Eleições britânicas: a Globalização vencerá a Redistribuição de Rendimentos

UKIPEleições2015O UKIP ameaça os britânicos com a invasão pelo Continente

Amanhã haverá eleições gerais no Reino Unido. As sondagens dão um parlamento sem maioria, com os Tories um pouco à frente dos Trabalhistas.  A velha Albion entrará na formação de governos à portuguesa? Desde Montesquieu, no século XVIII, que a Inglaterra é o modelo dos parlamentaristas continentais, pois o seu bipartidarismo conciliava a eficiência do executivo com o respeito das liberdades. Mesmo  o autocrata Salazar admitiu que , se fosse britânico, talvez fosse parlamentarista. O general de Gaulle, um anglófilo oculto, modelou as instituições da 5ª república francesa para conseguir um bipartidarismo morganático e assim um executivo forte.

Tudo isto parece ter acabado. Os ecologistas minam o eleitorado dos dois partidos maioritários clássicos, os Tories e o Labour. A grande fratura advém-lhe porém do fator nacional, numa curiosa sobrevivência política do século XIX: a ameaça da União Europeia deu origem  ao UKIP, o partido da independência do Reino Unido; a Escócia quis referendar a sua independência e, tendo-a perdido por pouco, quer um autogoverno nacionalista. Ambos estes movimentos nacionalistas, perversamente apoiados pelos Tories, vão buscar mais votos ao Labour do que aos seus rivais.

Será por isso que o Labour fica para trás? O Labour fica para trás porque não consegue formar uma coligação maioritária: como é eurófilo, não consegue aliar-se ao UKIP; a aliança com os nacionalistas escoceses seria a um tempo maldita e parlamentarmente insuficiente.  E não consegue aliar-se aos liberais porque o Sr. Ed Milliband, filho do conhecido cientista social marxista Ralph Milliband, substituiu a «terceira via» centrista de Tony Blair  por um caminho mais esquerdista, centrado na defesa à outrance do Serviço Nacional de Saúde, reforço do poder sindical, construção de habitações. Ora este programa de redistribuição de rendimentos é visto por muitos, e em particular pelos Liberais, como uma ameaça à globalização e ao comércio livre. Os quais, por isso preferem renovar a aliança com os tories que tem governado o Reino Unido.  A aliança com os liberais manteria o  Reino Unido na União Europeia, que a City e a indústria britânica continuam a considerar indispensável – que o Sr. Cameron colocou em dúvida, num momento de desnorte perante o UKIP. Parece a hipótese mais provável – e, a concretizar-se, manteria o bipartidarismo, ainda que imperfeito. Assim, a eleição geral britânica de amanhã joga-se na fronteira entre a economia e a política. Será uma escolha de economia política.

 

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