Governo de Esquerda: António Costa e Jerónimo ressuscitam um Arcaísmo, ou o Socialismo às Escondidas

UnionDeLaGauche

Oh tempo volta para trás / dá-me tudo o que eu perdi

O Diário de Notícias anuncia a incubação de um governo de esquerda em Portugal: «equipas mistas» do PS e do PC preparam um programa. Talvez o governo de esquerda seja um brincadeira. Talvez não. Enquanto e não, O Economista Português explica as razões que o levam a qualificar de arcaísmo essa fórmula de governo – um arcaísmo político que aliás nada tem a ver com a esquerda no sentido próprio da expressão.

O arcaísmo começa por ser político. Até à queda do muro de Berlim, enquanto houve comunismo russo, os Estados Unidos consideravam que a presença do Partido Comunista em qualquer governo era uma ameaça à segurança nacional do ocidente – e vetavam-na, exceto se lhe demonstrassem a ausência de perigo. Em França, nos anos 1980, o Presidente Mitterrand conseguiu explicar que os comunistas no seu governo apenas conheceriam os segredos dos cemitérios e dos combóios pelo que Washington autorizou o governo de esquerda. Hoje em dia, ninguém considera os comunistas uma ameaça à segurança nacional e por isso a questão deixou de existir. Com a secularização da política e o fim das grandes narrativas, apenas se pensa se os comunistas conseguirão governar e ganhar as eleições seguintes.

O grande arcaísmo do governo de esquerda é económico e social. Vejamos sumariamente em que consiste o governo de esquerda. Consiste em diminuir as importações, para criar emprego, e aumentar impostos, para os redistribuír, diminuindo a desigualdade, segundo certas medidas dela. Estas duas políticas são hoje impossíveis. Não temos uma moeda própria e colocámos em Bruxelas todos os nossos poderes sobre o comércio externo; restringir as importações só com batota sanitária, que nos geraria represálias dos países que, por mero acaso ou particular maldade, conseguíssemos prejudicar. Passemos ao segundo componente.  O aumento de impostos tem que incidir sobre os salários ou sobre os lucros, juros e rendas. O aumento dos impostos sobre os salários encarecerá os nossos bens e serviços, tornando-os menos competitivos, causando desemprego e agravando o défice externo. O aumento dos impostos sobre lucros, juros e rendas provocará fuga de capitais e de quadros qualificados. Antes da globalização, o país com um governo de esquerda guarnecia as suas fronteiras económicas: impunha o controle de câmbios, fixava administrativamente os preços, desvalorizava a moeda. Depois da globalização, essas medidas seriam impossíveis, ilícitas ou contraproducentes. Talvez o governo Costa-Jerónimo, com Catarina Martins na Igualdade Humana (ministra sem pasta), prefira aumentar as despesas sem cobertura nas receitas, com o consequente agravamento do défice orçamental. Nesse caso, seria a comissão de Bruxelas que nos cairia em cima. Em qualquer das situações, seria a «albanização», para usarmos a célebre metonímia do Dr. Mário Soares contra o Dr. Álvaro Cunhal no PREC.

Aliás, nem será preciso esperar pelo orçamento do governo de esquerda para que a catástrofe venha ter connosco: já ontem, hoje ainda mais, perante as ameaças de governo de esquerda proferidas anteontem pelo Dr. António Costa, os mercados financeiros começaram a olhar Portugal de soslaio e em breve começarão a aliviar-se da nossa dívida pública. Prepare-se para o aumento dos spreads. É inesperada a impreparação dos responsáveis que não anteciparam este movimento. O Dr. Centeno apenas gere a folha de Excel com as contas dos medicamentos para o SNS, na dupla contabilidade orçamental e de Bruxelas, ou ou está certificado para a tarefa de maior valor acrescentado de dar ao Dr. Costa, António, uns soundbytes sobre questões financeiras e económicas?

Sempre segundo o Diário de Notícias, parece que as taxas moderadoras impedem a união de esquerda: o PCP quer aboli-las e o PS diminuí-las. Valerá a penas corrermos o risco da crise mesmo que consigamos o benesse maravilhoso da abolição da taxa moderadora, particularmente necessária num país de hipocondríacos? Ou tudo isto será uma manobra vistosa e breve do Dr. A. Costa, interessado em não acelerar a sua reconversão profissional, e que quer proporcionar-nos uma antevisão do caos para se justificar perante as expetativas que criou  na esquerda do seu partido, nas suas clientelas, e na esquerda dele, para os lados do Prof. António Nova? Perante a  perspetiva radiosa de o PS nos trazer já para a semana o socialismo às escondidas – tinha esquecido esse tema na campanha eleitoral -, o PSD esfrega as mãos de alívio: através do Dr. José Matos Correia, recusa qualquer a aliança com o PS e empurra-o com vigor para os braços peludos do PCP; assim, tem um pretexto para encurtar ou quiçá eliminar o período de nojo  do governo minoritário, supõem os sociais democratas. Não escapou ao nariz apurado do leitor  este cheirinho a guerra civil fria. Tudo isto seria divertido se se passasse noutro país, de preferência distante. Esperemos que quando nos ler já tenha sido tudo desmentido ou lavado por uma gargalhada grande e forte.

2 responses to “Governo de Esquerda: António Costa e Jerónimo ressuscitam um Arcaísmo, ou o Socialismo às Escondidas

  1. As “linhas vermelhas” do PCP:
    
“É com base nestas componentes e objectivos que o PCP, na presente fase da vida nacional, perante a complexidade dos problemas que vivemos, avança uma proposta de política alternativa patriótica e de esquerda, cuja concretização exige uma alternativa política ao actual governo e a ruptura com a política de direita. Política patriótica e de esquerda, tendo como eixos ou opções fundamentais:

    • a renegociação da dívida nos seus montantes, juros, prazos e condições de pagamento, rejeitando a sua parte ilegítima;
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    • a defesa e o aumento da produção nacional, a recuperação para o Estado do sector financeiro e de outras empresas e sectores estratégicos;
    • 

    • a valorização efectiva dos salários e pensões e o explícito compromisso de reposição dos salários, rendimentos e direitos roubados, incluindo nas prestações sociais;
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    • uma política de combate às injustiças fiscais com a efectiva tributação do grande capital;
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    • uma política de defesa e recuperação dos serviços públicos, em particular no que concerne às funções sociais do Estado;
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    • a assunção de uma política soberana e a afirmação do primado dos interesses nacionais.

    O Militante, nº334, Jan/Fev 2015

  2. O Economista Português agradece a informação.