A Vitória de Corbyn, ou o Cansaço da Globalização

Corbyn

Jeremy Corbyn: o blazer escuro e a camisa azul são muito bom sinal

Corbyn é a primeira ameaça séria ao statu quo dos partidos políticos pró globalização. Com efeito, sábado passado ocorreu em Londres o primeiro voto político contra a globalização num país avançado: o Sr. Jeremy Corbyn, o candidato da esquerda, ganhou com grande vantagem as eleições para secretário geral do Partido Trabalhista britânico, numa plataforma incluindo uma gestão da procura keynesiana que evite a austeridade, novos cortes nos gastos com a Defesa, nacionalizações e maior intervencionismo estatal na economia.
O Partido Trabalhista já passou por várias crises provocadas por vitórias da sua ala esquerda: nos anos 1950, o moderado Hugh Gaitskell teve que aturar uma oposição interna esquerdista que descredibilizava o seu partido, por defender o desarmamento unilateral face ao comunismo; a sua palavra de ordem era «Rather red than dead». Nos anos 1980, os trabalhistas moderador saíram em massa do Partido, por discordarem das nacionalizações e fundaram um partido Social Democrata que aliás não medrou. Nos anos 1990, antes da vitória do Sr. Blair – que sai agora espiritualmente derrotado, por certo de uma vez por todas – , o trabalhismo conheceu a breve liderança de Michael Foot, um escritor talentoso que não excluiria um «desvio de esquerda». Corbyn já escolheu um governo sombra consensual e é pouco provável que conduza uma operação ao gosto Tsipras, mas a City não gosta do homem que escolheu para as Finanças, John McDonnell.
Nas crises anteriores, porém, havia comunismo russo e por isso não havia globalização. Hoje há globalização e por causa dela os eleitores britânicos sofrem de uma crise de habitação, de desemprego e sobretudo de receios do futuro; em termos sociais, sentem-se sós, vítimas do acréscimo da desigualdade, do défice de solidariedade e da incerteza na sua vida quotidiana. A globalização cansa. A ameaça Corbyn é séria. O sr. David Cameron tomou-a a sério, sentiu-se ameaçado  e operou logo a escalada, arremessando a Corbyn a acusação dantesca (e burlesca) de ser um perigo para a «segurança nacional» britânica (por real ou supostamente querer acabar com os Trident, o míssil fétiche que dá a Londres o estatuto de imaginária grande potência).

Anúncios

One response to “A Vitória de Corbyn, ou o Cansaço da Globalização