Juros negativos: o Erro lógico-financeiro da Drª Cristina Casalinho

CristinaCasalinhoDrª Cristina Casalinho

A Drª Cristina Casalinho, presidente da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública – IGCP, E.P.E. disse ontem em entrevista ao Jornal de Negócios eletrónico: «os juros negativos não são bons para ninguém».
Esta frase contém um erro importante. Os juros negativos resultam da deflação, isto é, da revalorização da moeda e portanto dos créditos. Dado que a moeda se revaloriza, o credor é pago por essa revalorização: a mesma unidade de moeda (o mesmo euro) reembolsada  compra-lhe mais bens e por isso ele é remunerado com esse acréscimo e não pelo juro (ou não apenas pelo juro). Claro que os credores preferem que a moeda revalorize e o juro aumente ou se mantenha e, quando dirigiam a finança de uma economia estatal fechada, conseguiam esse resultado. Ocorre porém que vivemos num mercado financeiro aberto, mundial, sem banco central mundial, no qual o Banco Central Europeu (BCE) garante a integridade do capital de um certo número de economias, do que resulta a singular ocorrência de o capital revalorizar, pois atrai credores de economias menos garantistas, e o seu preço em juros diminuir (o capital, ao contrário da alface, é um bem duradouro e transacionável e por isso o seu preço no momento 1 incorpora os seus preços nos momentos subsequentes n pelo que o juro não o único modo de medir o seu valor). Asim, devemos renovar a conclusão clássica: a revalorização da moeda é boa para os credores e má para os devedores. A expletiva frase da Drª Cristina Casalinho é portanto falsa.
É provável que o erro não seja da pessoa Cristina Casalinho mas sim da corporação a que pertence, a dos economistas, ou licenciados em economia, que são treinados para pensarem em preços correntes ou constantes mas não para articularem os permanentes trânsitos entre ambos na nossa pobre vida de «economia real» (frase extraordinária, que exclui a moeda, e que muitos deles dizem, para … se perdoarem de esquecerem a moeda nos seus raciocínios). Nunca ninguém lhes ensinou juros negativos. Há uns anos, um categorizado elemento da citada corporação garantiu a’ O Economista Português ser mecanicamente impossível o fenómeno do juro negativo. Este aspeto não é irrelevante, dado o peso dos economistas na gestão da nossa política financeira, mas é secundário. Passemos ao principal.
A União Europeia (UE) é um consórcio de credores que engloba alguns devedores: os mais notórios são Portugal, a Irlanda e a Grécia. Como devedores, convém-nos a desvalorização da moeda e a inflação, pois com o mesmo número de horas de trabalho, pagamos mais dívida do que se a moeda se revalorizar. Como devedores, convém-nos que o juro baixe e mais nos convém que seja negativo. Se o juro se mantivesse negativo, seríamos pagos pelo resto do mundo para amortizarmos a nossa dívida (não, não é milagre: é o perverso efeito de subsídio aos devedores da garantia dada aos credores pelo BCE). Mas devemos deduzir que a Drª Cristina Casalinho não entende isto pois exterioriza a escala de preferências dos nossos credores: quer o dinheiro revalorizado e o juro aumentado. Como o governo e a oposição portuguesa, a Drª Cristina Casalinho, em vez de defender os nossos interesses, defende os interesses dos nossos credores.

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