Quantitative Easing: um Erro Prático de Wolfgang Munchau

WolfgangMunchau                                                        Wolfgang Munchau, essa pequena multinacional do comentário económico, é uma uma leitura atraente pois dialoga com a ortodoxia mainstream mas consegue tantas vezes estabelecer um espaço próprio e relevante. Num artigo recente sobre o Quantitative Easing (QE) do Banco Central Europeu (BCE) , porém, cai num extraordinário erro lógico com poderosas consequências práticas. Com efeitos para nós, pois os benefícios do QE ainda só chegaram à nossa economia pelo abaixamento do câmbio do Euro/juros da dívida, mas não pelo aumento do crédito interno.

Como o leitor sabe, o QE é o programa de compra de dívida (pública), que o BCE começou a aplicar há meses para alcançar a taxa de inflação prevista, algo menos de 2% (a União Europeia estava à beira da deflação, isto é, da baixa dos preços, o que acarreta irreversivelmente a depressão económica). Com esse programa, o BCE injeta dinheiro na economia, ou aumenta o crédito, o que para o caso é irrelevante, pois o crédito é dinheiro.

Munchau procede ao balanço daquele programa de QE e conclui que que alcançou metade dos objetivos. Deve portanto ser prosseguido. Mas como? Escreve ele: «Não há simplesmente dívida suficiente no mercado para o BCE alargar o programa de uma maneira significativa». O outro caminho que sugere e prefere (o BCE distribuir cheques aos consumidores) parece aberrante a muitos e é duvidoso no puro campo teórico.

O err0 de Munchau está em afirmar que não há dívida. É certo que acrescenta: «no mercado». Mas se não há no mercado, não há em economia. Será que os certificados da dívida pública estão todos em heranças de proprietários sem descendência nem herdeiros? Ou será que os detentores da dívida pública gostam tanto dela, mesmo com juros negativos, que se recusam a transacioná-la? Sendo assim, escusamos de nos preocupar com ela. A dívida existe nominalmente mas os seus detentores esterilizaram-na, não querem desfazer-se dela, estão certos de serem reembolsados. Isto é: estão dispostos a subscrever mais dívida a custo zero para o emitente.  Ora, como o leitor se lembra, uma das razões das políticas austeritárias é haver dívida a mais em economias como a nossa e a generalidade das europeias.  Como há dívida a mais, não devemos aumentar o défice pois o aumento do défice aumenta a dívida, agravando assim uma situação económica já grave. Ainda há anos, dois economistas pândegos, Carmen M. Reinhart e Kenneth S. Rogoff, como base em estatísticas atamancadas para não escrevermos falsificadas, convenceram meio mundo (desatento ) que o crescimento parava quando a dívida atingia 90% do PIB. O argumento de Munchau destrói pois a necessidade de austeridade. É verdade que a austeridade é desnecessária se as diferentes economias escolherem os câmbios adequados aos seus fatores de produção, mas Munchau  não tira as consequências lógicas do seu argumento e não prescreve o fim o austeritarismo.

Para mais, além de errado, o raciocínio de Munchau é insuficiente: o BCE pode comprar dívida das empresas e mesmo dos particulares. Tal como nos Estados Unidos, o QE não tem que se limitar à dívida pública – e esse parece ser o erro de base de Munchau: escrever dívida e pensar apenas na dívida pública.

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O artigo de W. Munchau está disponível em
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=4776602&seccao=Wolfgang%20M%C3%BCnchau

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