A Queda da UE gera na Grécia uma Bancarrota de Tipo novo

Charlot no PenhoristaO penhorista tornou-se o ideal sócio-económico da União Europeia

Ontem à tarde, o Governo grego apresentou nova proposta de um terceiro resgate: 30 mil milhões de euros a dois anos para pagar dívidas, reestruturação da dívida e financiamento transitório por um mês, sem condições. A proposta foi rejeitada pelo Eurogrupo. Por isso, a Grécia não pagou ao Fundo Monetário Internacional (FMI). É a bancarrota. A Grécia é o primeiro país desenvolvido a não honrar um empréstimo do Fundo. A União Europeia, que ontem acenava com a bancarrota, para assustar a Grécia, hoje segue uma oposta linha anestésica: «A Grécia nao pagou», titula tranquilamente o Frankfurter Allgemeine Zeitung. A BBC segue a mesma linha: está tudo normal. No verão de 1914, quando ocorreu o atentado de Sarajevo, também ninguém percebeu a mecânica que era posta em movimento e que conduziria à Primeira Guerra Mundial. O New York Times escreve hoje: a UE e a Grécia não «negociaram suficientemente depressa» para que a dívida fosse paga. Foi um problema de falta de pressa! Para o ilustre diário nova-iorquino,  está escrito nos céus que não haverá nunca bancarrota em Atenas. Só o Wall Street Journal não eufemiza e titula: bancarrota (default). Entramos assim na bancarrota normal da UE. O diário londrino The Guardian tem a coragem de titular, em termos grandiosos: «o fracasso da Grécia em pagar ao FMI dá um golpe histórico à Eurozona» (alguém tinha hoje que evocar a história, foi o Guardian).

Haverá ainda probabilidades de um acordo? A Srª Merkel anunciou que só negociará depois do referendo. Os franceses e os italianos receiam um referendo: da única vez que os gauleses votaram a UE, no célebre tratado constitucional, chumbaram-na. E a Srª Le Pen era bem mais fraca do que hoje. Os credores-UE ficaram na realidade muito incomodados com o referendo que cria o precedente gravíssimo de perguntar aos eleitores europeus se eles querem pagar as suas dívidas à UE. A Srª Merkel está convencida que ganhará o referendo e tudo voltará à antiga – não compreendendo por isso a gravidade do precedente. Como não compreende que a vitória do sim precipitará a Grécia na violência política, tornando-a ingovernável.

O Guardian divulgou ontem de manhã um documento explosivo da Comissão de Bruxelas declarando que a dívida grega é insustentável mesmo com novas medidas de austeridade, o que desmente a posição oficial da UE, e pedindo novos cortes nas pensões, o que desmente a arenga comicieira pronunciada segunda feira pelo Sr. Junker, o presidente da Comissão de Bruxelas. O documento, distribuído aos deputados do Bundestag quando se supunha que eles votariam o acordo grego, envenenará por certo a campanha referendária helénica, pois revela sem margem para dúvidas a má-fé dos credores (de que aliás nós portugueses também somos vítimas).

O Eurogrupo reúne hoje de novo mas é duvidoso que os credores estejam de boa fé, dadas as limitações impostas à negociação pela chanceler alemã. A reunião será um jogo para influenciar o voto dos gregos. A Grécia admite renunciar ao referendo a troco de um novo «bail out». Parte dos credores aceita. Mas haverá um acordo entre a Grécia e estes credores excluindo a Alemanha? Parece improvável.

Talvez ainda haja um acordo, mas é improvável que cure o mal que uma classe política europeia mesquinha e estúpida, capitaneada pela Srª Merkel, acaba de causar à Europa e à ideia de Europa política: tratar um amigo como inimigo, impondo-lhe a drástica diminuição do seu rendimento, sujeitando-o a ultimatos em vez de o levar às boas a cumprir. Não a afeta que estes métodos conduzam a que um Estado seja expulso da UE.

O documento da Comissão Europeia demonstrando a  insustentabilidade da dívida grega  mesmo com austeridade adicional está resumido em:
http://www.theguardian.com/business/2015/jun/30/greek-debt-troika-analysis-says-significant-concessions-still-needed

2 responses to “A Queda da UE gera na Grécia uma Bancarrota de Tipo novo

  1. E que aconteceria se a Grécia decidisse começar a emitir os seus próprios euros?

  2. O Economista Português agradece a pergunta. Para emitir moeda, chame-se ela euro o neodracma, a Grécia teria que sair do sistema monetário europeu e portanto do euro. A sua nova moeda teria a desvantagem de não beneficiar da proteção do Banco Central Europeu e, estando desvalorizada, de estar adequada *a função de produção grega e portanto permitir a recuperação económica. Se a operação resultasse da bancarrota, a Grécia beneficiaria da vantagem adicional de não ter que pagar a sua insustentável dívida pública, devendo depois renegociá-la com os credorres.