Álcool: agir contra o consumo dos automobilistas, jovens e mulheres

Consumo de álcool entre adultos, 2012 ou ano mais próximo, litros de alcool puro
AlcoolPuroConsumo2012OCDE2015Fonte: http://www.oecd.org/els/health-systems/Policy-Brief-Tackling-harmful-alcohol-use.pdf

Portugal foi em 2012 o décimo país em que os adultos consumiam mais álcool entre os Estados membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económicos (OCDE), como mostra o gráfico acima,  mas tinha conseguido reduzir esse consumo em mais de um quinto desde 1992. Contudo o relatório não prova que os efeitos do consumo do álcool sejam mais graves no nosso país  do que noutros . O que não significa que não tenhamos muito a melhorar neste campo.
O elevado consumo de álcool é previsível nos países produtores de vinho. Consumo elevado, porém, não é sinónimo de efeitos nefastos. Com efeito, o consumo português corresponde a cerca de 2,5 decilitros por dia, o que é uma média moderada. O problema está na distribuição do consumo que evidentemente não é igualitária: uns não bebem nada, outros bebem demais. A OCDE não disponibiliza a distribuição do consumo do álcool para o nosso país.
Como símbolo desses efeitos negativos, consideraremos os excessos alcoólicos dos jovens. Haveria outros indicadores melhores (faltas ao trabalho, acidentes rodoviários sob influência do álcool), mas não parecem estar disponíveis. Contudo, quando comparamos os consumos de adultos com os excessos alcoólicos dos adolescentes, verificamos que a relação não é clara: estamos acima da média nos consumos e abaixo da média nesses excessos. Talvez a mudança tenha a ver com o antigo contraste entre o padrão de consumo alcoólico do norte da Europa e o mediterrânico: no norte, são toleradas as grandes bebedeiras sexta ou sábado à noite, mas durante os dias de trabalho vigora a lei seca; no Mediterrâneo, as grandes bebedeiras são sempre condenadas mas o vinho em doses moderadas integra a dieta normal.
Assinalemos que as adolescentes portuguesas parecem estar a afastar-se do padrão tradicional, em que as mulheres não bebiam ou bebiam pouco, para um padrão anglo-saxónico em que elas bebem mais do que eles. Esta mudança sugere que as mulheres estão a tornar-se um grupo de risco entre nós. É o que mostra o gráfico seguinte, extraído de uma outra publicação da OCDE.

AlcoolJovensExcessoDeConsumoFonte: Society at a Glance 2009: OECD Social Indicators – OECD © 2009 – ISBN 9789264049383; capítulo 2

Apesar de a nossa posição relativa ser boa, é inquietante que cerca de um sexto dos jovens portugueses se dedique a excessos alcoólicos. A inação das Universidades neste campo é surpreendente e lamentável.
É também sabido o efeito do álcool nos desastres na estrada no nosso país, ainda que não tenhamos visto menção deles no que é público do recente relatório da OCDE. É sintomático que os jornais tenham noticiado que conduzia alcoolizado o automobilista que há dias assassinou peregrinos para Fátima. Talvez deva ser pensada uma campanha na base «se conduzir, não beba antes de chegar». Esta lógica forneceria uma base para conciliar com a segurança rodoviária os interesses vinícolas e cervejeiros, que fingimos ignorar, mas que são legítimos, dentro de certos limites, e evidentemente atuantes.
Anotemos que a rigorosa identificação de grupos de risco de alcoolismo exigiria mais informação do que a disponível.

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A OCDE não disponibiliza gratuitamente o relatório sobre o consumo de álcool. (vende-o!) Um resumo está disponível em

http://www.oecd.org/els/health-systems/Policy-Brief-Tackling-harmful-alcohol-use.pdf

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