Imigrantes: que quer a Srª Merkel?

SigmarGabielComMerkelÀ direita, apanhado em flagrante de charme, Sigmar Gabriel, o socialista alemão de serviço à Chancelarina Merkel

Anteontem, O Economista Português postou uma análise de conjunto do problema da imigração vinda do Mediterrâneo. Mas não se interrogou sobre as motivações da Srª Merkel – e, já agora, do Sr. Sigmar Gabriel, o socialista que governa em coligação com ela.
Em resposta àquela pergunta, O Economista Português só está autorizado a emitir suposições, pois as certezas são poucas. É certo que a Srª Merkel ficou perturbada com as previsões demográficas da OCDE e das Nações Unidas, que antecipam uma forte quebra da população da Alemanha, com graves consequências económicas e sociais. É também certo que o eleitor alemão recusa mais imigração. Dadas estas duas variáveis, a resultante provável que a Srª Merkel tenha aproveitado a conjuntura do Médio Oriente para levar o eleitor teutónico a engolir imigrantes económicos em quantidade industrial, usando como cobertura propagandística os motivos supostamente humanitários. Acessoriamente, dava um bonito na cena internacional e redourava o tão estragado brasão. O Sr. Sigmar Gabriel, falando ontem em termos de inequívocos de emigração económica, confessou que, ao ritmo previsto, a imigração causará problemas sociais no seu país. É mais um caso do bombeiro incendiário ou, se o leitor preferir, dos «malucos do riso».

Anotemos que, sejam quais forem as intenções da chancelarina Merkel, ela

> sacrificou o projeto europeu aos interesses nacionais alemães, pois tomou uma decisão unilateral,

> violou a legalidade da União Europeia, legalidade que no caso fora imposta pela própria Alemanha.

> criou uma situação de perigo para toda a Europa.

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Para ler uma análise de conjunto do problema da imigração oriunda do Mediterrâneo, queira rolar um pouco

4 responses to “Imigrantes: que quer a Srª Merkel?

  1. Caro Economista, As Leis fazem-se para os Homens e não o contrario. Se elas se revelam inadequadas para resolver uma Emergência, mudem-se as Leis, se necessário violem-se as Leis. Seguindo a sua lógica, Sousa Mendes também não deveria ter passado vistos aos Refugiados Judeus. Quem conhece os Políticos Alemães (eu vivi la 11 anos) sabe que são apparatchiks que detestam correr riscos e que não tem nenhum plano temível de conquista da Europa usando o Euro ou a Arma Demográfica ou o que seja. Na verdade, infelizmente, e como toda a gente, navegam a vista (e com um olho nas sondagens), por isso e que só fazem o que esta certo depois de experimentarem todas as outras hipóteses, o que explica o tempo que esta a levar a resolver a crise do Euro. Neste capitulo dos refugiados, a Alemanha parece não ter esperado assim tanto para fazer o que esta certo e ainda bem…

  2. O Economista Português agradece o comentário, apesar de o comentador lhe ter truncado uma parte do nome: o Português, precisamente. O leitor considera que numa emergência, violamos as leias e dá como exemplo justificativo o caso de Aristides de Sousa Mendes. A comparação é triplamente enganadora: 1) a Alemanha e a UE são responsáveis da crise dos refugiados, pois bombardearam a Líbia e auxiliaram o ISIS na Síria, ao passo que Sousa Mendes não ajudou a alemanha no Holocausto; 2) os refugiados sírios não correm risco de serem chacinados em campos de destruição, como os dos nazis, correm sim o risco de passar fome pois a humanitária UE não dá dinheiro para o Plano Alimentar Mundial, de que eles dependem, omissão que não incomoda o nosso interlocutor; 3) emergência pressupõe urgência e o problema dos refugiados sírios tem uns cinco anos – durante os quais Berlim teimou numa solução inviável e, tal como hoje, recusou negociar, preferindo o método do Diktat. Para explicar que a Alemanha é o Estado universal e necessariamente bondoso, o leitor ridiculariza – preferimos crer que por desconhecimento da realidade – os efeitos de domínio alemães na UE e oferece-nos o seu testemunho de imigrante na Alemanha. Este testemunho tem valor sentimental mas é desprovido de valor moral ou intelectual: a Alemanha não dispõe de nenhum argumento para justificar o ter violado as regras comunitárias e para ter colocado os seus interesse egoístas em obter mais imigrantes à frente da solidariedade comunitária..

  3. O meu caro Economista cita três motivos para a comparação ser enganadora. Vejamos, se alguém (os Governantes Alemães, no caso) e co-responsável por uma situação de Emergência, maior obrigação moral tem de agir, chama-se a isto reparar erros passados. Nao há risco de chacina nos campos de refugiados da Turquia, Líbano, Jordânia e nas ilhas gregas, mas há, como bem diz, risco de fome (e de violência) e isso, pelo menos para as inúmeras crianças que seguramente la se encontram, implica risco de morte. Também implica um risco social acrescido para o Estado Grego (e Italiano, para não falar nos pobres Países vizinhos da Síria) que, como julgo que já argumentou aqui, a Alemanha já se encarregou de aumentar que chegasse. Finalmente, parece argumentar que como a Alemanha e o resto da alegre trupe da UE não negociaram uma solução viável para o problema a tempo, agora devem deixar a situação humanitária piorar para não violar as sacrossantas regras (se formos Maus, sejamos ao menos consistentes no Mal!). Contrariamente ao que pensa, se ler bem o que escrevi, não digo nunca que a Alemanha e o Estado Universal Bondoso, o que eu digo sim e que o seu eterno arrastar de pés normalmente causa mal que chegue, por isso esta tomada de posição e bem-vinda (mesmo se tardia, mas não tão tardia como de costume). Haveria seguramente outras soluções melhores do que esta, mas infelizmente já passou o tempo delas. O meu argumento e simples, peco-lhe que não invoque conspirações quando a incompetência e o egoísmo chegam e sobram para explicar tudo. Mas, como não gostou que eu ridicularizasse a teoria de que a Alemanha esta a tentar dominar a Europa (que tem perfumes que francamente cheiram mal que se farta), optou por ridicularizar o seu interlocutor distorcendo os seus argumentos e acusando-o de sentimentalismo e ignorância (ou pior). Convenhamos que, mal por mal, antes ridicularizar uma ideia que uma pessoa, não?

  4. O Economista Português dá a última palavra ao Sr. leitor-comentador e considera a conversa encerrada.