Um G7 dividido enterra a Conferência de Paris sobre a Mudança climática

CO2ProduçãoA conferência de Quioto desacelerou a queda da produção de CO2: quando a linha azul está acima da encarnada, a produção cresce acima da linha de tendência. É o resultado exatamente oposto ao anunciado pelos governos deste mundo (gráfico extraído do artigo de W. Nordhaus, a seguir referenciado)

Berlim sobrecarregou a agenda da sessão do G7 que ontem acabou num castelinho bávaro: dívida grega, sanções à Rússia, conferência sobre o clima. Não conseguiu um acordo prévio com o Presidente Barack Obama e a falta de notícias sobre a cimeira sugere que tudo ficou em águas de bacalhau, com uma reafirmação retórica da manutenção de sanções à Rússia – sanções que caem para o nosso lado.
A mudança climática era a única hipótese que Berlim tinha de dar um brilharete. A opinião ocidental e japonesa está preparada para alguma ação na área do «climate change» – embora continue a haver pelo menos a sombra de uma dúvida sobre a relação de causalidade entre o efeito dos gases de estufa (assim chamados por transformarem a Terra em estufa, aquecendo-a) e o aquecimento da temperatura do planeta azul; com efeito, o  próprio Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC, na sigla inglesa), a vestal do templo do aquecimento terráquo,  não garante essa causalidade, limitando-se a dá-la por crescentemente provável. A conferência de Quioto encetou um caminho suicida pois estimula o borlista, o «free rider»: o ser que viaja sem pagar bilhete, beneficiando dos outros terem pago o combóio. Os Estados Unidos e o Canadá renunciaram às metas de Quioto por causa dos borlistas do dióxido de carbono que aproveitam os investimentos antipoluentes dos outros para aumentarem a sua poluição. Com efeito, o controle do clima é um bem público. Um bem público é aquele que não diminui por ser muito consumido por alguém e de cujo uso ninguém pode ser fisicamente excluído. É o caso da despoluição atmosférica que é um bem público nacional ou mesmo local: o governo nacional ou local mantém uma polícia que castiga o borlista.  Só que o controle do clima é um bem público e não há nenhuma autoridade mundial para punir os borlistas.
Em dezembro decorre em Paris a conferência internacional sobre a mudança climática e a proximidade da data pretextaria uma mobilização das opiniões públicas mundiais. Nos próximos seis meses, a unanimidade do G7 conseguiria conduzir a opinião mundial a uma ação com  nexo. Mas, para isso, era preciso substituir intelectualmente o buraco negro de Quioto e propor outra estratégia. Só há dois caminhos: arrefecer o ambiente ou diminuir o consumo de carvão.
Arrefecer o ambiente é barato: é simular explosões vulcânicas e expedir para atmosfera refletores solares, que desviem para o universo o calor da Terra. Mas pode originar uma guerra mundial e é duvidoso que alguém se atreva a seguir esse caminho. Quando muito, uma pequena experiência para estudar os resultados da manipulação ambiental.
A solução mais popular é diminuir o consumo de carvão, para ipso facto diminuir as emissões de dióxido de carbono, o principal gás com efeito de estufa. O que recoloca o problema de eliminar o borlista. Surgiram na semana passada duas propostas fortes. Em Le Monde de sexta-feira passada, Jean Tirole, prémio Nobel da economia em 2014, e Christian Gollier, economista da universidade de Toulouse, propuseram a instituição de uma autoridade mundial que distribua autorizações de emitir gases com efeito de estufa; na prática, trata-se de aumentar o preço do carvão. O preço de uma tonelada de carvão no mercado anda por um dólar e o governo dos Estados Unidos calcula que o seu custo total ronde os 40 dólares. Falta muito. No esquema de Tirole, os poluidores seriam castigados. Este esquema sofre de uma petição de princípio: resolve a questão invocando uma autoridade mundial quando falta o acordo mundial para essa autoridade.Há uma proposta mais interessante.

WilliamNordhaus                                            William Nordhaus, conhecido por ter reescrito o célebre Economics, de Paul Samuelson, propõe a constituição de um clube de países que se comprometem com certos preços do carvão, isto é, com certas metas de redução de gases aquecedores e que impõe direitos aduaneiros aos que não são membros do clube,  isto é, aos borlistas, aos que não querem financiar a redução daquelas emissões; pelo mecanismo dos direitos alfandegários, serão obrigados a financiá-los. Nordhaus sublinha que o princípio do clube, que só dá vantagem aos sócios, é o das organizações internacionais que triunfam: a NATO, a União Europeia. Tanto Tirole como Nordhaus querem manipular o mecanismo dos preços relativos, encarecendo o carvão, único caminho para alcançar os resultados pretendidos.
Mas Berlim dificilmente aderiria a este esquema: é que a sua solução parece ser financiar mais o Green Climate Fund o qual se propõe… subsidiar os países borlistas, dando-lhes dinheiro para eles poluírem menos. Washington, com a obsessão da cruzada anti Putin, também não quererá encarecer o carvão, pois isso beneficiaria os produtores de petróleo.

Por isso sabemos que não há tempo nem força para que a conferência de Paris produza mais do que os habituais votos pios.

 

Vale a pena ler o artigo de Nordhaus no link seguinte:
http://www.nybooks.com/articles/archives/2015/jun/04/new-solution-climate-club/

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