Grécia: o FMI condena a Alemanha/União Europeia ao Isolamento

DívidaO Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou ontem que a dívida grega é insustentável, por não ser previsível crescimento económico nem saldo primário suficientes,  e recomendou um período de graça de vinte anos, acompanhado de mais 60 biliões de euros de ajuda adicional e de perdões da dívida (53 mil milhões de euros); a dívida deve portanto ser reestruturada; estas medidas serão acompanhadas de reformas liberalizadoras. Esta receita é o contrário do ultimato da Alemanha / União europeia (UE) a Atenas.  O aviso foi lançado na véspera do referendo helénico e a coincidência não é casual: o FMI tem que se distanciar da política suicida da Alemanha, acolitada pelos restantes Estados-membros da União Europeia, pois está a ser pressionado pelos Estados Unidos e pelas nações credoras do resto do mundo.

A tomada de posição do FMI é congruente com o seu receituário habitual em casos de problemas de pagamentos, receituário que  O Economista Português ainda há dias evocava, para criticar o FMI – crítica que retira. Com efeito, quando uma dívida é insustentável, entre destruir o credor (o que é a política da Alemanha/UE para a Grécia) e reestruturar a dívida, o FMI prefere reestruturar a dívida. Do seu bulário costumeiro, o FMI  só não recomenda a desvalorização da moeda da Grécia porque ela não existe. O aviso do FMI reduz a frangalhos a posição moral e intelectual da UE  no caso grego; essa posição já fora abalada com a revelação do estudo da Comissão de Bruxelas declarando insustentável a dívida grega, uma conclusão até há pouco secreta e que a classe política europeia continua a negar em público.

Terá o aviso do FMI algum efeito sobre os eleitores gregos? Eles estão divididos quase meio por meio e o mais certo é decidirem-se entre o medo do caos e a repugnância por uma Europa que os despreza e insulta. Mas o aviso terá algum efeito sobre as elites europeias: Berlim compreenderá que a docilidade que obteve de Paris e tutti quanti não se estende ao resto do mundo – e nem a Ásia nem a América Latina estão dispostos a arcarem com as consequências das dívidas contraídas pela clientela teutónica.

Anotemos que se a metodologia, cujos resultados o FMI ontem publicitou, for aplicada à nossa economia, dará por certo conclusões idênticas às produzidas para a Grécia: a nossa dívida é insustentável. Devemos procurar na crise grega o que possa melhorar a nossa periclitante situação económica e não um pretexto para florear a retórica dos credores usurários à custa dos gregos.

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