Grécia: em que consiste a Derrota da Alemanha

PapasEBolosOs mass media europeus, com destaque para os portugueses,  continuam a contar-nos histórias da carochinha como se na cimeira da União Europeia (UE) concluída ontem tivesse havido uma vitória alemã – «a Grécia sucumbiu às exigências dos credores e aceitou um programa de austeridade punitiva», escreve por todos o Wall Street Journal – e por isso a presente «vox clamantis in deserto» julga dever uma clarificação ao leitor; julga dever pormenorizar em que consiste a derrota alemã. Em primeiro lugar, temos que escrever o ponto da situação: a cimeira da UE concluiu ontem de manhã um acordo de sete páginas, sem uma única tabela estatística. Fica a meio caminho entre o acordo transitório e o definitivo. Nem sequer previu o acordo-ponte, isto é, o financiamento até ao acordo definitivo. O Sr. Presidente do Eurogrupo, o inefavelmente inefável Sr. Jeroen Dijsselbloem, ontem reeleito (sem os votos portugueses) devido à sua manifesta incapacidade e aos bons serviços à Alemanha, declarou que serão necessários uns 40 dias para escrever o acordo, isto é: dois meses. O acordo foi possível devido ao uso da tortura do sono à Alemanha: a reunião durou 17 horas. O presidente, o eslavo Tusk prendeu na sala do conselho a germana Merkel até a obrigar a confessar com euros o seu amor aos helenos.

BoycottGermanProductsA Alemanha foi derrotada mas a Srª Merkel (uma ex-propagandista da URSS, lembram-se) prefere ser derrotada e declarar-se vencedora, mesmo quando contra ela se esboça uma campanha espontânea da opinião pública mundial; todos concordam com esta admirável fantasia,colorida pelas manifestações de desagrado gregas: Berlim ganhou. O Economista Português sabe hoje que esse acordo foi fabricado com a manobra francesa e o benfazejo estímulo de Washington (obrigado, Barack!) para levar à certa os carneirinhos do Bundestag, que se preparam para votar a promessa de mais 86 biliões de euros para a Grécia, certos que assim melhor a punirão. É obra. Para conseguir este voto Hollande e Tsipras não cobram a sua vitória. Com papas e bolos se enganam os tolos.

A derrota da Alemanha é o seguinte: jurou que não queria um acordo com a Grécia e foi obrigada a concluir um. Devemo-lo sobretudo à habilidade tática do Presidente Hollande que soube separar as duas questões (acordo transitório=permanência da Grécia no Euro e acordo duradouro) e dar precedência à primeira,  embarrilando assim o advogadeco renano (ou wurtemburguês? Deus sabe), um pobre burocrata do fisco alemão que deve as suas esporas nas finanças públicas às consequências mediáticas de um atentado falhado, graças a Deus pois a UE seria bem menos pândega sem o Sr. Schäuble. O advogadeco já deu o dinheirame aos gregos, berrando sempre que não dava. Em breve conheceremos a intriga desta Cimeira Alemanha/UE e pormenores da derrota de Berlim.

O Economista Português tem evitado analisar o comportamento do governo do Sr. Tsipras e da Grécia em geral, pois os gregos são a parte fraca e só condicionam a situação na direta medida da incompetência dos fortes. A seu tempo o examinará. O Economista Português prefere estudar a incompetência dos fortes e dos poderosos, que nos governam, à dos desgraçados que são desgovernados.  Por agora, é apenas necessário salientar que o novo resgate grego distingue-se dos anteriores não por ser mais cruel mas por exigir mais garantias de cumprimento: o dinheiro só seguirá depois de o Parlamento grego votar uma série de reformas. Já acima foram referidas as razões estratégicas desta ocorrência. A encenação mediática da derrota do Sr. Tsipras resulta no essencial da repetição ad nauseam de dois logros. 1º) As ações do Syriza têm sido assimiladas às de um governo revolucionário quando ele é um nacionalista,  aliado no governo a um partido de extrema direita, um condottiere de um Estado em dissolução devido às táticas de Berlim e de Bruxelas (ver post seguinte). 2º) Supor, como é de regra nos nossos mass media,  que o Sr. Tsipras só ganharia se obrigasse a Alemanha/UE a abandonar a sua política austeritária? Esta simples suposição é muito desabonatória da cultura financeira da imprensa financeira – e outra. A vitória do Sr. Tsipras era conseguir mais dinheiro e menos serviço da dívida. Já conseguiu mais dinheiro e tem prometido menos serviço da dívida, como a seguir especificaremos.

Provou-se na cimeira Alemanha/UE de ontem que o Dr. Passos Coelho e o PS estavam errados: é possível vencer a Alemanha no campo da Eurozona. Ora toda a estratégia dos nossos partidos rotativos assentava e assenta num falso dogma: Deus (a Alemanha) é invencível e a Srª Merkel é o seu profeta. Não é. Bastava saber contar até dez e ter força de vontade para propiciar a coligação da França e da Itália, sob o patrocínio de Washington, patrocínio que pelo menos garantia a divisão de Berlim, a hostilidade de Varsóvia a Berlim e a neutralidade dos países ex-comunistas do leste da Europa. Só há poucos meses, graças aos conhecimentos geográficos do Dr. Rui Machete, o Dr. Passos Coelho descobriu que Washington existia. Por via do que na última cimeira da Alemanha/UE moderou a sua proverbial tenacidade e evitou insistir num ataque suicida a Atenas. Parabéns.

Quem ganhou e quanto? O Economista Português prefere contabilizar. Depois de ter contabilizado,  responderá à segunda questão: se tivéssemos negociado com a Madrinha, em vez de lhe lambermos as encantadoras botinas, teríamos conseguido melhor que o acordo Sócrates/Passos Coelho/Seguro/ e por extensão Costa? Para já, a troco do papelucho do costume, os alemães aceitaram dar aos gregos (ontem) corruptos uns 86 milhões de euros, mais do que dificilmente nos emprestaram. Para derrota grega, não está mal como abertura de jogo. A dívida não é perdoada, o «haircut» (corte nominal) é mesmo expressamente proibido, mas prevê-se de modo explícito a reestruturação, sendo referidos no acordo períodos de graça e de pagamento mais longos. O fundo de garantia da dívida é de direito grego e por isso garante tanto como se não existisse. Estas bondades ficam submetidas à condição suspensiva de a Grécia cumprir um certo número de medidas, muitas deflacionistas, mas muitas absolutamente desejáveis (como obrigar os turistas alemães a pagarem mais pelos hotéis nas ilhas gregas ou estabelecer uma administração pública moderna na Grécia) e algumas são expansionistas (dinheiro para investimento). Logo que haja dados, O Economista Português contabilizará e verá se o Dr. Passos Coelho conseguiu a sua segunda derrota: ser pior tratado por Berlim do que o Sr. Tsipras.

A Alemanha austeritária é derrotável na Eurozona; é este o ponto central e é esta que devemos reter para o nosso futuro próximo. É isto que sobremodo interessa a um país devedor, de seu nome Portugal, que uma incessante logorreia incessante persiste em apresentar como rico e credor.

 

Comunicado do conselho de ministro contendo o acordo com a Grécia

http://www.consilium.europa.eu/en/press/press-releases/2015/07/12-euro-summit-statement-greece/

O presidente do Eurogrupo fala sobre o período posterior ao acordo

http://www.consilium.europa.eu/en/press/press-releases/2015/07/13-press-remarks-dijsselbloem/

4 responses to “Grécia: em que consiste a Derrota da Alemanha

  1. O objetivo do Syriza era o fim a mais austeridade (que estava a ser negociada para um programa cautelar no fim de 2014), e nesse objetivo falhou redondamente.
    Conseguiu mais tempo e mais dinheiro depois de ter desgovernado o país em 6 meses.

    Sigo este blog há 4 anos para ter mais um ponto de vista, apesar de ás vezes não concordar, mas começa a não valer o tempo que perco…

  2. José António Veloso

    Como de costume, o seu diagnóstico desafina do balir do rebanho. Nunca as mãos (aqui a voz) lhe doam, porque sempre será uma enorme virtude, ainda quando esteja em erro! E de facto, não perece nada que esteja em erro… Se talvez se não possa dizer que a Alemanha tinha como primeira opção a saída da Grécia, com o apoio necessário para evitar desastre e promover a recuperação, parece fora de dúvida que preferiria a saída ao terceiro resgate, que ninguém na Alemanha acredita que dê resultado (e que além do mais volta a violar promessas feitas ao eleitorado alemão). A França é que tinha o resgate como primeira opção. O desenlace resultou de não ser possível fazer passar o novo programa sem uma forte tareia nos Gregos que desse aos eleitorados pagantes a impressão de que desta vez é que é, porque desta vez a Grécia fica sob tutela, se não vai a bem vai a mal, etc. etc. Entretanto, o preço da solução francesa vai ser a perpetuação da embrulhada, juntando todos os males possíveis, na Grécia e no ambiente europeu, sem nenhum dos benefícios. Se o programa falhar, talvez no futuro este triunfo da França venha a merecer, na escala da esperteza saloia, a mesma pontuação que já tem a gloriosa ideia de impor à Alemanha a troca do marco pela moeda única — princípio de toda esta história de proveito e exemplo.

    • O Economista Português agradece o doutio comentário do Doutor José António Veloso. Basta ver as realões alemães para percebermos logo que a Alemanha não saíu vitoriosa da refrega. Contudo, talvez não se confirmem as negras previsões do ilustre comentarista: o papelucho do 3º resgate condiciona as benemerências ao começo da execução do programa de reformas. O Economista Português sabe ser impossível acabar por contrato com a vigarice humana, mas houve um aperfeiçoamento.

  3. O Economista Português agradece o comentário. Na sua opinião, não está provado que o 3º resgate agrave a austerida grega, nem por comparação com a situação antes dele nem com a eentual expulsão da Grécio do Euro. Mas ainda é cedo para contabilizar, como se procurou explicar no posto. O Economista Português agradece a declaração de assiduidade passada e lembra ao leitor que, se julga estar a perder tempo lendo-o, tem um rem++edio fácil e barato.