Inundações de Albufeira: o Responsável foi a Natureza, Deus ou o PDM?

CalvãoDaSilvaEmAlbufeira

O Ministro da Administração Interna, trajando à civil, guia entre os destroços das inundações de Albufeira o presidente da câmara local, que ostenta um inovador semiuniforme de semibombeiro (para mostrar obra a fazer, presume-se)

Foi «uma fúria da natureza que se revoltou», disse o ministro da Administração Interna, Prof. João Calvão da Silva, comentando as inundações em Albufeira; acrescentou: «Deus nem sempre é amigo». Dada a altura espiritual a que se colocava, é compreensível que nem sequer tenha referido uma realidade tão mesquinha como o PDM – pois não devemos considerar como referência ao PDM uma vaga alusão a erros do passado, que vão até ao Rei D. Afonso III, o unificador dos Algarves com Portugal. O ministro tem desculpa: ao proferir aquelas palavras, ainda não tinha ouvido o telejornal da hora do jantar de ontem.

O Sr. Ministro acolhe-se à sombra revigorante do Pe António Vieira, que no sermão contra as armas da Holanda imprecou Deus por favorecer os herejes neerlandeses contra os bons cristãos portugueses. O professor de Coimbra não foi tão longe, não descompôs Deus, limitou-se a afirmar que a amizade dele não era perpétua ou universal.

Calvão da Silva não é Vieira: sabemos que os portugueses de Seiscentos tinham feito tudo para se desincumbirem de responsabilidades na luta contra Espanha – aliaram-se aos protestantes e aos judeus que tinham acabado de expulsar, como narra a Prof.ª Ana Leal de Faria em Duarte Ribeiro de Macedo Um Diplomata moderno – mas não sabemos se o Prof. Calvão da Silva deu os passos necessários para apurar responsabilidades no caso das inundações de Albufeira. Com efeito, invocou a Natureza e o nome de Deus para desresponsabilizar os homens mas não deu provas de diligência no apuramento de responsabilidades humanas no drama daquelas inundações.

Com efeito, não pareceu estranho ao Sr. Ministro da Administração Interna que, tendo a Natureza e Deus mandado chuva para tanto lado. só em Albufeira, e em menor medida em Quarteira, tivesse havido problemas. Também devido a essa sua distração, o ministro julgou que não valia a pena mencionar o PDM: assegurava ele o escoamento das águas em caso de chuvas tão normais, como as de anteontem, que alguns interessados elevam à categoria de concorrente do Dilúvio? O seu Ministério tinha informado com rigor sobre o PDM? O Conselho de Ministros tinha examinado com proficiência o dito PDM? No telejornal de ontem, dois habitantes de Albufeira referiam como sendo do conhecimento geral que a câmara local cortou ribeiras e que portanto a água tinha que ir para algum lado. E o presidente da câmara de Albufeira, um dos inundantes e ora autoproposto salvador dos que inundou, confessava indiretamente a culpa, ao referir a «obra pública» por fazer e que teria impedido as inundações. Este mesmo corresponsável pelos danos das inundações, dando mais um exemplo flagrante de «risco moral», já pediu a declaração do estado de calamidade – para que todos os contribuintes portugueses paguem os seus erros urbanísticos.

Tudo leva a crer que a Natureza e Deus, para citar a curiosa cosmologia do Sr. Ministro, aprovam os PDM bem elaborados – e castigam os que se promovem a mais despudorada especulação imbiliária democrática como o de Albufeira. Lembra-se o leitor que o Arq. Gonçalo Ribeiro Teles passou anos a prevenir sobre os efeitos daqueles dislates urbanísticos?

Em novembro de 1967, grandes chuvas mataram mais de 400 portugueses e mostraram um país desvertebrado. Salazar, o velho autocrata, terá ficado por um momento desiludido com a sua própria obra, a avaliar pela narrativa do embaixador Franco Nogueira, e muitos portugueses – o engº António Guterres é um caso conhecido – , num momento de recuperação da consciência social, iniciaram um movimento de ajuda às vitimas da tragédia, entrando assim na vida cívica. As inundações de anteontem são pouco ao lado daquela tragédia. Mas são alguma coisa. Há a lamentar um morto, o que é triste mas é menos triste do que 400 mortos. As inundações de anteontem mostram também um país desestruturado e corrompido, que procura compensar a incompetência pelo método asado de deitar a mão ao dinheiro dos outros. As inundações deviam ter servido para a recuperação de uma consciência nacional reformadora e não para usar o Santo Nome de Deus como biombo que tapa a corrupção imobiliária e a extraordinária incompetência da maioria das nossas autarquias locais.

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Para ver e ouvir as inimitáveis palavras do ministro, queira ir a

http://www.rtp.pt/noticias/pais/ministro-lamenta-furia-demoniaca-no-algarve-deus-nem-sempre-e-amigo_n870638

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