europeia esbarrondar-se-á como o burro-em-pé. Eis o perigo.
As negociações do TTIP, aliás atrasadas, têm sido conduzidas no secretismo oficial, apesar de um rascunho ter sido divulgado, certamente por diligência oficiosa. Este secretismo alimenta os receios. A comissão liberal-burrocrática de Bruxelas e o governo dos Estados Unidos devem divulgar rapidamente os seus trabalhos para desfazer o clima de golpada e medo que começa a exponenciar-se nas ruas da velha Europa.

5 responses to “O Comércio livre em Risco ou o TTIP pelas Ruas alemãs da Amargura

  1. O comércio “livre”, foi o que nos trouxe a este estado de coisas, porque jamais conseguiremos competir com os salários do Oriente. Ficamos com iPhones acessíveis, mas com muito desemprego. Eu neste aspeto tenho um posição contrária: a Europa só sai do fosso se fechar as fronteiras económicas.

  2. O Economista Português agradece o comentário. Mas tem que discordar dele. Estamos a conseguir competir com a China, ainda que a globalização tenha sido mal negociada pela União Europeia. Se os salários em Portugal forem sete vezes superiores aos chineses, o preço final de venda ser-nos-à favorável, desde que os salários não sejam superiores a 15% do custo de produção e na China sejam 70%. Estes valores não são irrealistas. Repare sff: salários em Portugal sete vezes superiores aos da China. Não estamos a tratar de valores salariais médios do nosso país e da China, pois o camponês chinês semi-analfabeto não consegue ser assalariado de uma empresa produtora de automóveis. Sem contar com os efeitos de monopólio (marcas, patentes, etc), que acentua a desigualdade, na fase da comercialização. Os Iphones são vendidos por empresas norte-americanas ou sul coreanas e não pelos chineses. O leitor quer mesmo fechar as fronteiras económicas todas? Onde obteremos divisas para comprar o trigo dos Estados Unidos e o petróleo árabe? Ou o leitor pretender substituir o trigo pela castanha e o automóvel/combóio pelo burro? Fechar as fronteiras económicas talvez nos evitasse o fosso mas atirar-nos-ia para a vala comum.

  3. Está aqui um debate interessante e muito sofisma por desconstruir, e considerando que é economista, e português, deixo-lhe alguns gráficos para refletir sobre o “automóvel”, essa panaceira da “mobilidade” e do “crescimento económico”.

    Burro não, mas bons sistemas de transportes públicos, reordenamento do território para evitar o espalhamento urbano e promoção de modos ativos como andar a pé ou bicicleta são excelentes opções baratas, que usam recursos endógenos, saudáveis (poupança com gastos públicos em saúde a longo prazo) e amigas do ambiente.

    Em relação aos cereais, não é preciso recuar muito, para os tempos em que o Alentejo era o celeiro do país.
    Cumprimentos

  4. O Economista Português agradece. A correlação negativa entre a motorização e o crescimento económico é por certo uma falácia ecológica e só tem valor acompanhada de um argumento (se fizesse a correlação para os países da Ásia obteria resultado oposto). O gráfico e tabela sobre o automóvel documentam apenas um lado do problema: as importações. Mas Portugal exporta automóveis, o que seria necessário ter em conta para uma visão completa do problema. Os bons sistemas de transportes coletivos são benvindos – mas têm que ser comprados ao estrangeiro, o que exige que possuamos moeda convertível. A bicicleta é de uso livre em Portugal; a sua difusuão acelerada exigira por certo o uso da força, dado que em liberdade não desaloja os outros meios de comunicação. «Alentejo celeiro de Portugal» é uma metáfora ou um slogan, que não correspondeu à realidade: tivemos sempre que importar trigo, o solo alentejano não permite produzir trigo bom e barato em quantidade suficiente. A política de auto-suficiência em cereais, iniciada depois da nossa bancarrota de 1891, e em larga medida por imposição dela, foi má do ponto de vista económico. Aliás, sabe-se hoje que a campanha do trigo dos anos 1930 contribuiu para esgotar os solos alentejanos. Em contrapartida, o milho de regadio está em subida no Alqueiva, e é exportado.

  5. O livre comércio internacional tem no meu entender, uma única grande vantagem, que é a variadade dos produtos que são oferecidos aos consumidores. De resto não vislumbro mais nenhuma, pelo contrário. Muitas das fábricas da China tem custos com energia muito mais baratos que na Europa porque, para eles, poluir não é problema. Segundo a OMS, metade de todas as mortes por poluição no mundo, estão na China e eles apesar de tudo, representam 1/5 da população mundial. Ou seja, quando um ocidental compra um produto feito na china, não internaliza no custo, o preço da elevada mortandade dos chineses, como o faria se fosse em Portugal. A competitividade é de salutar, mas não é justa, quando se utilizam ferramentas diferentes e se adotam princípios diferentes.

    A falácia não é ecológica. É tão pejorativo categorizar os outros de “ecológicos” quando não com eles concordamos, como alguém categorizar um outro de “neo-liberal” quando nunca leu Adam Smith ou nada sobre o liberalismo económico. A Europa é 80% dependente de energia, a quase totalidade para os transportes, e desta a quase totalidade para automóveis. O problema dos automóveis não está na sua construção, mas na sua locomoção cujo fuel é totalmente importado (a Noruega é uma exceção).
    Portugal, Estado e particulares, por exemplo gastam 8% do PIB para saciar o automóvel. O automóvel, nos moldes atuais, é um cancro económico para a Europa e beneficia apenas a Alemanha que é um grande produtor.

    Portugal exporta automóveis através da Autoeuropa, mas em quantidade substancialmente inferior, comparado com o que importa. Não compare as importações de um país como o nosso, que tem das maiores taxas de motorização da Europa, com o que produz uma fábrica em Palmela, cujos dividendos vão para a Alemanha.

    Os transportes públicos são altamente vantajosos, não pela sua aquisição, mas sim pela eficiência da locomoção.

    A Europa tem mais que área suficiente para ser sustentável na Agricultura, usados os recursos de forma cuidada e sustentável. Grande parte dos cereais por exemplo são para a indústria da carne. Bastava que se comesse menos carne por semana, aliás como recomendam os médicos, e grande do problema que menciona ficaria sanado.