Duas ou três coisas que O Economista Português sabe sobre o Governo de Esquerdas

 

UmaNoCravoOutraNaFerradura

Uma no cravo, a outra na ….: A Srª D. Catarina Martins aperfeiçoando com o PS o próximo programa de governo das esquerdas

Os agentes do governo de esquerdas preferem ser atacados depois do governo Passos Coelho 2 cair e por isso não revelam o seu programa antes disso. Mas, em vis intoxicantis, algo nos vão dizendo, pois a tanto são obrigados pela liberdade de imprensa.

1ª O PS quer que acreditemos que tudo cabe na folha Excel do Dr. Centeno

Mais ou menos de três em três dias, o PS manda para a comunicação social, por via informais, o seu comunicado afirmando mais ou menos o seguinte: «o que gastamos com o Bloco de Esquerda está contido na folha de Excel do Dr. Centeno». Talvez seja verdade, mas faltam as provas, pois todos ignoramos a conta do Bloco de Esquerda e a folha de Excel do Dr. Centeno. é porém certo que o PS quer que acreditemos que ele é financeiramente kosher. Como a conta do PCP é desconhecida e a do Bloco de Esquerda varia todos os dias, talvez seja verdade, mas é inverosímil. Passemos a essa variação.

Salário mínimo BlocoCatarina Martins no Diário de Notícias de hoje: sim e não, antes pelo contrário

2º O Bloco de Esquerda tem uma dupla agenda

Sábado, quando anunciava o descongelamento de todas as pensões de reforma, a Srª D. Catarina Martins, falando para dentro do seu Bloco, para os desco9ntentes com a sua atual moderação (a tática 1, à vista de todos) dizia mais ou menos o seguinte: «o que  pedimos é poucochinho, mas mesmo assim é bom», como quem diz, é o programa mínimo, não é a revolução proletária. Enquanto produz a retórica miserabilista do «poucochinho», da tática 1, e declara respeitar o programa do PS, incluindo a célebre folha de Excel, o Bloco de Esquerdas todos os dias salga a conta, no caminho do maximalismo, como é o caso do salário mínimo a 600 euros  (a tática 2, por enquanto encoberta e dominada). É uma dupla agenda. Com a tática 1, não conseguirá dominar as suas tropas. Parece que, horas depois, a Srª D. Catarina Martins se arrependeu de te prometido descongelar as pensões – é sempre o double talk  A Srª D. Catarina Martins, o reality show da política portuguesa, amanhã arrepender-se-á de ter posto o salário mínimo a 600 euros. E depois de amanhã pedi-lo-á a 650 euros.

Todas as conversações das esquerdas são para redistribuir a riqueza criada e nenhum para criar riqueza

O PS fala ritualmente em aprovar medidas para gerar investimento, mas nunca revelou uma única. Pelo contrário: já recuou na diminuição da TSU que se tornou o saco sem fundo para acudir todas as reivindicações públicas do Bloco. O PCP tem sido mais discreto e presume-se que se centre nas reivindicações CGTP: salário mínimo, contratação coletiva com o mínimo de negociação, manutenção do setor público de transportes. O aumento do salário mínimo diminuirá rapidamente a criação de riqueza e aumentará o desemprego. Hoje, no Diário de Notícias, a Srª D. Catarina Martins entra no campo da concorrência direta ao PCP (o Bloco é um partido trotskysta-maoísta-operário) e promete o Salário Mínimo a 600 euros até ao fim de 2016: um aumento de 19% quando a produtividade não aumentará  mais de 5% nestes dois anos, exceto se as falências dispararem. Mas o double talk não pára: a porta voz promete mas «fonte oficial» do do partido da porta voz esclarece: «o compromisso do Bloco de Esquerda nas negociações em curso é iniciar o processo de aumento do SMN para 600 euros no mais breve período de tempo, sendo que continuamos a defender que seria importante alcançar esse valor ainda em 2016». Afinal desiste. Uma promessa que é uma promessa que não é uma promessa. Good luck, Portuguese working class! Quem conseguir manter o sentido de humor, divertir-se-á muitíssimo nos próximos meses.

Se são estas as condições de estabilidade económica do eventual governo de esquerdas, anotemos que não parecem reunidas as condições políticas de estabilidade governativa: elas exigiriam que o Bloco de Esquerda e o PCP concordassem hoje  em votar, até ao fim da legislatura, todas as moções de confiança apresentadas pelo governo e não apresentarem nem votarem nenhuma moção de censura. O Bloco de Esquerda e sobretudo o PCP têm sido claros: apoiarão o governo enquanto o apoiarem.Breve veremos. Como o PSD/PP já anunciaram que não serão mulas de reforço de um governo socialista – e por certo só mudarão tal tendência se sondagens fidedignas lhes augurarem uma derrota fatal – , ficamos conversados sobre a nossa estabilidade governativa.

6 responses to “Duas ou três coisas que O Economista Português sabe sobre o Governo de Esquerdas

  1. É evidente que se trata de uma redistribuicao de riqueza. O dinheiro virá da subida do IRS para os escaloes mais altos, que é algo que consta do programa do PS e que o Costa tem referido várias vezes quando fala em repôr a progressividade do IRS. É interessante que ninguém na comunicacao social discute esta questao dos escaloes do IRS, cuja progressividade foi severamente atacada pelo Vitor Gaspar, progressividade essa que o PS quer agora restaurar.
    Este é um dos pontos estruturantes na diferenca entre o PS e o PSD.

    Para além deste aumento de impostos, haverao outros, haverao também cortes no apoio a escolas privadas e IPSSs.

    Se vai funcionar ou nao, logo veremos…

    Outra questao que me intriga sempre, é o preconceito de que o aumento do salario minimo causa aumento de desemprego. De onde vem essa afirmacao? Há ou houve alguma experiencia pratica que suporte essa relacao causal?

  2. O Economista Português agradece o comentário. Ninguém duvida que em abstrato é sempre possível equilibrar seja que orçamento for. A questão coloca-se é no concreto. Ora aumentar o IRS será eficaz sem atingir os eleitores do PS? É mais do que duvidoso. Aumentar o IRS permitirá conservar e atrair os capitais necessários ao investimento? É duvidoso, Nos anos 1979, os trabalhistas britânicos aumentaram de tal modo a taxa marginal do IRS, que os quadros dirigentes começaram a emigrar e tiveram que voltar atrás nesse aumento.
    O leitor pede um caso de falências e despedimentos motivada pelo aumento do salário mínimo. Em Portugal não é difícil: quando o salário mínimo foi introduzido, no PREC, seguiu-se uma vaga de despedimentos, muito aplaudida pelos sindicatos da época. Noutros países o leitor não encontra exemplo desse erro: é um erro tão boçal que é uma especialidade mundial dos governos portugueses. A razão é simples: aumentar o salário mínimo é aumentar a pirâmide salarial e por isso aumentar globalmente os custos das empresas; as empresas marginais, as que têm margens de lucro mais reduzidas, começam a dar prejuízo e, se não tiverem capital para financiarem a sua reconversão, têm que fechar. Como há pouco credito às empresas entre nós, poucas conseguirão reconverter-se e muitas falirão.. Mas um evetual governo socialista satisfará assim as suas clientelas sindicais.

  3. Maria Lopes da Silva

    Não há estabilidade governativa, face ao novo cenário Parlamentar. Há uma maioria liberal que ganhou as eleições, que até tem o beneplácito do PR (que tem o seu mandato condicionado a mais uns meses poucos) e há uma suposta maioria de esquerda liderada por um Partido Socialista que já demonstra sinais de clivagens (v.g. Francisco de Assis e seus apaniguados). O PC não é claro (e demonstra precisar de renovação), o Bloco de esquerda “contratualiza a curto prazo e por iteração”, o PS não afirma nem infirma se formará governo sozinho com acordo de regime, ou se vai propor um Governo de coligação à esquerda. O País encerrou para pausa-café. Entretanto temos a dívida pública, o anunciado logro do Governo ex-cessante nas retenções de IRS…. Que confusão para o comum dos cidadãos! Em suma: daqui a 1 anito andamos todos a correr para as urnas outra vez, se ainda formos vivos e a ouvir os discursos demagógicos costumeiros. Estou farta! Para mim, a farsa acabou. Venha quem vier, que Governe e os demais que se deixem governar. E, quem estiver mal que emigre, se for jovem, ou que se suicide, se for idoso: a Segurança Social agradece.

  4. O Economista Português agradece o depoimento de Maria Lopes da Silva o qual, se não é representativo (ignoramo-lo), é sintomático.

  5. Afonso Alexandre

    “aumentar o salário mínimo é aumentar a pirâmide salarial e por isso aumentar globalmente os custos das empresas”
    Em termos absolutos a afirmação é correcta, mas em termos relativos (que é o que interessa) é omissa.
    Os encargos com salários mínimos representam que percentagem dos custos das empresas? E o aumento do salário mínimo para 600 EUR representa um aumento relativo dos custos das empresas de quanto?

  6. O Economista Português agradece os comentários e as perguntas. Convém ter em conta, para apreciar o problema, que o aumento do salário mínimo empurra para cima todos os salários das empresas privadas, pois nenhum grupo salarial quer perder a sua posição relativa face aos outros. Por isso, é ilusório querer isolar o custo do salário mínimo. Sabemos que recebem por ele cerca de um quarto dos assalariados, uma proporção muito elevada. O aumento do salário mínimo para os 600 euros representa um aumento de quase 20%. O custo varia empresa por empresa, consoante a respetiva função de produção: Importa salientar que o custo marginal é tanto maior quanto mais trabalho intensiva for essa função de produção. Isto é: os efeitos das falências induzidas pelo aumento do salário mínimo serão maiores nas empresas que empregas muita mão de obra e por isso aumentarão desproporcionalmente o desemprego. Se supusermos que o custo salarial total é metade do custo de produção total, o aumento do salário mínimo terá o efeito de aumentar em cerca de 10% o custo médio total de produção. O suficiente para levar muita empresa exportadora à falência.