Grécia: Os Credores Escravos da possidónia Paixão alemã

HermanJosefAbsAssinaPerdãoDaDívuidaAlemã27fev1953LondresQuando os alemães gostavam do perdão das dívidas: em Londres a 27 de fevereiro de 1953 Herman Josef Abs, conselheiro do chanceler Adenauer, assina pela Alemanha o acordo que reduziu a metade a dívida teutónica Fonte da foto: o New York Times de hoje; «o New York etc» por ser um inimigo de estimação)

O eixo Berlim-Paris reconstituiu-se para o mal: para impor a austeridade a Atenas e agitar-lhe com as pensões de reforma subsidiadas. Franceses e alemães deram-se uns aos outros a coragem (holandesa ?) que lhes faltava para finalmente imporem aos gregos um ultimato disfarçado: expira sábado e domingo , o dia do Senhor, a União Europeia, perante a nova Líbia, por ela construída, fornecerá fundos à nova Grécia ou enviará ajuda humanitária à destruída Hélade, destruída com armas financeiras e sem aviação militar, ocupando-a com as técnicas da proteção civil, isto é, com a Cruz Vermelha e ONGs, dando biberon a gregos velhinhos. Na frase anterior, O Economista Português não chalaceou: descreveu por palavras suas as comunicações oficiosas do eixo Berlim-Paris, eixo em que Berlim dita para que Paris repita.

Há dias, Thomas Picketty, o ótimo estatístico da desigualdade económica e horroroso teórico da desigualdade económica, assinalou em The Guardian que a paixão alemã pela austeridade domina a atitude dos credores em relação à Grécia. Dessa recente paixão alemã, deriva a recusa do crescimento económico e do perdão da dívida.  Com efeito, a Alemanha impôs na Europa dos nossos dias (na União Europeia, o pseudónimo triste da Europa) a medíocre ortodoxia intelectual dos anos 1930, a qual levou à Grande Depressão dos anos 1930 e por invejoso arrastamento à Segunda Guerra Mundial: para sair da crise, seria preciso gastar menos, isto é, seria precisa mais austeridade. Eram as doutrinas do Doutor Oliveira Salazar, por certo conhecidas de pelo menos uma parte dos senhores leitores; Salazar que não ia além da ortodoxia financeira do século XIX, a qual se resumia no equilíbrio orçamental. Por via dele, os dicionaristas deram então um novo sentido à palavra possidónio: «político provinciano que só vê a salvação do país no corte profundo e incondicional de todas as despesas públicas». Era Salazar (hoje são legião).  Era a política económica derivada da economia política do século XIX, para a qual a moeda era um véu passivo que cobria uma economia real ativa em ajustamento automático.

Só que esta teoria não corresponde à realidade económica de hoje (se é que correspondeu a alguma realidade económica monetarizada) e por isso  a austeridade agrava o mal. J. M. Keynes fez justiça à teoria austeritária, que nos anos 1920 e 1930 estava ligada ao padrão ouro e ignorava a noção de circuito económico. Imagine o leitor um circuito económico com duas unidades, a A e a B. A unidade A entrou em crise e deu défice. Como vai curá-lo? Se se lhe aplicar a austeridade, terá que comprar menos, para equilibrar as contas. Se isso acontecer, a unidade B entrará ela também em défice, pois apenas vende a A e portanto venderá menos. Exposta assim a teoria, ela parece óbvia, mas o circuito económico é complexo,  monetarizado e por isso na prática dos políticos e de muitos economistas o circuito económico é contra intuitivo. Keynes analisou a grande fuga ao dito, o entesouramento da moeda, que destrói a igualdade entre a poupança e o investimento, desigualdade que origina o ciclo económico.

A Alemanha, e os seus colonizados nas classes políticas europeias, já impuseram esta arcaica e egoísta receita à Grécia e a Portugal. Como resultado, a crise agravou-se nestes dois protetorados (a nossa dívida aumentou cerca de 40% a partir do momento da nossa anunciada salvação). Tendo conseguido reduzir substancialmente o PIB grego (em proporções incertas, pois as contas gregas anteriores à crise eram fantasiadas, como Atenas confessou), os credores querem reduzi-lo mais – já que a paixão pela austeridade não os deixa ver que estimular o crescimento económico dos devedores é o  único modo que têm de serem pagos. Se este fim de semana a tese do Dr. Passos Coelho vencer, e a Grécia for expulsa do Euro, voltaremos a ser o elo fraco da moeda da Srª Merkel e estaremos no centro da próxima crise monetária europeia. Nada disto augura bem para este fim de semana nem para os próximos mil e quinhentos fds: a União Europeia foi-nos vendida como um sonho lindo e vemos que afinal é um caso de secos e molhados, um exercío de contabilidade desprovido de sentimento ou de ideal – ou mesmo de qualquer ideia.

Em tempo: o ex-chanceler Kohl chamou há dias a sua semicriatura, de seu vocativo Angela Merkel, e disse-lhe: «veja lá se vai destruir o Euro». Estas putativas palavras valem muito. A Srª Merkel não tem princípios, nem meio nem fim. Por via delas, O Economista Português suspeita que a dita Srª Merkel repetirá a habitual cerimónia do resgate grego. Não há duas sem três. Até segunda, se Deus quiser. Ou melhor: até à próxima.

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